Charles Platiau/Reuters
Charles Platiau/Reuters

Ghosn é suspeito de desviar US$ 18 milhões

Executivo brasileiro preso no Japão teria usado filiais da Nissan na Europa para comprar imóveis de luxo no Rio de Janeiro e em Beirute

Jamil Chade, correspondente, O Estado de S.Paulo

21 de novembro de 2018 | 05h00

GENEBRA - O executivo brasileiro Carlos Ghosn é suspeito de ter usado unidades da Nissan na Europa para dissimular pagamentos de quase US$ 18 milhões para a compra de um imóvel de luxo em condomínio no Rio de Janeiro e de uma casa em Beirute, no Líbano.

O empresário, que há quase duas décadas ajudou a orquestrar a união entre a francesa Renault e a japonesa Nissan, foi preso na segunda-feira, 19, no Japão. Conhecido pela capacidade de cortar custos e recuperar negócios em crise, Ghosn, de 64 anos, é acusado de fraudar sua declaração de renda e de usar recursos corporativos para benefício pessoal.

O escândalo ocorre um ano após o executivo deixar o dia a dia das operações da Nissan. Mas ele estava à frente do grupo que reúne as três montadoras – Nissan, Renault e Mitsubishi. A investigação partiu de uma denúncia interna e, nos últimos meses, teve a colaboração da Nissan. 

Nesta terça-feira, 20, o jornal japonês Nikkei revelou parte das investigações que apontam para a suspeita de que a Nissan Motors teria criado uma afiliada na Holanda e que, a partir dessa unidade, US$ 17,8 milhões foram pagos em dois imóveis de luxo, no Rio e no Líbano. 

De acordo com o jornal, a subsidiária holandesa foi criada em 2010, com capital de US$ 53 milhões. O dinheiro seria usado para investimentos. Oficialmente, a empresa indicava que aqueles recursos tinham como objetivo apoiar startups, ainda que existam poucas evidências de que o dinheiro acabou tendo essa finalidade. 

Para se chegar a essas informações, funcionários da Nissan usaram uma nova lei no Japão que permite o mecanismo da delação premiada. A lei foi introduzida em junho e o caso do executivo brasileiro é o segundo que veio à tona por meio desse mecanismo.

Segundo o jornal japonês, os dois imóveis comprados a partir da unidade holandesa da Nissan eram para o uso de Ghosn. Cabia à empresa pagar por custos de manutenção e eventuais renovações. Estima-se que os gastos teriam chegado a 2 bilhões de ienes.

Ghosn passou sua infância no Rio e depois mudou-se para Beirute, onde terminou o colegial. No Líbano, a Nissan não conta com qualquer tipo de operação de grande escala.

Investigação ampliada

A investigação da Nissan sobre a suposta má conduta de Ghosn está sendo ampliada para incluir as finanças da Renault-Nissan, disseram fontes. Esse é um sinal de que a Nissan pode querer reduzir a participação na parceira com a Renault. Na segunda-feira, a Nissan disse ao conselho da Renault que tem indícios de possíveis irregularidades na Renault-Nissan BV, a parceira holandesa que supervisiona as operações da aliança, controlada pela Renault. 

O conselho de administração da Renault informou ontem, por meio de um comunicado, que Carlos Ghosn continuará como executivo-chefe da montadora. Contudo, o colegiado decidiu apontar Thierry Bolloré como vice-executivo-chefe, enquanto Ghosn está “temporariamente afastado”.

Os governos da França e do Japão já ofereceram ajuda para manter a aliança entre as montadoras. Nesta terça-feira, um comunicado conjunto do ministro das Finanças da França, Bruno Le Maire, e da Economia do Japão, Hiroshige Seko, afirmou que ambos expressaram desejo de manter “a cooperação vitoriosa”. Renault e Nissan não comentaram. / COM AGÊNCIAS INTERNACIONAIS

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