Reprodução/YouTube
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Grupo de criptomoedas desviou R$ 1,5 bilhão de sete mil clientes, diz PF

Cinco pessoas foram presas durante as investigações da Operação Daemon; presidente do grupo ligado ao esquema de pirâmide financeira se apresentava como o ‘rei do bitcoin’

Julio Cesar Lima, especial para o Estadão

06 de julho de 2021 | 05h00

CURITIBA - A Polícia Federal, no âmbito da operação Daemon, prendeu ontem cinco pessoas ligadas ao grupo Bitcoin Banco, inclusive o presidente da companhia, Cláudio Oliveira, que se autointitulava como “rei do bitcoin”.

Oliveira é acusado de ter operado um esquema de pirâmide financeira que desviou R$ 1,5 bilhão de 7 mil clientes. Além dele, foram presos sua mulher, uma “companheira”, um funcionário de confiança e um outro investigado que teria ajudado na operação.

Segundo a PF, durante as diligências foram apreendidos veículos de luxo avaliados em cerca de R$ 2,5 milhões, além de joias e dinheiro vivo. Em nota, a Polícia Federal informou que os investigados apostavam na promoção da imagem de sucesso do grupo, com exibição de posses e bens de luxo e realização de grandes eventos.

Um efetivo de 90 policiais cumpriu cinco mandados de prisão – um de prisão preventiva e quatro de prisão temporária – e vasculhou 22 endereços em Curitiba e na região metropolitana paranaense. 

A apuração começou em 2019, com a Polícia Civil do Paraná. As cobranças a Oliveira – cujo banco chegou a ter mais de 100 funcionários e ocupava pelo menos quatro andares de um prédio de alto valor na área central de Curitiba – já aconteciam desde o fim de 2019. 

Em outubro daquele ano, quando um grupo de pessoas foi à sede do escritório cobrar a devolução dos valores, já havia reclamação de que os clientes não tinham acesso às contas havia quatro meses. O motivo para a retenção do dinheiro, segundo o grupo empresarial justificou à época, seria que o Bitcoin Banco havia sido alvo de hackers.

Para o advogado Gustavo Guedes, que representa clientes cujas perdas com o Bitcoin Banco somam aproximadamente R$ 20 milhões, a ação da PF pode retardar o processo na Justiça, mas, por outro lado, abre a possibilidade para que a Polícia Federal repatrie bens luxuosos que estão em outros países, incluindo paraísos fiscais.

“Houve um sequestro de bens no Brasil. Porém, com a expertise que a Justiça federal adquiriu, pode ser possível que se consigam os bens de valores fora do País”, disse.

Uma das vítimas que diz ter sido prejudicada pela empresa é o empresário e estrategista digital André Santos, de 23 anos. Em 2019, ele investiu R$ 53 mil para comprar 1,5 bitcoin -- valor da moeda digital na época -- por meio de empresas do Grupo Bitcoin Banco. Ele diz ter conhecido a corretora por meio de um vídeo no YouTube. 

Durante duas semanas, Santos deu continuidade à operação de compra e venda de bitcoin por meio de duas corretoras do Grupo Bitcoin Banco, a NegocieCoins e a Tem BTC. O investimento estava sendo lucrativo na época, porém Santos nunca conseguiu sacar os valores. Para arcar com a perda, ele precisou fazer um empréstimo. O empresário afirma que o Grupo Bitcoin Banco prometeu pagar os valores devidos, entretanto, até hoje, nenhum pagamento foi realizado.

Recuperação judicial

As alegações dos investigados sobre o ataque hacker chegaram a ser alvo de apuração da Polícia Civil, mas os investigadores apontaram que, na verdade, existiam indícios de que os donos das corretoras de criptomoedas teriam praticado crimes de estelionato, formação de quadrilha e contra a economia popular. Após o desfecho de tal investigação, o grupo sob suspeita obteve um pedido de recuperação judicial, afirma a PF.

Para justificar o pedido de recuperação, o líder do grupo investigado alegou à Justiça que tinha cerca de 7 mil bitcoins, o que seria suficiente para quitar todas as dívidas decorrentes dos bloqueios de saques dos clientes.

Segundo a PF, o nome da operação, Daemon, faz referência à mitologia grega, “a um ser sobrenatural trabalhando em plano de fundo”, e à computação, “a um programa que executa um processo em plano de fundo que não está sob controle direito do usuário interativo”.

Ontem, o site do Bitcoin Banco continuava no ar, embora diversas páginas e links não funcionassem. No site do banco também não há nenhum dado de contato para imprensa ou clientes. Representantes do banco não foram encontrados pela reportagem. / COLABOROU NATÁLIA SANTOS

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