Grandes demais para continuara crescer?

Seis casos de gigantismo se destacam, com empresas tão grandes que os governos acabaram por intervir

The Economist, The Economist

13 Julho 2018 | 04h00

Existe algum limite para o crescimento de uma empresa? Se as ações da Apple aumentarem 9%, seu valor de mercado vai superar de US$ 1 trilhão. É uma soma espantosa, sustentada pelos incríveis lucros de US$ 60 bilhões anuais, de US$ 8 para cada pessoa na Terra. No entanto, isso deve provocar calafrios entre investidores da empresa. Em relação ao PIB, os ganhos da Apple agora são tão grandes que estão entrando em uma zona de perigo que foi ocupada por apenas alguns outros colossos corporativos, incluindo a Companhia das Índias Orientais e a empresa Standard Oil, de John D. Rockefeller. Se a história servir de guia, a Apple vai parar de crescer. E outras empresas de tecnologia nos Estados Unidos e na China, como Amazon e Alibaba, também estão testando os limites.

A marca de US$ 1 trilhão já foi superada uma vez antes, pela PetroChina, estatal chinesa, durante 15 dias em 2007. Mas isso refletiu um frenesi especulativo na Bolsa de Xangai. De qualquer forma, o que importa mais do que valores nominais de mercado é o tamanho dos lucros de uma empresa em relação à economia. Não existem leis indiscutíveis, mas o senso comum sugere que existem limites. Grandes lucros podem refletir produtos que possivelmente não podem se tornar ainda mais populares ou uma concentração de poder que convide a uma reação política ou competitiva.

Seis casos de gigantismo se destacam, com empresas se tornando tão grandes que os governos acabaram por intervir. Em 1813, a Companhia das Índias Orientais, império privado britânico envolvido na produção de ópio, perdeu seu monopólio legal de longa data sobre o comércio com a Índia. Em 1911, a Suprema Corte dos Estados Unidos dividiu a Standard Oil e, como uma onda populista varreu o país, o governo também iniciou uma ação legal contra a US Steel, o outro gigante da Era Dourada. Caçadores de trustes foram atrás da IBM em 1969 e, em 1974, tentaram quebrar o controle da AT&T nas telecomunicações. E o Departamento de Justiça processou a Microsoft em 1998 para desmembrá-la.

Cálculo. Medir esses mamutes é uma tarefa que funciona melhor usando o critério de lucros em relação ao PIB (Produto Interno Bruto). Os ganhos são bastante confiáveis e capturam o tamanho da recompensa que essas empresas poderiam acumular. The Economist usou os números de pico antes ou durante o confronto regulatório de cada uma das empresas e comparou com o PIB de seu país de domicílio. Algumas ressalvas: interpretar contas antigas envolve adivinhação (os livros da Companhia das Índias Orientais incluem uma entrada para “saque”). Não existem números oficiais para o PIB antes da primeira guerra, apenas estimativas acadêmicas. Para a Companhia das Índias Orientais e para o Standard Oil, as fontes são documentos judiciais e parlamentares, e não balanços.

Três conclusões são claras. Primeiro, quando as seis empresas tiveram problemas, apresentaram lucros entre 0,08% e 0,54% do PIB, com média de 0,24%. A Companhia das Índias Orientais está no topo dessa faixa e a IBM e a Microsoft, na inferior. Segundo, as atuais gigantes da tecnologia americanas e chinesas já estão próximas ou dentro do limite inferior dessa zona de perigo. A Apple é a maior, com lucros de 0,28% do PIB. Terceiro, as valorizações vertiginosas das empresas de tecnologia sugerem que seus lucros aumentarão ainda mais. Se as expectativas forem atendidas, até 2027, Amazon, Apple, Alphabet (dona do Google) e Microsoft todas terão lucros acima da média histórica de 0,24%. Facebook, Tencent e Alibaba não ficarão muito atrás.

Os magnatas da tecnologia têm alguns argumentos decentes a respeito para explicar por que o tamanho não importa mais. As empresas de hoje são mais globais, portanto comparar seus lucros à economia dos Estados Unidos ou da China pode exagerar sua influência (embora esteja previsto que, em 2027, os lucros da Amazon deverão ser duas vezes maiores em relação ao PIB mundial do que a Companhia das Índias Orientais, em 1813). Instituições políticas nos Estados Unidos, e talvez na China, são menos corruptas do que na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos do século 19, de modo que as grandes empresas podem ser menos capazes de capturar governos.

No entanto, os gigantes da tecnologia de hoje extraem lucros de clientes de forma mais consistente do que os oligopolistas anteriores. Juntas, as sete maiores empresas obtêm um retorno de 32% sobre o patrimônio líquido (ROE). A Microsoft teve altos retornos em 1998. A Standard Oil também tinha um ROE que rivalizava com os gigantes da tecnologia de hoje. Porém, mesmo em seu apogeu, a Companhia das Índias Orientais, a US Steel e a AT&T apresentaram ROEs de apenas cerca de 10%, enquanto a IBM conseguiu cerca de 20%.

Se os gigantes de hoje fossem partidos, isso significaria um desastre? Segundo um grande acionista, as rupturas às vezes beneficiam os investidores. As ações das subsidiárias listadas da Standard Oil aumentaram de valor após a decisão de desmembrar a empresa, em 1911. Já a Companhia das Índias Orientais encolheu após o fim do monopólio. Nos anos 1990, a IBM apresentava perdas e hoje é uma sombra do seu antigo status. As empresas que resultaram do desmembramento da Standard Oil, incluindo a Exxon e a Chevron, reduziram sua relevância em relação ao PIB. Duas empresas se saíram melhor. Descendentes da AT&T, as atuais Verizon e AT&T engoliram muitos de seus concorrentes e juntas agora acumulam lucros parecidos com a que a empresa “mãe” tinha em 1974. A Microsoft sofreu maus bocados após ter sido desmembrada, ela quase dobrou de tamanho desde então.

‘Trambolhos’. O passado não é encarado como guia no Vale do Silício e na China. No entanto, no auge de seus poderes, empresas gigantescas têm perspectivas limitadas sobre si mesmas. Em 1974, o relatório anual da AT&T rejeitou os riscos de antitruste e afirmou que “a concorrência gera uma duplicação dispendiosa”. Em 1909, a Standard Oil disse aos tribunais que seus fundadores, com sua “capacitação infinita”, tinham tido sucesso como se tivessem desenvolvido “uma mina de ouro ou diamantes – uma lógica não muito diferente de como os titãs atuais da tecnologia se justificam. Vale a pena ter em mente a falibilidade das gigantes corporativas, uma vez que as ações de tecnologia atingiram patamares quase inimagináveis há apenas dois anos. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.