Greve e entrave à importação atrapalham setor automotivo

Greve na fábrica da Volkswagen no Paraná se aproxima de um mês e já é a maior promovida pela categoria desde o segundo semestre de 2009

Reuters,

26 de maio de 2011 | 14h27

A greve na fábrica da Volkswagen no Paraná se aproxima de 1 mês e, somada à produção perdida em outras montadoras e entraves à importação de automóveis, pode acabar obrigando a indústria de veículos a rever para baixo os números de vendas previstos para 2011.

O impasse na unidade da Volks de São José dos Pinhais, uma das mais modernas da companhia alemã no mundo, em torno de distribuição de parte do lucro aos empregados já causou a perda de produção de 12.150 automóveis da marca, de acordo com o sindicato que representa os trabalhadores. A Volkswagen ocupa a segunda posição de vendas nacionais, atrás apenas da Fiat.

Segundo analistas, o vigor do mercado de veículos do Brasil está ampliando o poder dos metalúrgicos nas negociações com as empresas desde o ano passado. Em 2010, os trabalhadores conseguiram reajustes bastante acima da inflação, com as montadores concedendo aumentos salariais acima de 10%.

"Quando o mercado está quente, os trabalhadores começam a radicalizar, é preciso ter bom senso", afirma a diretora da consultoria MB Associados, Tereza Maria Fernandez. Segundo ela, até agora o mercado não sentiu efeitos da queda de produção, por causa de um nível de estoque mais alto que a média.

"O mercado vem crescendo a uma velocidade menor que no ano passado, mas as montadoras não diminuíram produção. Até o momento, acho que as paralisações não atrapalham (as vendas) por causa do nível de estoque."

"Mas há um limite. Se isso (greve na Volkswagen) se estender até o início de junho, a gente vai ter de rever os números", acrescenta ela, referindo-se às projeções de produção e vendas da indústria em 2011.

A associação que representa as montadoras, Anfavea, prevê para 2011 uma alta de 5% nas vendas de veículos no país, para novo recorde de 3,69 milhões de unidades. A produção de veículos montados deve subir 1,1% , atingindo 3,42 milhões.

Na avaliação do economista do setor automotivo na consultoria Tendências, Alexandre Andrade, com exceção da Volks, as montadoras vêm aceitando as exigências dos trabalhadores "para não terem implicações mais sérias, de se verem com uma linha de produção interrompida por muito tempo".

Ele concorda com a avaliação da diretora da MB Associados sobre um prolongamento da greve na Volks no Paraná, que produz entre outros modelos o Fox - o quinto automóvel mais vendido do Brasil na primeira quinzena de maio.

"Acho que agora os estoques estão sendo suficientes para atender a demanda, mas se a interrupção da produção se estender por mais tempo, aí sim pode afetar as estimativas do setor", diz Andrade.

Procuradas, Anfavea e Volkswagen preferiram não comentar o assunto. No início do mês, a entidade divulgou que o estoque de veículos novos entre patios de montadoras e concessionários do país era de 315.754 unidades, suficiente para 33 dias de vendas.

Lucro repartido

Neste ano, negociações em torno de participação nos lucros concederam valores de até R$ 15 mil para trabalhadores da fábrica de caminhões da Volvo, no Paraná. Na terça-feira, metalúrgicos da General Motors em São José dos Campos e São Caetano, no Estado de São Paulo, encerraram movimento grevista após obterem da empresa valores 30% maiores que em 2010, de até R$ 13,7 mil.

A greve na Volks começou em 5 de maio e já é a maior promovida pela categoria desde o segundo semestre de 2009, quando a fábrica paranaense parou por 21 dias em meio à campanha salarial daquele ano.

Os trabalhadores cobram R$ 12 mil de participação nos resultados da montadora, com uma primeira parcela de R$ 6 mil. A montadora oferece um primeiro pagamento de R$ 4.600, com o restante ficando para ser discutido no segundo semestre.

Faltam peças

Enquanto isso, na Honda em Sumaré (SP) a produção parou desde o dia 12. A falta de peças causada pelo terremoto de março no Japão obrigou a empresa a anunciar corte de metade da produção e demissões. A escassez de componentes também atingiu a Toyota em Indaiatuba (SP), que parou por três dias entre o final de abril e a semana passada.

Além das greves e da falta de componentes que prejudica especificamente a produção das japonesas, o governo adotou há quase duas semanas barreiras à importação de veículos prontos - em uma ação que pode atrapalhar as vendas das marcas que não produzem no Brasil. Licenças de importação que antes eram automáticas levarão agora até dois meses.

O real valorizado impulsionou a comercialização de veículos importados no Brasil, que atualmente respondem por mais de 20% das vendas de carros novos.

(Por Alberto Alerigi Jr.)

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