João Arraes
Vivo pretende investir em equidade racial dentro da empresa neste momento, diz presidente Christian Gebara. João Arraes

‘Equidade racial se tornou prioridade’, diz presidente da Vivo

Segundo Christian Gebara, companhia persegue meta de, até 2024, ter 30% de lideranças negras; hoje, porcentual é de 19,5%

Fernando Scheller e Fernanda Guimarães, O Estado de S.Paulo

25 de julho de 2021 | 05h00

A agenda ESG – que concentra ações ambientais, sociais e de governança – é extensa, mas, na Telefônica/Vivo, líder de setor no País, há uma prioridade clara no momento: a equidade racial. Para Christian Gebara, presidente da gigante das telecomunicações do Brasil, já passou da hora de se fazer essa reparação histórica: “Não é algo de um dia para o outro, mas é uma jornada em que entramos de cabeça”.

Para isso, é preciso estabelecer metas, diz o executivo, tanto na porta de entrada quanto nas posições de liderança. O próximo programa de estágio da companhia, em setembro, estabeleceu que metade das 750 vagas deverá ser ocupada por negros. E a meta é ter 30% de negros na liderança até 2024, ante os atuais 19,5%. “Somos uma empresa que fala muito para fora (sobre diversidade) e temos de transmitir isso para que as pessoas acreditem que estamos investindo nessa pauta”, disse o executivo ao Estadão. Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista.

A temática ESG é muito abrangente. Dentro desse assunto, qual é hoje a prioridade da Vivo?

As questões ambiental e de diversidade estão na lista prioritária. É uma necessidade dos nossos clientes, da sociedade e uma demanda dos nossos colaboradores. Não consigo, por exemplo, ver a cultura de uma empresa como inovadora se não incluirmos diversidade como algo inerente ao dia a dia de trabalho. A diversidade traz mais inovação e colaboração. Não atuo em um único segmento de cliente, em apenas uma região do Brasil. A Vivo é democrática, tem desde cliente que consome R$ 10 por mês até as maiores empresas do Brasil. Estamos em todas as cidades do País e, se você não representa nem dentro da sua própria empresa o que é a sociedade brasileira, não consegue capturar o Brasil nos produtos. A diversidade é pilar da companhia. No tema raça, é uma reparação de um desequilíbrio estrutural. Acreditamos que temos de fazer nossa parte nessa reparação. Não é algo de um dia para o outro, mas é uma jornada em que entramos de cabeça.

Como são essas cotas?

No nosso programa de trainee, colocamos uma cota de 30% para negros e acabamos contratando 43%. Agora, no programa de estagiários, vamos ter 750 vagas, a partir de setembro. E colocamos a meta de contratar 50% de negros. Tiramos a necessidade de inglês como pré-requisito e vamos ajudar quem chega a ter essa formação. E nos conectamos com várias instituições que nos ajudam nessas contratações. Nossa meta é que nossa empresa tenha 30% de negros em 2024, hoje são 28,5%. Levaremos a mesma meta para a liderança, queremos ter 30% – hoje estamos em 19,5%. Em todas as vagas de coordenação é preciso ter ao menos um negro como finalista. Somos uma empresa que fala muito para fora (sobre diversidade) e temos de transmitir isso para que as pessoas acreditem que estamos investindo nessa pauta.

As medidas relativas à pauta ESG são percebidas pelos consumidores?

Internamente eu preciso mostrar para os meus colaboradores que acredito nisso. Reduzimos muito, por exemplo, o consumo de plástico. As pessoas veem a Vivo como uma empresa que fornece internet, que chega pelo smartphone ou computador. Mas criamos um movimento de reciclagem, que não tem a ver com nosso serviço. Abrimos todas nossas lojas e pontos de coleta para reciclar eletrônicos que as pessoas não usam mais. Não somos nós que fabricamos, mas achamos que era o momento de o consumidor associar que essa empresa é “eco-friendly”, ela está preocupada com o meio ambiente. E isso é verdadeiro e acredito que o consumidor vai exigir da empresa.

Houve um recente caso de racismo em uma loja da Vivo, na qual um funcionário foi ofendido. Como foi lidar com isso?

Soubemos de um caso com um funcionário com dez anos na Vivo em uma loja em Niterói. Era um cliente desequilibrado. O funcionário ficou abalado com o acontecido, foi algo que sensibilizou a todos. É inaceitável. A polícia foi chamada, o cliente foi preso, mas solto depois de pagar a fiança. 

Como a empresa está trabalhando a questão ambiental e a de energia renovável?

