ESPECIAL-Boom do álcool traz desafios e esperança a trabalhador

A história de MelquíadesBatista Soares é comum a milhares de brasileiros. Nascido numafamília humilde, ele estudou até a sexta série e começou atrabalhar aos 16 anos como cortador de cana, motivado por suamãe, que ainda trabalha nos canaviais. Mas as perspectivas de Soares começaram a mudar alguns anosatrás, quando recebeu treinamento na usina em que trabalha ecomeçou a atuar como operador de colheitadeira. "Eu ganho um pouco a mais e tenho mais conforto agora",afirmou Soares, 35 anos. Da cabine da colheitadeira onde passaoito horas por dia, com ar-condicionado, ele mostra preocupaçãocom a mãe. "Ela continua trabalhando porque a pessoa pega intimidadecom o pessoal. Para ela é como se fosse uma família... Mas elaficou feliz quando parei, tendo que trabalhar sob sol, chuva,frio. Ela sabe a dureza que é", disse ele. Mas a promoção de Soares está se tornando um feito maiscomum no país, com a expansão da indústria de álcool, que crianovas oportunidades de trabalho e a necessidade de redução docorte manual. A pressão ambiental e de saúde pública está crescendocontra a queima de cana, que é feita para viabilizar a entradade trabalhadores nos canaviais e facilitar o corte, forçando asusinas a investir em mecanização da colheita. A situação foiressaltada com a maior exposição do setor sucroalcooleirodiante do aumento do interesse de outros países a adotar oálcool como substituto do derivado de petróleo. "Não tenho bola cristal mas (a redução do corte manual) éuma tendência, até pelo processo de mecanização", disse RemígioTodeschini, presidente da Fundacentro, fundação do Ministériodo Trabalho que monitora as condições e segurança do trabalho. O impacto da colheita mecanizada na mão-de-obra era um dosmaiores obstáculos ao processo, já que poderia levar adesemprego maciço em determinadas regiões. Uma única máquina pode colher o mesmo volume que colheriam87 cortadores, de acordo com a União da Indústria deCana-de-Açúcar (Unica). E há cerca de 260 mil cortadores no centro-sul do Brasil,onde está plantada cerca de 85 por cento da safra nacional decana. Cerca de 160 mil trabalhadores estão no Estado de SãoPaulo. O problema é agravado pelo reduzido nível de escolaridadedestes trabalhadores. Embora os anos de estudo da categoriatenham aumentado, a carga ainda é pequena: 4,2 anos na média dopaís. Mas a pressão ambiental está crescendo, e governosestaduais têm promovido mudanças. Em São Paulo, que concentra 65 por cento da safrabrasileira, governo estadual e usinas assinaram um acordo nomês passado pelo qual fica antecipado em sete anos, para 2013,o prazo final para queima de cana nas áreas mecanizáveis e em14 anos, para 2017, o prazo para áreas com maior declive. NOVAS ESPERANÇAS O crescimento do setor poderia tornar o processo muito maissuave. Há uma necessidade crescente por trabalhadores paraoutras áreas da indústria, que deve receber investimentos deaproximadamente 12 bilhões de dólares até 2013 em novasunidades e expansões. "Você tem sempre que olhar para dois aspectos quando falasobre o assunto (perspectivas dos cortadores): a expansão dosetor e a mecanização", disse a consultora da Unica, IzaBarbosa. "Não é cortar cana e vender álcool e açúcar. Tem diversosprocessos simples que o cortador, se for capacitado, tem comoseguir em outras áreas da própria empresa." Iza afirmou que teve início uma ampla ação do setor nocentro-sul, nos últimos anos, para capacitar trabalhadores. Emjogo não apenas o impacto social do desemprego, mas também oproblema da escassez de trabalhadores capacitados como umaameaça ao crescimento das empresas. A Unica estima que 300 mil postos de trabalho serão criadosnos próximos cinco anos, desde motoristas de máquinas até onível gerencial das usinas. "Os novos postos são sempre oferecidos primeiramente anossos colaboradores. Eles normalmente são as pessoas mais bempreparadas para assumir as novas funções", disse Carlos René doAmaral, gerente de Recursos Humanos da São Martinho . O grupo foi um dos pioneiros na montagem de um programaregular de treinamento de funcionários, cerca de dez anosatrás. Desde então, promoveu cerca de 250 cortadores, que hoje,na sua maioria, assumiram funções como a de operador de máquinaagrícola e a de alimentador de moendas. A necessidade de trabalhadores com experiência é aindamaior nas novas fronteiras da cana. Amaral disse que o grupo,que está construindo uma usina em Goiás, levou 20 empregados deSão Paulo para atuar na região. Embora a história de Soares seja ainda uma exceção, elaalimenta esperanças para o futuro. "Aconselho meus dois filhos a estudar, para ter umaprofissão melhor. Prefiro que não cortem... é um serviçopesado", disse ele. (Por Inaê Riveras)

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.