Itsuo Inouye/AP
Itsuo Inouye/AP

Ex-CEO da Olympus vive ‘romance policial’

Michael Woodford fez revelações de fraudes de grandes proporções na fabricante de câmeras, que agora são investigadas em três continentes

Tomoko A. Hosaka, Associated Press,

25 de novembro de 2011 | 23h00

Quando Michael Woodford assumiu o cargo mais alto da Olympus depois de trabalhar com afinco durante três décadas para a fabricante japonesa de câmeras fotográficas, ele podia dizer que conhecia profundamente a empresa, ou pelo menos assim acreditava.

Meses mais tarde, ele se comparava a um personagem de um romance policial quando com suas revelações sobre uma fraude de grande proporções na companhia japonesa o colocaram no centro das investigações que estão sendo realizadas em três continentes.

"Eu tenho a impressão de estar num romance de John Grisham", disse o britânico de 51 anos na sexta-feira diante de uma plateia lotada no Clube dos Correspondentes Estrangeiros do Japão.

"Tenho viajado a Nova York para falar com o FBI. Descobri referências ao crime organizado. Conflitos no conselho de administração. Linchamento das pessoas. Tudo isto tem sido para mim uma estranha maneira de viver".

Woodford, que foi demitido do cargo de diretor executivo da Olympus no mês passado, mas continua sendo um dos seus diretores, regressou ao Japão esta semana para reuniões com os promotores, a polícia e as autoridades reguladoras e para enfrentar pela primeira vez o conselho de administração desde a sua demissão e exílio voluntário na Inglaterra.

O então presidente, Tsuyoshi Kikukawa, pediu a Woodford que assumisse o cargo de presidente no ano passado, por admirar seu trabalho à frente da unidade europeia da companhia.

Seu relacionamento foi rapidamente se deteriorando à medida que Woodford começou a bisbilhotar em assuntos obscuros que Kikukawa não queria que fossem conhecidos. Depois da publicação das revelações feitas a uma pequena revista japonesa chamada Facta, Woodford queria respostas na questão dos preços extremamente elevados por dúbias aquisições e dos US$ 687 milhões pagos a uma obscura empresa de Wall Street pela prestação de assessoria financeira.

A revista sugeria que poderia haver ligações com a yakuza - a máfia japonesa.

Demissão. Entretanto, os membros do conselho votaram pela demissão de Woodford no dia 14 de outubro, apenas seis meses após assumir o cargo. Eles alegaram divergências de caráter cultural, afirmaram que Woodford não entendia o Japão, que não vivia no país por um tempo suficiente, e que odiava o Japão.

Woodford, que afirmou amar o Japão, definiu estas acusações como "propaganda falsa" da Olympus. E resolveu defender-se indo a público com o que tinha apurado.

Suas revelações desencadearam um dos maiores escândalos que jamais atingiram uma companhia japonesa. A Olympus acabou admitindo que pagava enormes propinas para acobertar os prejuízos da década de 90.

Kikukawa deixou a presidência no dia 26 de outubro e foi substituído por Shuichi Takayama. A companhia atribuiu a fraude contábil a Kikukawa, ao ex-presidente executivo Hisashi Mori e ao ex-auditor Hideo Yamada. Todos eles deixaram os respectivos cargos no conselho na quinta-feira desta semana.

A companhia chamou uma comissão independente para investigar. Ao mesmo tempo, as autoridades de três continentes estão realizando investigações próprias. A Olympus corre o risco de ser excluída da bolsa se não informar os lucros corrigidos até 14 de dezembro.

Woodford suspeita que Kikukawa havia escolhido um gaijin, um estrangeiro, porque queria alguém que pudesse produzir ganhos e lucros. "Se eu conseguisse, estes segredos e estas coisas terríveis ficariam relegados no passado distante", ele disse na sexta-feira. "Nós ganharíamos, e ele seria aclamado como uma pessoa de grande visão por ter contratado um gaijin que se tornara presidente". Esta estratégia tem funcionado para algumas companhias japonesas.

"Gaijins". A Sony Corp. é dirigida pelo CEO Howard Stringer de origem galesa. O CEO da Nissan Motor é Carlos Ghosn, um executivo de origem libanesa-brasileira-francesa. Ambos são considerados os autores de importantes reestruturações e de cortes dos custos que tiraram as companhias do vermelho.

O fato de serem pessoas de fora foi considerada fundamental para o seu sucesso.

Esta semana, Woodford se reuniu com a promotoria de Tóquio, com o Departamento de Polícia Metropolitana da capital e com a Comissão de Fiscalização da Bolsa para falar de suas descobertas.

A reunião do conselho na manhã de ontem foi tensa, mas civilizada e construtiva, ele disse aos repórteres. Entretanto, não recebeu sequer um pedido de desculpas ou um aperto de mão, mas o conselho concordou que é preciso evitar que a Olympus seja excluída da Bolsa de Tóquio.

Takayama, o novo presidente, emitiu uma declaração na quinta-feira em que anunciou que a direção está disposta a se demitir "assim que constatarmos que a Olympus está no caminho da recuperação". A declaração e a reunião convenceram Woodford de que "a companhia reconheceu a necessidade da saída dos diretores restantes ". O grupo não discutiu um prazo nem a possibilidade de Woodford ser reconvocado. / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

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