Marcos Santos/USP Imagens
Escassez de chips já afeta entrega de cartões novos, mas setor ainda trata tema com sigilo. Marcos Santos/USP Imagens

Escassez global de chips chega ao setor de cartões de crédito no Brasil

Após fazer estrago na indústria automotiva, falta de materiais atinge mercado que movimenta R$ 2 trilhões ao ano e abrange bancos, fintechs e varejistas; clientes já esperam até um mês pela chegada do novo cartão

Cynthia Decloedt, Altamiro Silva Júnior e Marcelo Mota, O Estado de S.Paulo

20 de outubro de 2021 | 05h00

A escassez global de semicondutores, que já paralisou a indústria automobilística, aterrissou na indústria de cartões do Brasil, que movimenta cerca de R$ 2 trilhões ao ano e abrange bancos, fintechs e varejistas. A falta do insumo praticamente zerou o estoque de chips das emissoras de cartões, que costumava ser suficiente para abastecer a demanda para a emissão de novos plásticos por três meses. 

Agora, clientes dessas instituições chegam a esperar até um mês pela chegada de um cartão, gerando, por vezes, problemas em pagamentos que já estão cadastrados no plástico antigo ou retardando consumo.

Para a indústria, não está claro ainda qual deve ser o impacto financeiro. O que se sabe é que o problema deve persistir por alguns anos, e algumas instituições têm utilizado estratégias de escalonamento de entregas e seleção de clientes para contornar o problema. 

No entanto, essa não é uma regra nessa indústria que atravessa um momento de grande competição, com a entrada de fintechs e varejistas, que, por sua vez, têm se esforçado para ampliar sua base de clientes, tendo o cartão como porta de entrada.

A Porto Seguro informa que, “devido à falta de matéria-prima no mercado, a emissão de cartões está sujeita a atrasos”. Em nota, a companhia diz estar trabalhando com seus fornecedores para que a situação “seja normalizada o quanto antes”. 

Também procurado, o Bradesco esclareceu que, “em setembro, devido à falta de chips no mercado, o banco registrou alguns atrasos na entrega de cartões aos seus clientes. Porém, a situação hoje está totalmente normalizada, e todos os cartões – de débito e crédito – estão sendo entregues dentro dos prazos previstos”.

O Itaú Unibanco afirma que falta de chips não foi sentida pela instituição e que sua emissão de cartões transcorre normalmente. Santander e Banco do Brasil não comentaram, e a Caixa não respondeu até a conclusão desta edição.

Efeitos

Números da Abecs, associação que representa as operadoras de cartão de crédito, mostram que o potencial de dano dos é grande. Os plásticos físicos responderam por cerca de 80% dos R$ 2 trilhões de transações realizadas com cartões de débito e crédito e nas operações com cartões pré-pagos, segundo o balanço anual da associação. As compras por aproximação ainda são mínimas, de cerca de R$ 41 bilhões.

O assunto é tratado com sigilo pelo setor, segundo fontes da indústria. Ao Estadão/Broadcast, a associação negou, por meio de sua assessoria de imprensa, que o assunto tenha entrado na pauta da entidade.

O problema chega também às maquininhas que, igualmente, utilizam chips. A previsão de especialistas é de que a crise pode levar até dois anos. “Todos os emissores que precisam cartões com chip estão com problema, assim como os credenciadores, que precisam de maquininhas para aceitar o cartão e que não estão disponíveis por falta de chip”, comentou o executivo à frente de uma empresa do setor que não quis se identificar. 

Para Boanerges Ramos Freire, presidente da Boanerges & Cia., consultoria especializada em varejo e meios de pagamento, a crise é séria, afeta o setor de forma generalizada e vai demorar para ter fim. “Fala-se em um ano e meio a dois anos.”

Demanda

O desabastecimento tem como pano de fundo um aumento na demanda global pelo circuito integrado, que foi subestimada pelas empresas asiáticas responsáveis pela transformação do silício em um chip, na sua forma bruta. 

“A decisão de encerrar operações, devido a uma capacidade ociosa presente nas fábricas asiáticas, aconteceu cinco anos antes da pandemia e a retomada, já anunciada no fim do ano passado, deve levar praticamente o mesmo tempo”, explicou uma fonte fabricante de chip ouvida pelo Estadão/Broadcast em condição de anonimato, acrescentando que tem recomendado aos emissores estratégias alternativas e que muitos resistem.

Entre os vários segmentos econômicos que utilizam chip, o de telecomunicações tem sido destaque na demanda, pela mudança do padrão de tecnologia das redes móveis e de banda larga no mundo para a quinta geração, ou 5G. A pandemia, por sua, acentuou a procura por cartões sem contato, enquanto prejudicou as cadeias de suprimento, afetando a produção dos semicondutores.

Cada instituição emissora de cartão tem adotado uma estratégia para evitar ser pega pela crise. Alguns bancos vinham antecipado a clientes a entrega de cartão com data de vencimento próxima. Outras escalonam as entregas ou selecionam clientes, com foco naqueles que efetivamente devem usar o plástico, já que o custo de emissão do cartão, no agregado, está aumentando.

Isso porque existe também uma crise de falta de contêineres para transportar produtos e as processadoras dos cartões estão tendo de utilizar transporte aéreo.

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Entrega de celular também atrasa diante de escassez global de componentes

Líder de associação do setor, que depende de componentes importados, relata que operadoras já se deparam com a entrega parcial de aparelhos e acessórios

Circe Bonatelli, O Estado de S.Paulo

20 de outubro de 2021 | 05h00

A falta de chips, que provocou paralisações na indústria automobilística nos últimos meses e afeta agora os cartões de crédito, já causa problemas para o mercado de celulares, que também depende de componentes importados.

O líder de uma associação do setor de telecomunicações relatou que as operadoras passaram a se deparar com situações em que não recebem integralmente encomendas de aparelhos e acessórios. “Muitas vezes se entrega 80% do que foi pedido, mas já vi casos de até 50%”, diz a fonte, que preferiu não se identificar. 

A Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee) já percebeu a dificuldade das fabricantes locais de adquirir componentes. Segundo o levantamento mais recente, 25% das empresas relataram esse tipo de problema em agosto, contra 16% em julho.

Além de componentes eletrônicos, foram identificadas faltas de outras matérias-primas como cobre, aço, carbono e alumínio. 

O presidente da Abinee, Humberto Barbato, explica que a falta de insumos está relacionada às oscilações na oferta e na demanda na pandemia. À medida que setores que sofreram mais – como o automotivo – retomam a produção, outras indústrias são afetadas pela escassez de chips.

Até o momento, porém, a falta dos componentes não se traduziu em um desabastecimento de celulares. “No cenário atual, dificilmente isso vai ser sentido pelos consumidores”, diz o gerente de pesquisa da IDC, Reinaldo Sakis.

Ele acrescenta que a falta de alguns aparelhos só não está ocorrendo porque os consumidores estão retraídos por conta dos problemas econômicos do País, como a escalada inflacionária, que deve deixar até a Black Friday mais tímida.

Claro, Oi, TIM e Vivo não responderam se têm sentido algum tipo de desabastecimento e encaminharam o tema à Conexis, seu sindicato, que disse estar acompanhando o caso e tomando medidas como a antecipação de pedidos.

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