Eve Air Mobility
O eVTOL, nome oficial do 'carro voador, desenvolvido pela Eve, empresa da Embraer. Eve Air Mobility

Eve, empresa de ‘carros voadores’ da Embraer, será listada em NY e é avaliada em US$ 2,9 bi

Estimativa é de que companhia tenha 15% do mercado de eVTOL, o que significa US$ 4,5 bilhões de receitas em 2030; abertura de capital deve acontecer no segundo trimestre de 2022

Luciana Dyniewicz, O Estado de S.Paulo

21 de dezembro de 2021 | 09h20
Atualizado 22 de dezembro de 2021 | 10h36

A negociação das ações da Eve (empresa da Embraer criada para desenvolver o “carro voador”) na Bolsa de Nova York deve começar no segundo trimestre do ano que vem, segundo estimativa do presidente da Embraer, Francisco Gomes Neto. “Esse é o prazo que estimamos para concluir a aprovação do processo (de abertura de capital). Agora estamos assinando o que chamamos de BCA, business cooperation agreement, com a Zanite (sócia da Embraer no projeto)”, afirmou ao Estadão.

O BCA anunciado na manhã desta terça-feira, 21, prevê que a Embraer detenha 82% de participação na Eve. Com um consórcio de empresas - que inclui Bradesco BBI, Rolls-Royce e BAE Systems, entre outras -, a fabricante aportará US$ 305 milhões na nova companhia. Outros US$ 237 milhões serão injetados pela Zanite Acquisition Corp, uma Spac (companhia que primeiro abre capital na Bolsa para, depois, buscar um projeto para investir) dos Estados Unidos. A companhia passará a se chamar Eve Holding e tem valor patrimonial de cerca de US$ 2,9 bilhões. 

De acordo com Gomes Netos, esses recursos serão usados apenas no desenvolvimento e certificação do eVTOL (sigla em inglês para veículo elétrico de pouso e decolagem vertical, como é chamada oficialmente a aeronave). Para a instalação de linhas de montagem, a companhia buscará outras fontes de financiamento. “Até o BNDES, que já sinalizou interesse no projeto, poderá ser uma alternativa importante para a fase seguinte”, acrescentou o presidente da Embraer.

A ideia, segundo o executivo, é ter um fábrica de peças do eVTOL e várias unidades de montagem próximas aos principais mercados consumidores. Uma consultoria internacional está sendo contratada para definir onde essas plantas serão instaladas.

A Embraer trabalha com um planejamento de que a Eve terá US$ 4,5 bilhões (R$ 25,7 bilhões na cotação atual) em receitas em 2030. No ano passado, toda a Embraer somou R$ 19,6 bilhões em receitas líquidas - mas a companhia projeta dobrar esse número em cinco anos e essa conta não inclui o “carro voador”.

O faturamento de US$ 4,5 bilhões considera que a Eve conseguirá 15% do mercado de eVTOLs. Isso significa que, em 2040 - 14 anos após o eVTOL chegar ao mercado -, a receita deverá alcançar US$ 18 bilhões.

Na análise do consultor André Castellini, da Bain & Company, é factível considerar que a Eve detenha essa participação de mercado, dado a experiência da Embraer em desenvolver aeronaves com agilidade e custos inferiores aos de seus concorrentes, além de certificá-las. “Esse porcentual de mercado não me espanta. A dúvida é qual vai ser exatamente o tamanho do mercado. Isso vai ser ditado por aspectos de regulamentação e tráfego aéreo.”

A capacidade de trabalhar com orçamentos mais apertados também deve ajudar a Embraer, dado que, apesar da injeção de recursos prevista pela fusão com a Zanite ser significativa (US$ 542 milhões, no total), o montante é o segundo menor anunciado até agora por concorrentes da Eve. A americana Joby levantou US$ 1,6 bilhão no mercado, a também americana Archer, R$ 1,1 bilhão, a alemã Lilium, US$ 830 milhões e a britânica Vertical US$ 394 milhões. Todos esses recursos foram provenientes de fusões com Spacs, mesmo modelo de negócio adotado por Embraer e Zanite.

A abertura do capital da Eve em Nova York após a fusão com a Zanite era esperada desde junho, quando as conversas entre as empresas se tornaram públicas. Desde então, os papéis da Embraer na B3 avançaram 17% até segunda-feira, 20. Nesta terça, a alta é de 15% até as 12h30 e, no ano, o avanço chega a 160%.

A abertura do capital da Eve em Nova York após a fusão com a Zanite era esperada desde junho, quando as conversas entre as empresas se tornaram públicas. Desde então, os papéis da Embraer na B3 avançaram 17% até segunda-feira. Ontem, a alta foi de mais 15% e, no ano, o avanço chegou a 176%.

