Governo revê patamar de preço da energia após deságio em leilão

O lance ousado do consórcio que venceuo leilão para a construção da usina hidrelétrica Santo Antônio,no rio Madeira, em Rondônia, criou no governo a expectativa dequeda consistente no preço da energia no país nos próximosanos. O consórcio do qual participam o grupo Noberto Odebrecht, aconstrutora Andrade Gutierrez e estatais aceitou deságio de 35por cento, causando tanto espanto quanto a recente licitação deconcessões de rodovias federais. Autoridades do governodisseram que não esperavam deságio tão grande. O mercado de capitais tinha, no entanto, dificuldade emenxergar o retorno para o investimento bilionário, o quederrubava nesta segunda-feira as ações da Eletrobrás, holdingestatal a que pertence Furnas, participante do consórciovencedor. Perto do final do pregão na Bovespa, as ações da empresacaíam 3,5 por cento. "Com a retomada dos projetos hidrelétricos, o futuro daenergia no Brasil é de preço mais barato", afirmou o presidenteda Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Maurício Tolmasquim.Ele observou que a última grande licitação de usina havia sidoem 1994 --a de Xingó, em Alagoas, obra da qual a Odebrechttambém participa. Tolmasquim argumentou que o leilão marca finalmente aentrada em vigor do novo modelo do setor elétrico, aprovado noprimeiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O leilão --que chegou a ser adiado algumas vezes peladificuldade em se obter licença ambiental e, posteriormente,por disputa entre os grupos interessados-- movimentou cerca de30 bilhões de reais em energia a ser entregue a partir de 2012para 32 distribuidoras. Uma parte da energia da nova usinatambém será vendida no mercado livre. DECISÃO NUM FLASH Nesta segunda-feira, após atraso superior a duas horas porcausa de manifestação popular contra a exploração hidráulica daAmazônia dispersada pela polícia, o leilão encerrou-se em menosde 10 minutos, após apenas um lance de cada um dos três gruposque disputavam a concessão de 30 anos para a venda da energiada nova usina. A oferta vencedora do consórcio Madeira Energia SA (Mesa)foi de 78,90 reais por megawatt hora (MWh), deságio de 35 porcento sobre o preço-teto estabelecido pelo governo de 122 reaiso MWh. Os lances dos demais grupos também foram baixos, de 94reais (consórcio da Camargo Corrêa) e 98,05 reais (consórcio dafranco-belga Suez). Como a diferença entre as duas menores ofertas foiexpressiva, 16 por cento, o leilão foi encerrado logo naprimeira fase. Segundo o ministro de Minas e Energia, Nelson Hubner, opreço vencedor passa a ser referência do custo de geração deenergia no país, já que embute valores atualizados paraequipamentos e gastos com construção, por exemplo. "A gente não sabe quanto custa a energia no Brasil. Amelhor maneira de avaliar isso é o leilão", disse Hubner. Elealertou que o lance vencedor influenciará o preço-teto para ahidrelétrica Jirau, parte do complexo do Madeira, que deve serleiloada em 2008. Depois de meses de trabalho na constituição dos grupos eformatação de propostas, ficaram fora da disputa, de cara, oConsórcio de Empresas Investimento de Santo Antônio (Ceisa)--integrado pela construtora Camargo Corrêa, CPFL Energia, aespanhola Endesa e a estatal Chesf-- e o Energia Sustentável doBrasil, composto pela Suez Energy e a estatal Eletrosul. O vencedor Mesa --grupo Norberto Odebrecht (18,6 porcento), a Andrade Gutierrez (12,4 por cento), o fundo deinvestimentos formado por Banif e Santander (20 por cento), aestatal Furnas (39 por cento) e a estadual Cemig (10 por cento)--deve ter outra configuração. Está em negociação a entrada da Vale, que também seriacompradora de energia da nova usina no mercado livre, segundo odiretor de infra-estrutura da Odebrecht, Irineu Meireles,porta-voz do consórcio. Outras participações seriam o BNDES,que pode financiar até 75 por cento da obra, e fundos depensão. A futura empresa será listada na Bovespa. Meireles evitou detalhar o plano de negócios que levou oconsórcio a fazer lance tão distante dos concorrentes. O Mesatinha a vantagem de ter desenvolvido o estudo de viabilidadeeconômica e impacto ambiental para a construção da usina SantoAntônio. As informações foram, posteriormente, disponibilizadaspara os demais consórcios. O grupo também conta com o poder de fogo de Furnas, mas oministro de Minas e Energia afirmou que será auditada agarantia de uma taxa de retorno mínima para a estatal. Cada umdos demais consórcios também tinha parceria de estatal. O projeto da hidrelétrica com capacidade de 3.150 MW prevêa instalação de 44 turbinas, com obras se iniciando em setembrode 2008, e investimentos estimados em 10 bilhões de reais. Oconsórcio prevê que entre cinco mil e seis mil empregos diretosserão criados em Rondônia. (Edição de Marcelo Teixeira)

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