Estagnação e enfraquecimento do governo italiano ampliam temor fiscal

Até então relativamente isolado da crise de dívida da zona do euro, país agora caiu no escrutínio dos mercados, assim como a Grécia, Irlanda, Portugal e Espanha 

Daniela Milanese, da Agência Estado,

23 de maio de 2011 | 11h57

A estagnação econômica e o enfraquecimento do governo conservador de Silvio Berlusconi elevam as preocupações sobre a situação fiscal da Itália. Até então relativamente isolado da crise de dívida da zona do euro, o país agora caiu no escrutínio dos mercados, assim como a Grécia, Irlanda, Portugal e Espanha.

O alerta foi disparado pela Standard and Poor's, que cortou a perspectiva do rating A+ de estável para negativa, indicando a possibilidade de rebaixamento. Enquanto outros países já tiveram suas notas derrubadas, essa foi a primeira ameaça à Itália.

Os analistas continuam acreditando que o país está em melhor posição que os demais para enfrentar o déficit público. Não há problemas com os bancos e o setor privado tem endividamento considerado baixo. Além disso, durante a crise financeira global, o governo ampliou os gastos de forma comedida, permitindo um quadro fiscal mais favorável neste momento.

Embora a dívida pública represente 120% do Produto Interno Bruto, o déficit em relação ao PIB ficou em 4,6% no ano passado, abaixo da marca de 6% da zona do euro.

Entretanto, a economia está patinando e ficou praticamente estagnada no primeiro trimestre deste ano, com alta de apenas 0,1%, bem abaixo da média do bloco, de 0,8%. O economista Luigi Speranza, do BNP Paribas, destaca que o PIB continua 5 pontos porcentuais abaixo do nível pré-crise. "Fraquezas estruturais e baixa competitividade no mercado exterior estão tendo um papel importante", avalia.

Mesmo envolvido em diversos escândalos, o governo conservador de Berlusconi já implantou estratégia de austeridade fiscal. Mas vem perdendo força e levanta questionamentos sobre a capacidade de aprovação de novas medidas e de reformas estruturais consideradas necessárias. "A situação política pode ser uma fonte de preocupação porque o governo tem somente uma pequena maioria no parlamento", diz Fabio Fois, economista do Barclays Capital.

As eleições municipais, realizadas em meados do mês, representaram duro golpe para o governo. A esquerda avançou e inclusive levou para o segundo turno a disputa pela prefeitura de Milão, cidade considerada a "fortaleza" de Berlusconi.

Os analistas do UniCredit não acreditam que o rating da Itália será rebaixado. Segundo eles, o alerta da S&P veio mais como uma "chamada de despertar" para o governo italiano, assim como ocorreu com os Estados Unidos. Ou seja, um sinal de que a agência de rating quer ser mais proativa nas suas avaliações e não ficar atrás da curva.

O fato é que a decisão da S&P pegou os mercados em um mau momento. A perspectiva de default da Grécia está cada dia mais concreta. A notícia também se juntou à derrota do governo socialista espanhol nas eleições locais no final de semana e ao vácuo de liderança no Fundo Monetário Internacional (FMI), criando uma onda de aversão ao risco entre os investidores.

"Isoladamente, cada uma desses acontecimentos tem justificativas próprias e a possibilidade de uma solução positiva", escreve Francesco U. Garzarelli, analista do Goldman Sachs, em relatório a clientes. "Mas, juntos, eles podem pesar sobre o sentimento sobre o risco soberano na Europa."

O Bank of Tokyo-Mitsubishi observa que a Itália tem o maior mercado de dívidas da zona do euro e a continuidade do aumento dos yields nas próximas semanas poderia ter um impacto "muito desestabilizador".

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