Para a analista Thaís Cascello, do Itaú BBA, a alta é justificada e há espaço para as ações subirem ainda mais. Hoje, o banco calcula que o preço justo para os papéis da Embraer no fim de 2022 estaria em torno de US$ 21. Com os dados revelados ontem, esse valor iria para aproximadamente US$ 27 - a atualização oficial do preço, no entanto, ainda depende de cálculos mais precisos.

Gomes Neto destaca, no entanto, que não é apenas o potencial da Eve que está alavancando a Embraer no mercado financeiro. “Esse é um dos componentes. Se você observar a recuperação da Embraer neste ano e o potencial que temos de quase dobrar de tamanho nos próximos cinco anos sem incluir o eVTOL ou inovações, isso também tem aumentado o nível de confiança dos investidores. Na nossa opinião, é uma composição de fatores, que também inclui performance de curto prazo.”

 

Até agora, a Eve já recebeu pedidos de 17 clientes para um total de 1.735 veículos, avaliados em US$ 5,2 bilhões. Dessas encomendas, 500 foram anunciadas hoje e foram feitas por três empresas americanas: 200 pela Azorra, 200 pela Republic Airways e 100 pela SkyWest. A projeção é que os “carros voadores” comecem a ser entregues em 2026.

Também nesta terça-feira, a Embraer anunciou que, com a fusão com a Zanite, a Eve passará a ser copresidida  por Andre Stein (que já estava à frente da empresa) e por Jerry DeMuro, que era diretor executivo da BAE Systems. A Embraer e a BAE também divulgaram que estudam conjuntamente o desenvolvimento de um eVTOL para o mercado de defesa e segurança.

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Souza e Silva, ex-presidente da Embraer: 'Anúncio da Eve é dos mais relevantes para o carro voador'

'A Embraer será, sem dúvida, um dos players mais relevantes e, possivelmente, terá a máquina mais robusta e mais eficiente do mercado', escreve Paulo César de Souza e Silva, ex-presidente da Embraer; leia análise

Paulo César de Souza e Silva*, O Estado de S.Paulo

21 de dezembro de 2021 | 16h07

O anúncio feito hoje pela Embraer, onde informou ao mercado diversas iniciativas e parcerias estratégicas em relação ao eVTOL [sigla em inglês para veículo elétrico de pouso e decolagem vertical, como é chamada oficialmente a aeronave], é dos mais relevantes para a concretização do chamado “carro voador”.

Em 2017, quando presidia a Embraer, tomamos a iniciativa de planejar uma unidade voltada à inovação disruptiva e novos modelos de negócios. A Embraer sempre fez com muita eficiência e competência a inovação no seu core product, mas carecia de uma inovação mais disruptiva e que a levasse a novas oportunidades de desenvolvimento e crescimento. Deslocamos para o Vale do Silício um pequeno grupo de engenheiros, comandados por um dos nossos melhores quadros com visão de futuro e de inovação e logo surgiu a oportunidade do eVTOL em parceria com a Uber (mais tarde descontinuada).

Surgia então o embrião deste projeto que hoje avança rapidamente e que se reverte de um grande appeal dado suas características dentre outras, movida a bateria e sem emissão de CO2 e com a missão de operar em regiões de alta densidade urbana, evitando o trânsito caótico. Criamos a EmbraerX ,com foco total na inovação disruptiva, e que tomou ações importantes para o desenvolvimento do conceito.

A Embraer está fazendo parcerias importantes e tem anunciado cartas de intenção de compra do eVTOL em grandes quantidades, trazendo robustez ao projeto. As parcerias com os diversos players do ecossistema do produto é fundamental para o sucesso do programa. 

A Embraer será, sem dúvida, um dos players mais relevantes e, possivelmente, terá a máquina mais robusta e mais eficiente do mercado. A Embraer sabe fazer, tem competência técnica e 50 anos de experiência desenvolvendo aeronaves de alta ciclagem. Esta combinação dos negócios entre Eve e Zanite é muito importante pois traz recursos para a continuidade do programa que entra em fase de implantação, certificação, fabricação e operação. O modelo de negócio anunciado é eficiente uma vez que atrai o investidor com apetite ao risco do negócio.

 

Há, porém, uma série de tópicos que os players deste ecossistema terão que trabalhar com as autoridades aeronáuticas até que o sonho se torne realidade. É desta definição que se poderá melhor entender o modelo de negócio que será desenvolvido por eles. Além disso, o custo operacional é uma variável crucial pois o custo da máquina para transportar apenas 4 passageiros em conjunto com a remuneração dos diversos players do ecossistema pode ser um enorme desafio para o sucesso do conceito.   

