Estrangeiros dobram participação em açúcar e álcool no Brasil

Em agostom, grupos estrangeiros detinham controle de 12% da cana processada no Brasil

Reuters

24 de setembro de 2007 | 21h27

A presença de capital estrangeiro na indústria brasileira de açúcar e álcool praticamente dobrou em um ano, embora características do setor ainda representem um desafio para algumas empresas, segundo estudo recentemente concluído pela consultoria Datagro. Grupos e investidores estrangeiros detinham o controle de 12 por cento de toda a cana processada no Brasil no fim de agosto, ante 5,7 por cento um ano antes, quando a Datagro deu início ao levantamento. "Estamos observando que esse percentual está evoluindo mais rapidamente do que a gente imaginava", disse o presidente da consultoria, Plínio Nastari, à Reuters, acrescentando que esse movimento deve continuar pelos próximos anos. O Brasil é o produtor mundial mais competitivo de açúcar e álcool. Também o principal exportador destas duas commodities. O levantamento inclui a presença de capital estrangeiro nas ações em mercado das empresas abertas do setor: Cosan, Açúcar Guarani e São Martinho . Como a colheita da safra 2007/08 ainda está em andamento, a Datagro usou a temporada anterior como base para o cálculo. A compra da usina Santa Juliana, em Minas Gerais, pela gigante Bunge, anunciada na semana passada, vai elevar ainda mais o percentual. "Tendo como referência a safra 2006/07, o capital estrangeiro controla atualmente 51,28 milhões de toneladas de cana das 428 milhões que foram processadas para açúcar e álcool", afirmou Nastari. A maior participação ocorre por meio da Cosan, principal produtora de açúcar e álcool do Brasil, que tem 85 por cento de seu "free float" (ações no mercado) nas mãos de estrangeiros -- o equivalente a 12,4 milhões de toneladas de cana. O grupo francês Tereos, que no Brasil controla a Açúcar Guarani, é o segundo maior player com 11,3 milhões de toneladas, seguido pelo também francês Louis Dreyfus com 10,22 milhões de toneladas. Este grupo tem sete usinas e recentemente pediu permissão para abrir capital na Bovespa. O grupo espanhol Abengoa, a Infinity Bio-Energy, com base em Bermuda, e o grupo malaio Kuok aparecem em seguida no ranking. A constatação da Datagro contrasta com o sentimento geral no mercado, de que empresas estrangeiras têm sido "barradas" pelas características do setor ao tentar entrar no mercado brasileiro. A Bunge levou anos em busca de uma usina antes de anunciar a sua aquisição na semana passada. Empresas como a gigante norte-americana Archer Daniels Midland, maior produtora de etanol dos EUA, e a alemã Suedzucker estão tentando entrar no setor nacional há anos, de acordo com fontes do mercado, ainda sem sucesso. Algumas empresas demoraram ou ainda estão atrasadas porque o processamento de cana tem características completamente diferentes do que existe em outros países, disse Nastari. "No milho e na soja (que são fontes de biocombustível em outros países), não é necessário controlar a produção agrícola. Na cana, tem que ter uma relação muito bem definida com o supridor (de matéria-prima)", disse o consultor. A alta nos preços do açúcar em 2006, que atingiram o maior patamar em 25 anos, tornou as coisas ainda mais difíceis para essas empresas, já que o valor das usinas no Brasil subiu muito e os brasileiros, de modo geral, não estavam interessados em vender seus ativos. Mas isso pode estar mudando, segundo alguns participantes do mercado, depois que os preços do açúcar praticamente caíram pela metade.

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