PHILIPPE WOJAZER | REUTERS
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França ameaça limitar salários de executivos

Governo promete criar lei caso Carlos Ghosn, presidente da Renault, não renuncie ao aumento da sua remuneração

Andrei Netto, correspondente, O Estado de S.Paulo

05 de maio de 2016 | 09h05

PARIS - O governo da França anunciou que vai editar uma lei que limitará os salários de altos executivos de empresas com capital público caso o franco-brasileiro Carlos Ghosn, diretor-presidente do grupo Renault, não renuncie ao aumento de seu salário, que nos últimos três anos teve acréscimo de 171%. Na semana passada, a maioria do acionistas da montadora, 54,12%, votou contra o aumento de sua remuneração em 2016, mas a decisão foi ignorada pelo Conselho de Administração. Indignado, o ministro da Economia, Emmanuel Macron, interveio.

O caso virou escândalo porque Ghosn receberá pelo ano de 2015 um total de € 7,21 milhões, a maior parte em bônus – seu salário de base é de € 1,73 milhão. Isso sem contar a remuneração de parte da Nissan, montadora associada à Renault da qual também é diretor-presidente. Ao todo, seu salário pode chegar aos € 15 milhões. Maior acionista individual da montadora, o Estado francês tem quase 20% das ações e quer que a empresa se torne um exemplo para o meio empresarial do país.

Macron considera que o salário de Carlos Ghosn é injustificável, em especial porque a remuneração dos funcionários da Renault teve um reajuste de 0,6% entre 2012 e 2015. “O que nós pedimos é que Ghosn assuma suas responsabilidades e que sua remuneração de 2016 tire as lições do voto do Conselho de Administração”, afirmou o ministro, a personalidade política mais admirada da França na atualidade. Para Macron, a Renault demonstra enfrentar “disfunções em termos de governança”, o que pode levar o governo “a legislar a respeito”. Para evitar o choque, o ministro sugeriu que o conselho volte a se reunir, e dessa vez tome uma decisão obrigatória, e não apenas consultiva, como no caso anterior.

Em nota, a montadora informou que o conselho da Renault solicitou ao “comitê de remuneração” um exame sobre a estrutura de remuneração dos cargos de direção da companhia, incluindo o de Ghosn.

A polêmica levou o Movimento das Empresas da França (Medef), maior sindicato patronal do país, a abrir uma investigação sobre o caso Renault. A entidade alega ser a primeira vez que uma decisão do Conselho de Administração de uma multinacional francesa, que se manifestou via “Say on pay” – como o voto consultativo sobre a remuneração é denominado –, é desobedecida. Pierre Gattaz, presidente do Medef, se disse “um pouco constrangido” pelo escândalo. “Não tenho problema com o montante, mas um probleminha com o fato que os acionários votaram contra e o Conselho de Administração confirma ainda assim a remuneração”, afirmou Gattaz em entrevista à rádio RTL.

Enquanto Ghosn permanece em silêncio, a polêmica vem crescendo. Um estudo da consultoria Proxinvest, que presta assessoria a acionistas, informou que o salário do diretor-presidente da Renault já excede em 25% a média das remunerações de outros diretores-presidentes do CAC40, a lista de maiores companhias cotadas na bolsa de Paris. Considerado a remuneração da Nissan, o salário de Ghosn seria 400% maior do que a média dos dirigentes do setor automotivo.

Outros casos. A controvérsia também atinge a principal concorrente da Renault, o grupo PSA, que reúne as marcas Peugeot, Citroën e DS. Na semana passada os acionistas autorizaram um aumento de 76,53% na remuneração de Carlos Tavares, diretor-presidente do grupo – contra o parecer do Estado francês, acionista minoritário da empresa. Ontem, em audiência no Parlamento, Tavares justificou o valor alegando que a parte variável de seu salário saltou em razão do bom desempenho do grupo. “Eu assumi um risco pessoal”, alegou, ponderando ter tomado as rédeas da holding quando o grupo estava em situação crítica. “Eu me considero como um jogador de futebol ou como um piloto de Fórmula 1”, comparou. “É o mercado.”

A polêmica sobre a remuneração de altos executivos vem se alastrando pela Europa. Na Alemanha, a direção da Volkswagen previu um total de € 63,24 milhões em remuneração a 12 membros de seu comando pelo desempenho no ano de 2015. Ocorre que a montadora viveu o pior ano em duas décadas, com um prejuízo líquido de € 1,6 bilhão e com provisões de € 16 bilhões para pagar eventuais perdas relativas ao escândalo dos motores diesel fraudados nos Estados Unidos. Em Berlim o ministro de Finanças, Wolfgang Schäuble, protestou, lembrando a crise da companhia, “potencialmente mortal”. “Isso mostra que algo não está funcionando”, disse.

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