Fed alerta para armadilha da deflação nos EUA com política de juro baixo

Para o presidente do Fed de St. Louis, país deveria se afastar da política de taxas de juros e focalizar medidas de 'afrouxamento quantitativo'

Renato Martins, da Agência Estado,

29 de julho de 2010 | 14h59

O presidente do Federal Reserve Bank de St. Louis, James Bullard, disse que a política do Fed, de manter sua taxa básica de juros próxima de zero "por um período prolongado" poderá ter o efeito contraproducente de encorajar uma armadilha de deflação semelhante à do Japão. Para ele, o risco é de os EUA ficarem "emaranhados em um resultado deflacionário no estilo japonês por vários anos", escreveu Bullard em um artigo.

Para o presidente do Fed de St. Louis, a melhor maneira de evitar essa armadilha é o Fed se afastar da política de taxas de juros e focalizar medidas de "afrouxamento quantitativo" para fomentar as expectativas de inflação, se a inflação mostrar sinais de recuar ainda mais. O artigo é surpreendente porque Bullard é contado entre os "falcões" do Fed - aqueles para quem os riscos de inflação são mais sérios do que aqueles associados à debilidade econômica e a altos níveis de desemprego.

No sistema de rodízio entre os presidentes de distritos regionais do Fed, Bullard está atualmente entre os integrantes do Comitê de Mercado Aberto (Fomc) com direito a voto. Em uma conference call com jornalistas, para explicar seu artigo, ele disse que o texto não é sinal de que vai votar como dissidente na reunião do comitê, se o órgão mantiver sua política padrão para taxas de juro. O objetivo do artigo, afirmou Bullard, é provocar um debate sobre a eficácia da atual política de juros do Fed.

Durante o último ano e meio, os comunicados emitidos ao fim das reuniões do Fomc têm repetido a afirmação de que as condições econômicas "provavelmente vão justificar níveis excepcionalmente baixos para a taxa dos Fed Funds por um período prolongado".

Em seu artigo, Bullard diz que essa declaração do comitê, aliada ao fato de a taxa dos Fed Funds vir sendo mantida inalterada na faixa de zero a 0,35%, poderá ser um tiro pela culatra nos esforços para alimentar as expectativas de que uma política monetária frouxa fomentará a inflação e, com isso, evitará uma deflação. Observando que o núcleo da inflação anual ao consumidor ficou em apenas 0,9% em maio, ele afirma que a economia norte-americana pode acabar como a do Japão, onde tanto as taxas de juro nominais como a inflação permanecem num nível de equilíbrio perigosamente baixo.

"A promessa de permanecer no zero por um período prolongado é uma espada de dois gumes. Essa política é consistente com a ideia de que a inflação e as expectativas de inflação deveriam se elevar em reação à promessa, e de que isso em algum momento vai levar a economia de volta ao equilíbrio pretendido. Mas essa política também é consistente com a ideia de que a inflação e as expectativas de inflação vão cair, e de que a economia vai se acomodar na vizinhança do 'estado estável' não pretendido, como o Japão nos últimos anos", diz o artigo.

Referindo-se à forma como os mercados interpretaram a reação política do Fed à crise das dívidas soberanas da Europa, Bullard diz que essas referências a um "período prolongado" tiveram o efeito perverso de adiar ainda mais a data esperada na qual as condições da política monetária seriam normalizadas. Isso ficou evidente na maneira como os preços dos títulos do Tesouro indexados à inflação, os chamados Tips, reagiram à crise.

"Quando a crise da dívida soberana europeia abalou os mercados financeiros globais, durante a primavera de 2010, isso foi um choque negativo para a economia global e a percepção do setor privado era, certamente, a de que isso adiaria a data da normalização da política de taxas de juros nos EUA. Poder-se-ia pensar que isso é uma política mais inflacionária, mas as medições de expectativas de inflação baseadas nos Tips de 5 e de 10 anos caíram cerca de 50 pontos-base", escreve Bullard.

Em seu artigo, que ele mesmo descreve como "obsessivo", o dirigente do Fed analisa vários estudos acadêmicos sobre como alcançar um 'estado estável' ideal. De acordo com os dados que acompanham as taxas básicas reais e as taxas de inflação na última década, esse equilíbrio tende a ocorrer quando a inflação está em 2,3% e a taxa nominal de juros está em 2,8%.

Bullard discute a dificuldade de alcançar essa meta em meio ao chamado dilema do "preso ao zero", uma situação na qual as taxas de juro estão em zero e não têm como ser reduzidas ainda mais, embora a variação dos preços ao consumidor ainda possa ser negativa. A experiência do Japão sugere que existe um risco de que as economias têm um 'estado estável' de equilíbrio indesejável, no qual os juros estão próximos de zero, enquanto os preços estão em deflação.

Para Bullard, um problema é o fato de os bancos centrais permanecerem "completamente comprometidos com ajustes na taxa de juros como o principal instrumento da política monetária, mesmo muito tempo depois de isso deixar de fazer sentido".

Ao invés disso, ele argumenta que a "ferramenta apropriada" para lidar com as expectativas de inflação em tempos como este é expandir o "afrouxamento quantitativo". Tanto os EUA como o Reino Unido aplicaram variações dessa política durante a recente crise financeira e o Japão tentou fazer o mesmo em momentos diferentes. Segundo Bullard, os dados da inflação no Reino Unido sugerem que o programa do Banco da Inglaterra foi bastante mais eficaz do que o do Fed ao encorajar as expectativas de inflação, enquanto os esforços do Japão fracassaram por não ter credibilidade de longo prazo.

Na conference call, Bullard disse que não acredita, necessariamente, que o Fed deveria reabrir seu programa de compras de títulos, concluído em março, mas que ele deveria declarar explicitamente sua disposição de fazer isso no caso de ameaças deflacionárias mais extremas aparecerem no futuro. "É o caso de estar pronto, no caso de algo mais nos atingir. E se houver um ataque terrorista. E se aparecer algum problema na recuperação asiática, ou algo desse tipo?"

No artigo, Bullard diz que qualquer mudança no regime da política monetária com a intenção de evitar uma armadilha deflacionária precisaria ser "firme e com credibilidade; os formuladores da política precisam se comprometer com a nova política e o setor privado precisa acreditar no formulador".

Para ler a íntegra do artigo em inglês clique aqui

As informações são da Dow Jones.

Tudo o que sabemos sobre:
deflaçãojuropreçosEUA

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.