ENTREVISTA-Pih vê conjunção inédita de problemas para moinhos

Há 42 anos trabalhando na indústriado trigo, o presidente do Moinho Pacífico, um dos maiores doBrasil, afirmou que a indústria de moagem do país enfrenta umaconjunção inédita de problemas, agravados mais recentemente pormedidas do governo da Argentina, principal fornecedor damatéria-prima aos brasileiros. "Nunca vi uma situação dessa, juntou vários problemas,frete com custo astronômico, baixa oferta de trigo no mundo,preços altos, problemas de safra no Brasil, geada na Argentina,problemas relacionados a registros de exportação (naArgentina)", disse Lawrence Pih, em entrevista à Reuters portelefone. Nesta semana, o governo da Argentina ampliou a suspensãotemporária para a emissão de registros de exportação[ID:nN04481719], causando ainda mais preocupações para o setor,que está assustado com a possibilidade de ter que comprarmilhões de toneladas do grão fora do Mercosul, pagando taxas efretes mais elevados, além do custo maior do produto. O Pacífico, com capacidade de moer cerca de 900 miltoneladas por ano, importa boa parte do produto da Argentina.E, apesar de dispor de logística privilegiada por estarcontíguo ao porto de Santos, onde a mercadoria importada chega,Pih prevê problemas. "Tem diversos: o primeiro é se a Argentina vai conseguirembarcar até o final de fevereiro (já há registros deexportação para 7 milhões de toneladas, e esse volume teria deser embarcado em três meses, de acordo com a nova regra). Ésaber se vai conseguir embarcar por causa dos fretes", afirmouele, lembrando que os custos do transporte triplicaram ante2006 e poderiam inviabilizar os embarques. [ID:nN30535728] O frete da Argentina para Santos está em torno de 45dólares/tonelada. Pelas contas do presidente do Pacífico, a Argentina jánegociou 6 milhões de toneladas das 7 milhões registradas. E asegunda preocupação de Pih, não menos grave, tem justamente aver com a disponibilidade de trigo. "Pelos meus cálculos, o Brasil comprou 2,5 dos 6 milhões jávendidos. E não vai conseguir comprar mais porque não temespaço para armazenar (um volume maior em um período curto)." Segundo ele, os moinhos do país pegarão pouco da diferençaentre o que foi vendido e o que foi registrado também devido aoutras nações buscarem o competitivo trigo argentino. Além disso, o presidente do Pacífico disse trabalhar comquebra de safra argentina em função das geadas, o que apertamais a oferta no país vizinho. "Nesse cenário (considerando as exportações já feitas e oconsumo argentino), eles têm mais 2,5 milhões para vender nestasafra. Agora, quando abrirem os registros novamente vai terdemanda por esses 2,5 milhões não só do Brasil, mas do mundo...Supondo que o Brasil consiga comprar mais 1,5 milhão do quesobrou, o país terá importado ao todo da Argentina 4 milhões detoneladas." Isso significa, segundo Pih, que o Brasil precisará buscarmais grão fora do seu tradicional fornecedor, já que a demandapelo importado do país é de ao menos 6 milhões de toneladas. Outro agravante, lembrou Pih, é que a safra do Rio Grande doSul teve problemas [ID:nN04498970], e pelo menos 300 miltoneladas do cereal gaúcho foi exportado. "Com isso a importação (de origens fora do Mercosul) podeser superior a 2 milhões de toneladas." [ID:nN07286557] APERTO NAS MARGENS De acordo com o industrial, o aperto na oferta de trigo noBrasil ocorrerá entre maio e julho, um período em que ainda nãohá disponibilidade safra nova dos Estados Unidos, que poderiaaliviar a situação, apesar de todos os custos adicionais parase importar o cereal fora do Mercosul. "Isso agrava o cenário de ter que importar 2 milhões. Issotraz preocupação", disse ele, observando que o cereal dos EUAcusta hoje em torno de 360-370 dólares por tonelada (FOB, noGolfo do México), sem falar do frete para Santos, de 86-95dólares, mais tarifa de importação de 39 dólares, além de 22,5dólares de taxa de Marinha Mercante. Apesar de considerar provável, diante do aumento de custoscom o trigo um repasse para o preço da farinha, Pih disse queos moinhos, de outro lado, enfrentam a concorrência da entradada farinha argentina mais barata. "Os moinhos argentinos pagam 180 dólares (por tonelada)pelo trigo, e para gente custa 310", afirmou ele, lembrando dapolítica argentina que prevê preços diferenciados para locais. "A competitividade da farinha deles aumenta muito. Acho quevai entrar 1 milhão de toneladas de farinha ano que vem noBrasil, contra 700 mil este ano, e 300 mil no ano passado",comentou, apontando o problema que torna mais difícil o repassee a recuperação de margens em um mercado competitivo.

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