Ricardo Moraes/Reuters
Ricardo Moraes/Reuters

Fusão de Kroton e Estácio criaria gigante de R$ 30 bi, mas Cade pode limitar tamanho

Negócio pode formar a maior empresa de educação do Brasil e do mundo, mas analista acredita que Cade deve exigir venda significativa de ativos

Márcio Rodrigues, O Estado de S.Paulo

01 Julho 2016 | 15h40

SÃO PAULO - A eventual união entre Kroton e Estácio, sinalizada hoje pelas duas companhias, criará uma empresa de quase R$ 30 bilhões em valor de mercado e que já estaria entre as 20 maiores do Ibovespa. Trata-se não apenas da maior empresa do setor de educação do Brasil, mas também do mundo. Com base no histórico e fusões desse setor, um analista afirmou, contudo, que a empresa resultante da eventual união das companhias pode ser menor do que sugerem os números atuais, visto que o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) poderá exigir alguma venda significativa de ativos.

Tendo como base a cotação de ontem das ações no Ibovespa, Kroton tinha valor de mercado de quase R$ 22 bilhões, de acordo com dados disponíveis no Broadcast, serviço de informações em tempo real da Agência Estado. Já a Estácio valia, no fim desta quinta-feira, R$ 5,2 bilhões. Juntas, portanto, o valor de mercado das empresas atingiria R$ 27,2 bilhões. Isso colocaria a companhia como a 16ª maior do Ibovespa, discretamente à frente de JBS (R$ 27,179 bilhões) e muito perto de CCR (R$ 29,661 bilhões).

No setor, a Ser Educacional, que também fez uma proposta de fusão pela Estácio, valia cerca de R$ 1,557 bilhão ao fim do pregão de ontem. A Anima, outra empresa do setor listada em Bolsa, tinha valor de mercado de R$ 1,164 bilhão. A Somos Educação valia R$ 2,738 bilhões.

Sem considerar as prováveis restrições que o Cade deve impor caso o negócio seja, de fato, concluído, a nova companhia nasceria com quase 2 milhões de estudantes. A Kroton informa, em uma apresentação institucional em seu site, que possui 1,3 milhão de alunos, distribuídos em 638 municípios. A empresa oferece ensino presencial em 74 dessas cidades, onde possui campus, e chega a 635 municípios por meio do ensino a distância (EAD).

A carioca Estácio informa que, em 31 de março de 2016, contava com 587,8 mil alunos matriculados nas modalidades presencial e à distância, em cursos de graduação e pós-graduação. A rede da empresa é formada por uma universidade, centros universitários, 36 faculdades e 170 polos de ensino à distância credenciados pelo MEC, com uma capilaridade nacional representada por 90 campi, nos principais centros urbanos de 22 estados brasileiros e no Distrito Federal.

A Kroton, por sinal, domina o mercado de EAD, com uma fatia de 45%, segundo os números mais recentes disponibilizados pelo Ministério de Educação, de 2014. A Estácio, segundo os mesmos dados, detém cerca de 7% desse segmento. Unidas, portanto, teriam mais da metade do ensino a distância do País. Não por acaso, esse ponto é indicado por analistas como o primeiro alvo do Cade. Levantamento obtido com exclusividade pelo Broadcast na semana passada mostra que Kroton e a Estácio, as duas maiores do setor no País, detêm fatia de mais de 90% do mercado de ensino a distância em 208 cursos, oferecidos em 51 municípios.

Ao mesmo tempo, a Kroton vinha procurando mostrar que a concentração não seria tão significativa. Segundo levantamentos feitos por alguns profissionais com base em dados do Ministério da Educação, Kroton e Estácio têm operações em 108 municípios no ensino presencial. Em 14 deles, há presença de ambas, mas as companhias só têm sobreposição considerada relevante de negócios em cinco destes municípios. No ensino a distância, a principal aposta é na venda dos negócios de EAD da Estácio. Assim, ainda que todas essas correções tivessem que ser feitas, representariam pouco mais de 5% da receita líquida da combinação das companhias, diz uma pessoa com conhecimento do assunto.

Fontes de mercado dizem, no entanto, que a venda de uma parte dos ativos de EAD da Estácio pode não ser viável, visto que está dentro da Universidade Estácio de Sá e que, pelas regras do Ministério da Educação, não é possível vender apenas algum curso de uma universidade. E a venda da Universidade Estácio como um todo ou da Uniderp, unidade de ensino a distância da Kroton, poderia inviabilizar o negócio.

Quando da fusão entre Kroton e a Anhanguera, em 2013, a concentração no EAD foi considerada um problema pelo Cade. O órgão antitruste determinou a venda da Uniasselvi pela Kroton, mas, mesmo com essa venda, a companhia cresceu no EAD, desde então, de forma orgânica, tendo obtido autorização do governo para operar novos polos de ensino a distância.

Proposta. A Kroton anunciou, nesta manhã, ter feito uma nova proposta para combinação de negócios com a Estácio Participações. Para cada papel da Estácio, a empresa agora oferece 1,281 ação ON de emissão da Kroton, mais que a relação de troca de 1,250 sugerida em 21 de junho, depois que a proposta inicial de 0,977 feita em 2 de junho não foi aceita. A oferta revisada também consiste na distribuição de R$ 170 milhões em dividendos extraordinários aos acionistas da Estácio, o equivalente a R$ 0,55 por ação.

Conforme fato relevante da Estácio, o conselho de administração manifestou, em reunião realizada ontem, que está de acordo com os termos da nova proposta da Kroton, contanto que as demais condições sejam satisfatórias. Foi solicitado ao comitê formado para avaliação da proposta que negocie os demais aspectos com a Kroton. Por fim, o Conselho de Administração da Estácio marcou uma nova reunião para o dia 8 de julho de 2016 "para apreciar novamente todas as condições da operação para posterior convocação de assembleia geral extraordinária da Estácio". "A aprovação de tal deliberação dependerá, evidentemente, do sucesso das tratativas do Comitê", inclui o fato relevante da Estácio.

A disputa entre Kroton e Ser Educacional pela Estácio se arrasta há mais de um mês. No começo dessa semana, a Ser Educacional apresentou nova proposta de combinação de negócios com a empresa carioca, confirmando o movimento antecipado por fontes ouvidas pelo Broadcast. Depois disso, fontes ligadas à Kroton garantiram que não melhorariam a oferta, mesmo diante da ofensiva da Ser e da possibilidade de a família Zaher (Chaim Zaher preside a Estácio), que já detém 14,13% da Estácio, fazer uma oferta para adquirir o controle da empresa. De alguma forma, a Kroton mudou de ideia e reviu sua posição inicial. Vale destacar que alguns fundos somados detêm, ao mesmo tempo, fatia relevante da Estácio e da Kroton.

Procuradas, Kroton e Estácio informaram que se manifestariam apenas por fato relevante. A Ser Educacional não retornou a solicitação até a publicação desta matéria.

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