Em relação ao meio ambiente, não somos uma indústria, mas somos uma empresa emissora de CO2, com veículos que trabalham para a Vivo e os ares-condicionados das centrais. E nos sentimos na obrigação e na responsabilidade de compensar essas emissões e reduzi-las. Somos uma empresa carbono neutro porque reduzimos a emissão ou compensamos, por meio de créditos. E temos um projeto bem grande no caminho de concretizar o uso de energia limpa. Até o próximo ano vamos criar mais 70 plantas de energia limpa, entre biogás, hídrica e solar. O projeto como um todo vai abastecer 28 mil unidades da empresa, centrais telefônicas, todas nossas lojas e todos os prédios administrativos. É um movimento importante nosso. Se hoje somos carbono neutro, queremos ir mais longe e temos o objetivo de conseguir ser carbono zero até 2025. E temos uma outra meta, muito mais ambiciosa, que é em 2040 ser carbono zero em toda a nossa cadeia de valor, que será o grande desafio.

A Vivo é uma empresa com uma ampla cadeia de fornecedores. Como incentivar que todos sigam esse caminho?

Vira um critério de seleção de fornecedor e passa a ser uma exigência. E os requerimentos que você vai ter para cada fornecedor serão diferentes. Estamos hoje avaliando o grau de maturidade de cada um deles, e haverá um plano de ação para cada um, dependendo da natureza do negócio. E hoje existe, no geral, um maior grau de consciência por parte deles.

Como se diferenciar de empresas que usam o ESG apenas como marketing?

Temos uma atuação nacional em um país continental como o Brasil. Somos uma empresa que fala em digitalizar para aproximar. Não falar de ESG, por mais que possa parecer que estamos falando das mesmas coisas que outras empresas, seria uma falta de responsabilidade do nosso lado. E, talvez, não falávamos muito do que sempre fizemos porque o interesse fosse menor. Por exemplo: a Fundação Telefônica Vivo é uma das fundações mais atuantes no Brasil. Temos um orçamento anual de R$ 60 milhões dedicados à educação em que atuamos no Brasil inteiro, além de um dos maiores programas de voluntariado do País. Agora, como existe mais interesse, temos falado de maneira mais forte. É claro que tem algumas tendências nessa sigla ESG que foram cada vez mais relevantes para a sociedade em geral nos últimos anos, e temos atuado de acordo com essa relevância.

Uma pesquisa recente, publicada pelo ‘Estadão’, mostra que presidentes de empresas brasileiras estariam menos animados com a agenda ESG do que os de outros países. Uma das explicações era que o ambiente no Brasil é mais difícil, com o governo indo na direção contrária nessas questões. Como o sr. vê esse tema?

Nosso programa e nossa atuação são independentes. A meta para a questão ambiental está desenhada há mais de dois anos, e vamos atrás desse plano. Temos autonomia, e o tema diversidade é algo em que acreditamos. Com um entorno polarizado, podem ocorrer críticas, e estamos abertos a elas. A polarização acaba gerando críticas mais duras.

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'Prometer carbono zero em 2050 não é relevante'

Para Walter Schalka, é hora de governos e empresas agirem rápido para combater os efeitos do aquecimento global, por isso, metas têm de ser imediatas

Fernando Scheller, O Estado de S.Paulo

01 de agosto de 2021 | 05h00

O presidente da gigante de celulose Suzano, Walter Schalka, afirma que é hora de governos e empresas agirem rápido para combater os efeitos do aquecimento global. Por isso, as metas têm de ser imediatas, em vez de alongadas em décadas. “Quando uma empresa promete ser carbono zero em 2050, não vejo como uma coisa relevante. Não dá para ficar postergando, acho muito mais válido dizer que vai reduzir emissões em 30% até 2030.”

Para o executivo, é urgente que se defina um modelo de precificação para a compra de créditos de carbono por empresas poluentes – ele acredita que o tema deve ser prioridade da próxima reunião da COP-26. Schalka diz que o sistema deve incentivar o senso de urgência: “Tem de ser caro (comprar créditos de carbono), para forçar as empresas a investir na descarbonização”.

A diversidade virou tema abordado pelas empresas industriais. Como o sr. vê esse movimento?

Não é questão das empresas industriais, mas da sociedade. Há uma série de grupos – mulheres, negros, LGBTQIA+ e PCDs (pessoas com deficiência) – que merecem ser apoiados e ter oportunidades. Há dois anos, nosso programa de trainee deixou de exigir inglês e não olhamos mais a universidade (onde a pessoa estudou). Não achamos que a formação universitária é suficiente para determinar quem vai ser um líder no futuro, que é o que tentamos identificar. No último ano, conseguimos ter 56% de mulheres e 44% de negros entre os aprovados.

