Faça você mesmo

Por que utilizar produtos massificados quando você pode construir aquilo que precisa? Conheça a cultura 'maker'

Guy Perelmuter*, O Estado de S.Paulo

20 Julho 2017 | 05h04

A extraordinária onda de inovação e avanços técnicos que o mundo está experimentando é, em grande medida, resultado da convergência de fatores como o barateamento do armazenamento de dados, do aumento da capacidade de processamento remoto de quantidades gigantescas de informações e da universalização de dispositivos de comunicação móveis. Os resultados desta combinação permitem que avanços técnico-científicos que antes estavam restritos aos laboratórios e centros de pesquisa passem a fazer parte de produtos e serviços acessíveis a empresas e consumidores.

Uma das consequências mais interessantes da viabilização econômica de equipamentos relativamente sofisticados - como, por exemplo, impressoras 3D - é que uma geração inteira passou a ter nas mãos os elementos necessários para projetar, desenvolver, testar, manufaturar e utilizar suas próprias soluções. É a geração dos makers - traduzindo literalmente, os "fazedores". Além do acesso a ferramentas de produção como impressoras e scanners 3D, por exemplo, os makers se beneficiam da cultura de "arquitetura aberta" tanto para software quanto para hardware, prevalente em boa parte da Internet. No mundo do desenvolvimento de sistemas, programas de computador cujo código-fonte esteja disponível para que a comunidade possa fazer melhorias, extensões e corrigir eventuais problemas, são chamados de programas de "código aberto". Este código é o conjunto de instruções que define como aquele software deve se comportar. Os sistemas operacionais Linux (em evolução desde 1991) e Android (em evolução há mais de dez anos) são exemplos famosos de plataformas que possuem seus respectivos códigos parcialmente abertos. 

No campo do hardware, a existência do movimento de open source hardware - análogo ao que existe para software, mas para o mundo dos dispositivos físicos - já produziu plataformas para desenvolvimento e prototipação como o kit Arduino. Trata-se de um microcontrolador que pode ser manufaturado e distribuído livremente, e que serve para o desenvolvimento de projetos makers com forte aderência ao mercado da Internet das Coisas (ou Internet of Things - IoT). Com algum conhecimento técnico, é possível construir um protótipo para uso pessoal ou para testar o potencial mercado de determinada invenção. Junte a isso o acesso livre à informação online - cursos técnicos, vídeos educativos, aulas de algumas das melhores universidades do mundo - e a facilidade de trabalhar de forma colaborativa graças à Internet, e os elementos básicos para criação de um movimento estruturado e em expansão estão colocados.

O movimento maker prioriza a criatividade - uma característica primordialmente humana e que pesquisadores da área de Inteligência Artificial procuram compreender e reproduzir em máquinas. E conforme já vimos nesse espaço, a dinâmica do mercado de trabalho das próximas décadas irá privilegiar empregos nos quais a capacidade de improvisar, criar e inovar sejam características determinantes. Se até recentemente o termo "faça você mesmo" estava associado a pessoas capazes de consertar um vazamento, pintar uma parede ou pendurar um quadro na parede, agora o conceito ficou bem mais amplo: makers são pessoas que customizam o mundo à sua volta, que o modificam e que criam sua própria realidade.

As comunidades makers compartilham suas ideias livremente, e se organizam em espaços tanto virtuais quanto físicos, onde se encontram para trocar experiências, colaborar em projetos e apresentar suas ideias. De acordo com a revista Popular Science, em janeiro de 2016 havia cerca de 1.400 "makerspaces" no mundo - um aumento de 14 vezes em dez anos. A Fab Foundation, criada em 2009 como um desdobramento de um programa do MIT (Massachusetts Institute of Technology), busca conectar uma rede de "fablabs" - ou "laboratórios de fabricação" - atualmente presente em 30 países. No Brasil, temos cerca de 40 espaços deste tipo espalhados por todas as regiões, uma indicação promissora considerando a importância crescente da capacidade de criar e de construir no mercado de trabalho. Tanto o ambiente acadêmico quanto o mundo corporativo já perceberam esta tendência global e começaram a se posicionar - e é sobre isso que iremos falar na semana que vem. Até lá.

*Fundador da GRIDS Capital, é Engenheiro de Computação e Mestre em Inteligência Artificial

 

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