Não tenho dúvida de que o “carro voador” será uma realidade e estará nos ares das principais cidades do mundo, possivelmente em 2026. A dúvida é se será eficiente o suficiente para atrair um grande número de passageiros e os fabricantes produzirem milhares de unidades.

* É EX-PRESIDENTE DA EMBRAER

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

'Carro voador' pode ser só o primeiro passo da reinvenção dos negócios da Embraer

Com os veículos elétricos de decolagem e pouso vertical (eVTOLs), a EVE se encaixou rapidamente nos anseios do mercado financeiro, que aposta cada dia mais na tendência de mobilidade com zero emissões de poluentes

Juliana Estigarríbia, O Estado de S.Paulo

21 de dezembro de 2021 | 19h24

A Embraer anunciou nesta terça-feira, 21, um acordo para levar sua startup de “carros voadores” EVE para a Bolsa de Nova York no ano que vem e expandir ainda mais a sua atuação. O movimento sinaliza que a tradicional fabricante de aeronaves brasileira está se transformando e pode ir além da produção de jatos. Para especialistas ouvidos pelo Broadcast, este pode ser só o começo da nova etapa da companhia.

Após o fim do acordo para fusão com a Boeing no ano passado, o mercado tinha dúvidas sobre o futuro da cinquentenária Embraer, em meio às profundas mudanças da indústria aeronáutica globalmente — o que se agravou com a pandemia. No entanto, diante da aposta na EVE e sua estreia como empresa independente, a maré mudou para a Embraer.

Com a proposta de desenvolver e entregar veículos elétricos de decolagem e pouso vertical (eVTOLs , na sigla em inglês), conhecidos como “carros voadores”, a EVE se encaixou rapidamente nos anseios do mercado financeiro, que aposta cada dia mais na tendência de mobilidade com zero emissões de poluentes.

Com rapidez, a EVE também chamou a atenção de uma Companhia com Propósito Específico de Aquisição (Spac, na sigla em inglês, também conhecida no Brasil como “empresa de cheque em branco”), chamada Zanite. Nesta terça-feira, ambas anunciaram um acordo definitivo de combinação de negócios em que a Embraer permanecerá como acionista majoritária, com uma participação de aproximadamente 82%.

A nova empresa já nasce com uma carteira de aproximadamente US$ 5,2 bilhões, composta de 1.735 pedidos de veículos e 17 clientes que incluem operadores de asa fixa e helicópteros, locadores de aeronaves e parceiros de plataforma de transporte compartilhado.

Tendência de mobilidade

Especialista em mobilidade e diretor da Bright Consulting, Murilo Briganti afirma que a tendência de aposta em startups está acontecendo em diversas indústrias, como é o caso da automotiva. “A revolução tecnológica está a todo vapor e as montadoras têm que se adaptar. São os mais receptivos a mudanças que sobrevivem”, diz. Ele pondera que movimentos tecnológicos ousados não são uma particularidade dos grandes fabricantes e, por isso, as montadoras apostam em startups para inovar em seus produtos.

O analista da Mirae Asset, Pedro Galdi, diz que, no âmbito de tecnologias disruptivas, a Embraer deve concentrar esforços, em princípio, no carro voador. Mas isso não significa que a fabricante deva parar por aí. “A Embraer está atenta a outras possibilidades e produtos”, afirma.

O vice-presidente sênior de engenharia, tecnologia e estratégia da Embraer, Luiz Carlos Affonso, disse que a EVE combina o melhor de dois mundos. “A EVE traz tecnologia de disrupção e a experiência da Embraer. Nós estamos contribuindo com propriedade intelectual, ciência e acesso a nossa engenharia, além do suporte de 5.000 funcionários da Embraer.”

A EVE estima US$ 4,5 bilhões de receita em 2030, quando as entregas de eVTOLs devem alcançar 1.117 unidades. A expectativa é começar a gerar Ebitda (lucros antes de juros, impostos, depreciação e amortização) positivo em 2027, alcançando US$ 840 milhões do indicador em 2030, com margem de 19%.

A EVE terá um grupo de investidores estratégicos que inclui Bradesco BBI, Rolls-Royce, Falko Regional Aircraft, Republic Airways, SkyWest, Azorra Aviation e BAE Systems. O analista da Guide Investimentos, Rodrigo Crespi, ressalta que a participação da Embraer na nova empresa é alta e destrava um valor importante. “A transação é bastante estratégica para a Embraer, que se posiciona não só como uma fabricante de aviões, mas como uma empresa de tecnologia que vai liderar o mercado de mobilidade aérea urbana”, avalia.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.