Espanha reduz tamanho do Estado para enfrentar crise

Governo anuncia redução de 30% do número de estatais; corte de mais de 500 cargos executivos nas empresas públicas e extinção de 32 postos de confiança no governo

Jamil Chade, de O Estado de S. Paulo,

30 de abril de 2010 | 17h25

A Espanha reduz em 30% o número de estatais, corta mais de 500 cargos executivos nas empresas públicas e acaba com 32 postos de confiança no governo. As medidas anunciadas nesta sexta-feira, 30, fazem parte de uma tentativa desesperada de reduzir o déficit nas contas públicas. O governo também confirmou que, pela primeira vez desde a entrada da Espanha na zona do euro, mais de 20% da população está desempregada. Em algumas regiões, a taxa de desemprego já chega a 27%.

 

A Espanha foi a xodó da UE por anos, com crescimento a taxas elevadas, geração de emprego e modernização de sua economia. Mas o país se tornou em uma das maiores vítimas da crise mundial e sua economia ainda não conseguiu superar a recessão. O déficit explodiu e passou de 11% do PIB ao final de 2009. Nesta semana, o país ainda teve seu rating rebaixado, como uma forma de punição do mercado financeiro.

 

Na sexta, o governo decidiu reagir. Madri anunciou que acabará com 29 empresas públicas, o que levará à redução de 80 executivos e mais de 450 cargos com salários elevados. O número de empresas na qual o governo tem mais de 50% das ações passa então de 106 para apenas 77.

 

A reestruturação prevê o fim de empresas mercantis, a fusão de 24 companhias, assim como a eliminação da maioria de fundações mantidas pelo Estado.

 

A reforma também atingiu a máquina do Estado. 32 cargos de alto escalão desapareceram do dia para noite, na esperança de economizar € 16 milhões em salários por ano. No total, o governo reduziu em 10% o número de cargos de alto escalão na estrutura do poder.

 

A meta do governo é a de reduzir os gastos da máquina pública em € 50 bilhões em três anos. Para isso, precisará cortar 4% do funcionalismo público. Na sexta, os cargos que desapareceram foram de diretores-gerais de departamentos e secretários de ministérios.

 

Para a vice-presidente do governo espanhol, María Teresa Fernández de la Vega, as medidas tem como meta a eficiência da máquina estatal. "Atuamos com rigos, decisão e responsabilidade. Os cortes significam mais trabalho com menos recursos humanos", disse.

 

Dados da Organização Internacional do Trabalho revelados pelo Estado há poucos dias apontam que a tendência de corte de funcionários públicos está sendo registrada em toda a Europa.

 

Desemprego 

 

O governo ainda confirmou que a taxa de desemprego no país superou pela primeira vez desde 1997 a marca de 20%. No primeiro trimestre, a alta foi de 1,22% e já seriam 4,6 milhões de espanhois sem trabalho. Entre os imigrantes, um a cada três não tem emprego.

 

A Espanha segue uma tendência contrária a de algumas das principais econonomias europeias. Na França e Alemanha, a expansão do desemprego já foi freada. Mas a quarta maior economia da zona do euro continua em franca queda, com uma contração do PIB e alta da taxa de desempregados. Desde que entrou em recessão em 2008, a taxa de pessoas sem trabalho dobrou.

 

Na região de Andaluzia, uma a cada quatro pessoas está desempregada. O número é tão grande que o governo já não consegue pagar seguro desemprego a todos.

 

O setor de construção é o que mais sofreu e chegou a representar 20% da economia espanhola. O setor imobiliário não sobreviveu à crise, depois de construir em dez anos mais casas na Espanha que na França, Alemanha e Itália juntas.

 

O resultado do colapso do setor foi a contração de 3,6% na economia espanhola em 2009. Neste ano, a previsão é de mais uma queda, de 0,3%. O governo prevê que o crescimento virá apenas em 2011, com uma expansão de 1,8%, insuficiente para desfazer as perdas dos últimos anos.

 

Mas tanto o BC espanhol como a Comissão Européia julgam que o executivo está sendo otimista demais em suas previsões e que a eventual expansão em 2011 não chegará nem a 1%.

 

A oposição na Espanha não perdeu a chance de criticar as medidas anunciadas. O líder do Partido Popular, Mariano Rajoy, classificou a iniciativa de "isolada e inútil".

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