Grécia prepara novo pacote de austeridade enquanto oposição cresce

Primeiro-ministro do país deve falar ainda nesta semana com os membros do gabinete e deputados socialistas para decidir detalhes das novas medidas

Paula Moura, da Agência Estado,

30 de maio de 2011 | 16h58

O governo da Grécia intensificou os preparativos nesta segunda-feira, 30, para os novos cortes de gastos e aumento de impostos no valor de bilhões de euros que vai revelar nos próximos dias, mesmo com o aumento da oposição pública às novas medidas nas ruas de Atenas.

Em uma série de reuniões nessa semana, o primeiro-ministro George Papandreou deve falar com os membros do gabinete e deputados socialistas para decidir detalhes das novas medidas, assim como evitar o descontentamento dentro do próprio partido governista.

As conversações acontecem enquanto a Grécia se aproxima de um acordo final com uma equipe de funcionários do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Central Europeu (BCE) que passaram o último mês em Atenas decidindo se o país deve receber a próxima parcela de 110 bilhões de euros de ajuda acordada no último ano.

"As negociações com a equipe parecem estar bem perto de uma conclusão", disse um membro do governo grego. "Acho que finalmente estamos fechando um dos meses mais difíceis que a Grécia enfrentou".

As medidas, que chegam a um total de quase 29 bilhões de euros, são destinadas a diminuir o déficit de orçamento grego, de 10,5% do Produto Interno Bruto (PIB) no ano passado para menos de 1% em 2015. Junto com as medidas, a Grécia também prometeu começar um plano de privatização, há tempos adiado, a fim de arrecadar 50 bilhões de euros nos próximos cinco anos para diminuir o escalonamento da dívida, que agora paira em torno de 150% do PIB.

Em maio do ano passado, a Grécia se tornou o primeiro país da zona do euro a receber um empréstimo extraordinário dos seus parceiros europeus e do FMI desde a criação da moeda única em 2000 em troca de medidas para organizar suas finanças públicas e reformar sua economia em dificuldade.

Mas o acordo de resgate do ano passado também previa que a Grécia fosse capaz de começar a fazer empréstimos de mercados de capital neste ano. Mas, até agora, as tentativas de Atenas de atrair investidores globais fracassaram. A taxa de juros que a Grécia precisaria pagar por bônus de dois anos chegaria a 24%, e o país agora pede 60 bilhões de euros adicionais de ajuda para os próximos dois anos.

Nos últimos dias, o FMI alertou que, a menos que os parceiros europeus da Grécia ofereçam mais ajuda para cobrir o crescente rombo no financiamento, não vai emprestar dinheiro para a Grécia sozinho. Outros líderes europeus têm sido relutantes em fazê-lo, temendo a reação de contribuintes ressentidos nos outros 17 países da zona do euro.

A situação se complica ainda mais pelo fato de que muitos observadores de mercado - e alguns governos europeus - agora acreditam que alguma forma de reestruturação da dívida é inevitável e que o fardo da dívida grega é insustentável.

O Banco Central Europeu, que se opõe a qualquer reestruturação da dívida, disse que tal ação causaria um efeito dominó sobre os outros países europeus endividados. Ao mesmo tempo, os funcionários europeus estão lidando com a difícil tarefa de amenizar o cronograma de pagamento da dívida grega, sem fazer com que as grandes agências de classificação de risco de crédito declarem o país como insolvente e levem o sistema bancário grego ao colapso.

Mesmo antes do anúncio de novas medidas a oposição tem aumentando, com as duas maiores centrais sindicais do país - e muitos outros sindicatos pequenos - planejando greves contra o novo pacote de austeridade e a venda de ativos do estado.

Nesta segunda-feira, milhares de manifestantes se reuniram em frente ao Parlamento em Atenas para o sexto dia de protestos inspirados no movimento espanhol "Los Indignados", que ocupou a praça central de Madri por semanas.

Antonis Papaioannou, de 20 anos, estudante de engenharia mecânica em Atenas, disse que as medidas de austeridade atingiram a educação. Nos últimos anos, os cortes de gastos levaram a quedas de energia em sua faculdade, greves de professores que não receberam salários e até falta de papel para computadores dos alunos.

"Estou indignado porque tudo o que vejo do governo e da equipe internacional é como eles estão tentando espremer o povo grego sem gastar dinheiro com a educação", disse. "O governo grego representa o grande capital, e não o povo".

No domingo, cerca de 30 mil manifestantes se juntaram ao movimento, enquanto uma série de barracas com dezenas de manifestantes se instalou num protesto permanente na praça principal de Atenas.

Enquanto isso, os esforços para conseguir um amplo consenso político para as reformas, também estipuladas pela União Europeia (UE), falharam. As negociações da sexta-feira entre o premiê George Papandreou e líderes da oposição terminou sem acordo, pois Antonis Samaras, líder do principal partido de oposição Nova Democracia, novamente rejeitou o programa de austeridade do governo nesta segunda-feira.

Em um sinal problemático para os Socialistas, o Nova Democracia agora tem uma pequena vantagem sobre o partido governista pela primeira vez em três anos, revelou uma pesquisa de opinião pública publicada no jornal Eleftheros Typos no domingo. As informações são da Dow Jones.

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