O sr. se envolveu pessoalmente no grupo Unidos pela Vacina. O que isso ensinou?

Há ações conjunturais a ser tomadas e questões estruturais da sociedade. Na questão emergencial da pandemia, não trabalhamos só na vacina, mas construímos cinco hospitais, com a Gerdau, e fizemos mais de 6,5 mil respiradores. Mas, para além dessa conjuntura, o Brasil não pode ter uma sociedade de castas. Os 200 milhões de brasileiros têm de ter oportunidades e responsabilidades iguais. Nossa posição foi muito clara de não privilegiar nossos funcionários em detrimento da sociedade como um todo. 

Há um problema de origem.

Há uma combinação muito perversa de corporativismo e patrimonialismo no Brasil. Quantas associações entraram na Justiça dizendo que deveriam tomar vacinas antes dos outros? Há corporações que têm mais subsídios (vantagens), no Legislativo, no Judiciário, no Executivo, em sindicatos. Infelizmente, a “Lei de Gerson” está espalhada e tem gente que fala, com orgulho, que consegue mais do que o outro, quando deveria ter vergonha.

Como a Suzano lida com as comunidades no entorno de suas fábricas e florestas? 

A relação vem mudando, mas não está no ponto ideal. Em alguns casos, ainda há paternalismo. A comunidade demanda algo, a empresa atende. Isso cria um círculo vicioso, porque o problema é estrutural. Nos últimos anos, temos tentado – e, em alguns casos, conseguido – criar um programa de renda sustentável, e não ficar subsidiando apenas. Temos um programa de produção de mel, com auxílio para venda e exportação, que funciona em comunidades da Bahia, do Espírito Santo e de Mato Grosso do Sul.

A questão ambiental parece ser um desafio para muitas indústrias. Como a Suzano vê a questão das metas ambientais?

Nosso propósito é renovar a vida com a árvore. No passado, a gente vendia celulose. Agora, tiramos energia dela, vendemos energia. Mas podemos fazer muito mais. Da árvore a gente pode tirar outros produtos. Hoje, a indústria têxtil é um mercado de 106 milhões de toneladas: 20 milhões vêm do algodão, que demanda muita água; 80 milhões são de fibras derivadas do petróleo; e só 6 milhões vêm da árvore – a viscose. Estamos trabalhando em duas alternativas ecológicas para que esses 6 milhões aumentem significativamente. A árvore pode também produzir o bio-óleo, para substituir produtos fósseis. Temos a oportunidade de ter uma cadeia muito mais abrangente de produtos.

O que há em desenvolvimento?

Temos três ecossistemas: com uma equipe própria de desenvolvimento, com a academia e com startups. Investimos numa empresa finlandesa, a Spinnova, que já vale € 600 milhões, para fazer fio de tecido. Hoje, somos carbono negativo: sequestramos 15 milhões de toneladas e emitimos 3,2 milhões.

A nova fábrica, em Mato Grosso do Sul, pode ser um teste para novas tecnologias?

Esse projeto é superinteressante e tem a responsabilidade de reduzir a nossa emissão de carbono em relação à quantidade de celulose produzida. Vai ser o projeto com mais geração de energia em nosso sistema, com 180 MW médios de energia, o que é equivalente a uma hidrelétrica de porte razoável. 

E qual é o efeito do ESG no negócio? A agenda traz benefícios?

Tem muito efeito em vários aspectos, o primeiro deles é o custo de capital. A Suzano tem emitido títulos associados a objetivos ambientais. Fizemos uma emissão de dez anos com a menor taxa de juros da nossa história recentemente, com juros de 3,1% ao ano, em dólar.

Segundo pesquisa recente, os executivos brasileiros são menos otimistas do que a média sobre o ESG. Há discurso vazio por aí?

Quando uma empresa promete ser carbono zero em 2050, não vejo como uma coisa relevante. Não dá para ficar postergando, acho muito mais válido dizer que vai reduzir emissões em 30% até 2030. Precisamos de ações imediatas. Outra questão importante é a definição da precificação do carbono, de como isso vai ser comprado e vendido. Tem de ser caro, para forçar as empresas a investir na descarbonização. A COP-26 (conferência do clima em novembro, na Escócia) é a grande oportunidade para essa definição.

Mas o País está na contramão no meio ambiente, como mostram dados de desmatamento.

Temos de demonstrar ao governo que há formas melhores de gerar valor para as comunidades amazônicas do que permitir o desmatamento ilegal. Podemos nos tornar uma potência ambiental. Temos de combater ferozmente ilegalidades. O Brasil tem legislação ambiental muito positiva, e ela deve ser colocada em prática. O setor privado tem de levantar a voz.

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