FMI: Ninguém pode desejar que crescimento do Brasil continue tão alto

Para Strauss-Kahn, atual patamar de crescimento da economia traz risco de surto de aquecimento

Adriana Fernandes e Renata Veríssimo, da Agência Estado,

26 de maio de 2010 | 15h11

O diretor-gerente do FMI, Dominique Strauss-Kahn, disse nesta quarta-feira, 26, que a taxa de crescimento da economia brasileira no primeiro trimestre foi "tão alta" que ninguém pode desejar que ela continue nesse patamar, porque teria o risco de surto de aquecimento. Ao ser questionado se concorda com o aumento dos juros pelo Banco Central, para desaquecer a economia, Strauss-Kahn afirmou que a política monetária deve ser considerada como forma de gerenciamento da economia.

Segundo ele, como há um volume de crédito alto no mercado, o aumento dos juros pode evitar o sobreaquecimento. Strauss-Kahn disse ter confiança na administração do governo e do Banco Central brasileiros, em função das medidas adotadas no passado. "Tenho certeza que o governo conseguirá administrar essa situação (crescimento acelerado).

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, destacou que o aumento dos juros não é o único instrumento do Brasil para o controle da inflação que, segundo ele, não está fora de controle. Mantega lembrou que o Executivo também reduziu os gastos públicos para tirar o excesso de demanda do governo. O ministro destacou que o efeito do aumento dos juros se dá muito no longo prazo e que às vezes é preciso adotar uma medida com eficácia mais rápida. Ele repetiu que não acredita que a economia brasileira cresça 7% este ano.

O ministro disse que o ritmo de crescimento no primeiro trimestre foi de 8 a 9%, mas que já está havendo uma desaceleração no segundo trimestre e citou como exemplo as vendas no setor automotivo. "Caminhamos para um crescimento sustentável, que nção será maior que 6% e 6 e quebrado", afirmou.

Ao ser questionado se o crescimento do país este ano chegaria a 6,5%, Mantega disse que não tem um número mágico. Ele lembrou que o Brasil complementa parte das suas necessidades com produtos importados. "Podemos importar mais ou menos". Mantega afirmou que o governo não quer um crescimento de 7%. "Até 6, 6 e pouco é perfeitamente sustentável. Para nós o importante é o crescimnto de longo prazo e não o de curto prazo", afirmou.

Cotas no FMI

O diretor-gerente do FMI afirmou que mais importante que a revisão de cotas da instituição é a forma de participação dos países no organismo. "O problema é como os países querem fazer parte do Fundo. O perfil das pessoas que vão representar o País é importante. Se vão ser ativo ou passivo", afirmou em entrevista ao lado do ministro da Fazenda, Guido Mantega.

Segundo Strauss-Kahn, o Brasil é um bom exemplo. "O Brasil é claramente muito atuante no cotidiano do FMI", afirmou. "Não estou dizendo que o sistema de cota não é importante. Mas que é importante também como os países querem influenciar nas decisões do FMI", ressaltou.

O Brasil tem defendido uma reforma do sistema de cotas que garanta uma participação mais ativa dos países em desenvolvimento. "Não tem dúvida de que os países emergentes estão sub-representados no FMI. Isto é reconhecido pelo próprio fundo", disse Mantega.

Resgate de países do euro

Ao defender medidas de estímulo ao crescimento para os países da Zona do Euro, Strauss-Kahn disse que é preciso atuar com solidariedade para resgatar os países da crise e estimular a expansão econômica. Segundo ele, sem o crescimento, será muito difícil os países europeus saírem da crise. "É preciso atuar com solidariedade na Zona do Euro, para resgatar os países e estimular seu crescimento".

Logo depois que o ministro da Fazenda, Guido Mantega, sugeriu a criação de um Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) para os países da União Europeia, o número um do FMI defendeu o uso de parte dos recursos do fundo de estabilidade da União Europeia para estimular o crescimento.

Apesar de elogiar a política fiscal brasileira, o diretor-gerente do FMI defendeu a retirada dos estímulos fiscais dados pelo Brasil. Segundo ele, é chegada a hora de o governo retirar os estímulos para evitar que a situação atual possa resultar em nível excessivamente elevado de crescimento.

Centro de treinamento

Mantega e Strauss-Kahn assinaram nesta quarta um convênio para criação, em Brasília, de um centro de treinamento do Fundo. O centro vai treinar funcionários do governo dos países da América Latina nas áreas de política macroeconômica, financeira, bancária, setor externo e estatística.

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