ESPECIAL-Energia nuclear resiste e crescerá no Brasil

Considerado líder mundial na geração de energia renovável, basicamente por seu potencial hidrelétrico, o Brasil mantém o interesse de investir em energia nuclear.

CAROLINA MARCONDES, REUTERS

23 de setembro de 2010 | 16h44

Além das duas usinas já existentes, o governo planeja uma terceira em Angra dos Reis (RJ) e quer levá-las para outros lugares do país.

Apesar do crescimento da geração eólica e com novas hidrelétricas previstas, especialistas destacam a necessidade de elevar o número de usinas nucleares para garantir o domínio da tecnologia e para que a fonte se consolide como perene.

Mas a desconfiança em relação à fonte nuclear ainda existe, e o alto investimento na construção de uma usina e o preço da energia levantam questionamentos.

Segundo a Agência Internacional de Energia Atômica (AEIA, na sigla em inglês), em abril de 2010 existiam 438 reatores de energia nuclear no mundo e outros 60 em construção. Dados mostram que 14 por cento da energia gerada no mundo em 2007 era nuclear.

No Brasil, a participação da fonte nuclear atualmente fica entre 2 e 3 por cento da matriz energética. Em 2030, o percentual será o mesmo, mas com o aumento de usinas hidrelétricas a geração nuclear também subirá, disse o presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Maurício Tolmasquim.

Além de Angra 3, estão sendo feitas análises preliminares em 13 Estados para locais que receberão novas usinas nucleares.

"A energia nuclear é uma alternativa para quando o potencial hidrelétrico acabar, o que deve acontecer em 2025 ou 2030. É preciso uma estratégia de construir usinas para manter o conhecimento tecnológico", defendeu Tolmasquim à Reuters.

Segundo o assistente da presidência da Eletronuclear, Leonam Guimarães, o Plano Nacional de Energia (PNE) de 2030 mostrou a necessidade de 4 mil MW médios de energia nuclear entre Sudeste e Nordeste, depois da entrada de Angra 3.

Guimarães afirmou que é "tecnicamente inviável uma Angra 4", descartando uma quarta usina no Sudeste em território carioca.

A Eletronuclear é o braço de energia nuclear da holding estatal Eletrobras.

Segundo dados da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), a capacidade atual de geração de energia nuclear no Brasil é de 2.007 megawatts (MW).

PREÇOS

O preço da energia nuclear está acima do preço da hídrica e próximo ao da eólica. Os investimentos para a construção de uma usina nuclear, contudo, são maiores se comparados a outras fontes.

Angra 3, por exemplo, terá investimentos de 8,4 bilhões de reais, para uma capacidade de 1.405 MW. A hidrelétrica de Santo Antônio, no Rio Madeira, tem orçamento de 13,5 bilhões de reais e terá capacidade de 3.150 MW.

O preço médio por MWh das últimas grandes hidrelétricas que foram a leilão --Belo Monte e Jirau, além de Santo Antônio-- foi de 76,08 reais. No último leilão de renováveis, a energia eólica ficou em 134,23 reais o MWh. E, segundo a Associação Brasileira de Energia Nuclear (Aben), o preço da energia nuclear é de 135,63 reais.

"A energia nuclear ainda é relativamente cara... Mas a eólica não serve para o fornecimento contínuo de energia", observou o presidente da EPE.

Para o diretor da Aben, Edson Kuramoto, será preciso que o país disponha de outra fonte de energia cujo fornecimento seja garantido em qualquer época do ano. "O Brasil domina a tecnologia nuclear e não pode abrir mão dessa fonte. A reserva de urânio do Brasil é comparada com o pré-sal", disse.

"O país possui matéria-prima, domina a tecnologia e usa combustível nuclear para a geração de energia", acrescentou o professor de Engenharia Nuclear da pós-graduação da UFRJ, Aquilino Senra.

RESÍDUOS PARA O FUTURO

As usinas nucleares emitem pouco CO2, mas também deixam resíduos que podem levar mais de um milênio para perda da radioatividade.

Nas usinas de Angra 1 e 2, os resíduos estão armazenados no local, mas futuras usinas poderão ter uma solução com resíduos fora da unidade de geração de energia, segundo Tolmasquim.

Kuramoto, da Aben, disse que o Brasil adota todas as normas internacionais de segurança e até 2018 haverá um local definitivo para os resíduos.

O professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Ennio Peres da Silva, questiona o destino dos resíduos radioativos no Brasil. "Se usarmos a energia nuclear em larga escala, a geração futura paga a conta. Eu prefiro uma Belo Monte a 10 usinas nucleares", disse.

(Edição de Cesar Bianconi)

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