Maxim Malinovsky/AFP
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Governo quer manter 'soberania' em eventual acordo entre Boeing e Embraer

Segundo uma fonte, governo não deve interferir no que considera uma 'etapa puramente empresarial'; ações da empresa seguem em alta nesta quarta-feira

Lu Aiko Otta, O Estado de S.Paulo

04 Julho 2018 | 13h04

BRASÍLIA - As atenções do governo em relação à possível fusão entre Embraer e Boeing vão além da já conhecida proteção aos projetos da empresa na área militar. “A grande preocupação do Ministério da Defesa é a preservação da nossa capacidade tecnológica, de nossa soberania, por tabela, dentro dessa área”, afirmou nesta quarta-feira, 04, o comandante da Aeronáutica, brigadeiro Nivaldo Rossato, em reunião na Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional da Câmara dos Deputados. Ele explicou que há preocupação, por exemplo, com o que acontecerá com os “milhares” de engenheiros altamente qualificados que atuam em projetos da Embraer que estão em fase final, como o jato comercial E-2 e o cargueiro KC-390.

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Aos deputados, ele explicou que o governo detém a golden share da Embraer. Por isso, constituiu um grupo de trabalho para acompanhar as negociações entre a empresa e a Boeing. “Não que a gente duvide da Embraer”, ressalvou. “A Embraer não está fazendo em revelia do interesse nacional.”

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Esse grupo ainda não recebeu nenhuma proposta concreta de negócio entre a Embraer e a Boeing, disse. “Estão analisando para oportunamente apresentar isso ao governo, mas não tem nada de concreto”, informou. “Mas estamos estudando muito essa questão da soberania.” Ele explicou aos parlamentares que a atual posição do Brasil nessa área começou a ser construída nos anos 1940, num processo que passou pela criação do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (Ita), o Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA) e da própria Embraer.

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O comandante explicou que a negociação entre Embraer e Boeing se impôs quando a linha de jatos leves da principal concorrente da empresa na área de jatos comerciais, a canadense Bombardier, foi comprada pela Airbus. “Isso colocou o Brasil numa disputa direta com as grandes e acendeu uma luz amarela”, disse.

Embora seja a terceira fabricante de aeronaves do mundo, a Embraer não chega nem a 10%, “talvez 5%”, do tamanho da Boeing ou da Airbus. “É um Davi contra um Golias em qualquer disputa que seja feita”, admitiu Rossato. Por isso, disse, a Embraer tem “discutido as possibilidades que tem.”

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Quando o governo foi informado das negociações entre as duas empresas, a primeira precaução foi proteger os projetos da área militar. Ficou acertado, então, que nenhuma joint venture os afetaria, ou seja, foi criada uma blindagem. “Mas nós temos uma preocupação também em ver o futuro da Embraer e o que está sendo discutido”, ressalvou.

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Rossato também defendeu a conclusão de um acordo de salvaguardas tecnológicas com os Estados Unidos para utilização da base de lançamentos de Alcântara (MA). Ele explicou aos deputados que os americanos detêm perto de 80% de “tudo o que existe no mercado” na área espacial. “O acordo com os Estados Unidos é fundamental”, afirmou. Acordos semelhantes deverão ser firmados com outros países que queiram utilizar a base.

O comandante disse que os investimentos mundiais na área aeroespacial somam US$ 300 bilhões. Mas, enquanto a Argentina investe algo como US$ 1 bilhão, o Brasil gasta perto de US$ 100 milhões. “Assim, não vamos a lugar nenhum”, disse.

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