Exportador argentino teme nova restrição na venda de carne bovina

Exportadores já vêm sofrendo restrições às vendas externas desde o dia 20 de dezembro

Marina Guimarães, da Agência Estado,

12 de fevereiro de 2010 | 14h34

O governo de Cristina Kirchner declarou guerra aos "vilões" das altas de preço da carne bovina na Argentina. O fechamento total das exportações de carne, a exemplo do que ocorreu em 2006, pode ser retomado na avaliação dos exportadores, que já vêm sofrendo restrições às vendas externas desde o dia 20 de dezembro.

 

Com a disparada dos preços da carne, durante as festas de fim de ano, o governo decidiu permitir a venda externa somente da cota Hilton, para regular a oferta doméstica a preços acessíveis. Mas os preços internos não deixaram de subir e o alimento básico dos argentinos acumula alta de 40% desde dezembro. Alguns cortes registram altas de 70%. Fontes da indústria informaram à Agência Estado que existem fortes indícios de que o governo vai apertar o cerco contra as exportações.

 

O secretário de Comércio Interior, Guillermo Moreno, o "xerife" dos preços do governo de Cristina Kirchner, vai se reunir, nesta tarde, com os representantes do setor. Desde o início da intervenção estatal no mercado da carne bovina, há cerca de três anos, Moreno realiza reuniões semanais com toda a cadeia de produção e comercialização de carne bovina. O objetivo é controlar os preços do produto que coloca a Argentina como número um em consumo per capita anual: 73 quilos.

 

Inflação

 

A reunião desta sexta-feira, 12, tem um componente de tensão: o desgaste público da Casa Rosada com a inflação. Nos últimos dias, o preço da carne tem ocupado as manchetes principais da imprensa local. Além dos empresários, Moreno se reúne, também nes ta sexta-feira, com Cristina Kirchner e os ministros Amado Boudou (Economia), Débora Giorgi (Indústria) e Julián Domínguez (Agricultura). "Esperamos o pior destas reuniões porque a metodologia aplicada por este governo para enfrentar a inflação é apertar os exportadores e intervir nos mercados", confessou à AE um diretor de um frigorífico estrangeiro instalado no País, que pede para não ser identificado.

 

O executivo relata que, desde dezembro, a ordem de Moreno é de permitir os embarques somente dos cortes destinados à Europa, que fazem parte da Cota Hilton, miúdos e carne processada. "Os cortes nobres não são os preferidos dos argentinos, e os outros dois são absolutamente descartáveis pelos consumidores locais", detalha a fonte. O artesão Pablo Rocha, de 47 anos, que vive na periferia de Buenos Aires e tem a carne como uns dos principais produtos do cardápio, discorda do executivo. Ele diz que o argentino consome os cortes mais baratos porque não pode pagar os que custam mais caro e são exportados para a Europa, como o filé (lomo), contrafilé (bife-angosto), ponta do contrafilé (bife ancho), picanha (tapa de cuadril) e a alcatra (cuadril).

 

"Nós não compramos filé porque nos vendem aqui a preços altíssimos, como se fossem em euros ou dólares. Mas a gente ganha em pesos e gasta em pesos", reclamou Rocha, um típico argentino que prepara churrasco (asado) para o jantar da família, pelo menos três vezes por semana. Contudo, o alvo do secretário Moreno é o de garantir preços mais baixos dos cortes populares. Na reunião de hoje, Moreno vai anunciar aos frigoríficos o aumento dos subsídios aos criadores de gado confinado em feedlots (currais fechados) para que eles aumentem a oferta das "promoções" semanais de carne que os supermercados realizam há seis meses.

 

Algumas das maiores redes de supermercados fizeram um acordo com o governo para vender os cortes populares por um preço de 6,99 pesos (R$ 3,40) o quilo. Pelo acordo, o frigorífico oferece ao comércio local a carne com o preço fixado pelo governo e em volume suficiente para atender à demanda. Em troca, o frigorífico "ganha" a licença de exportação dos cortes nobres para a Europa. Quem não entrega o volume acertado com Moreno recebe o sinal vermelho do Registro de Operações de Exportações (ROE), controlado pela Oficina Nacional de Controle Comercial Agropecuário (Oncca). Nesse cenário, segundo a fonte, somente 30% dos frigoríficos estão exportando seus produtos.

 

Na Oncca, o procedimento é desmentido e os assessores argumentam que "estão exportando todos os frigoríficos que cumprem as normas de exportação". O problema é que os produtores afirmam não ter animais para atender à demanda argentina e que a situação é reflexo da política agropecuária equivocada do governo, como afirmou à AE, ontem, o presidente o Instituto de Promoção da Carne Bovina, Miguel Schiaritti. Cristina, por sua vez, acusa os pecuaristas de esconder o gado para forçar uma alta dos preços. "Nunca estiveram lucrando tanto como agora", acusou a presidente durante um discurso na última quarta-feira.

 

A assessoria de imprensa do Ministério de Agricultura desmentiu a adoção de medidas para fechar totalmente as exportações. O sub-secretário de Pecuária, Alejandro Lotti, disse ao jornal La Nación que "não haverá medidas que atentem contra as exportações de carne, nem fecharão os embarques".

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