Grupo Mateus/Divulgação
Ilson Mateus construiu do zero rede de atacarejo, que hoje tem 137 lojas e emprega mais de 20 mil funcionários Grupo Mateus/Divulgação

Grupo Mateus convida gestores a conhecer companhia ‘in loco’

Grupo quer tornar seu negócio mais conhecido para ampliar o perfil dos investidores – atraindo até mesmo estrangeiros

Fernanda Guimarães, O Estado de S.Paulo

08 de agosto de 2021 | 14h00

Com sede no Maranhão e com números que a tornam uma gigante do varejo nacional o Grupo Mateus foi uma das principais aberturas de capital de 2020 e mobilizou todos os grandes nomes da Faria Lima, em operação liderada pela XP. O resultado foi uma das maiores ofertas de ações na Bolsa brasileira: a abertura de capital que movimentou R$ 4,6 bilhões e foi uma das mais comentadas de 2020.

Agora, quase um ano mais tarde, a companhia fundada em 1986 por Ilson Mateus – que, antes de abrir seu negócio de alimentos, chegou a ser garimpeiro em Serra Pelada, no Pará – luta para ser continuar a ser lembrada pelos investidores e pelos executivos de importantes fundos do País. 

Como a maioria das gestoras do Brasil estão concentradas na Faria Lima, coração financeiro de São Paulo, e no Leblon, o correspondente no Rio de Janeiro, os gestores não conhecem a operação do Mateus no dia a dia. Ou seja: os tomadores de decisão dos grandes bancos não fazem compras em suas lojas, como ocorre com Pão de Açúcar e Carrefour, por exemplo. Logo, a rede de atacarejos e atacados percebeu que precisaria traçar uma estratégia para seguir viva na memória dos investidores.

Desde que chegou à companhia, neste ano, esse tem sido o trabalho de Marcelo Korber, gerente de relações com investidores do Grupo Mateus. A meta é manter a comunicação em dia, informando, por exemplo, mensalmente detalhes sobre o crescimento da rede – hoje, já são 182 lojas em operação.

“O que temos feito é nos comunicar mais. Aumentamos, por exemplo, o contato com as casas de análise independentes”, comenta Korber. Do lado das pessoas físicas, o movimento tem ajudado: já são 72 mil acionistas, um dos maiores números na Bolsa brasileira.

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Korber comenta também que a empresa estuda a realização e viagens com gestores, no jargão do mercado os “non-deals roadshows”, como são chamadas as reuniões com investidores sem uma operação atrelada. A ideia é mostrar “in loco” o gigantismo do Grupo. O próximo passo, afirma o gerente de RI, é atrair os estrangeiros, que hoje têm pouca representação no capital da empresa. 

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Com impulso do agro, Bolsa ganha mais empresas de fora do eixo Rio-São Paulo

Em 2021, empresas como a Boa Safra, de sementes, e a Jalles Machado, de açúcar e etanol, estrearam na B3, que ainda enfrenta dificuldades para atrair empreendedores de fora dos grandes centros; 60% dos negócios listados têm sede em São Paulo

Fernanda Guimarães, O Estado de S.Paulo

08 de agosto de 2021 | 14h00
Atualizado 09 de agosto de 2021 | 10h51

Maior produtora de sementes de soja no Brasil, a Boa Safra abriu o capital neste ano na Bolsa e atraiu grandes investidores que viram a possibilidade de ampliar a diversificação regional de seu portfólio. A oferta poderia ser só mais uma entre as dezenas de novatas na Bolsa brasileira neste ano. No entanto, tem um diferencial: a Boa Safra é apenas a terceira companhia de Goiás listada na B3. A segunda, a usina de açúcar e etanol Jalles Machado, havia chegado meses antes. Esses casos refletem uma mudança sutil no perfil da Bolsa brasileira, que começa a ter mais representantes de fora do eixo Rio-São Paulo. 

Para a Boa Safra, a meta de fazer uma oferta inicial de ações (IPO, na sigla em inglês) existia desde a gênese do negócio. “Já abri a empresa com o sonho de abrir capital”, diz Marino Colpo, presidente da empresa, que fundou a empresa ao lado da irmã, em 2009. Segundo o empresário, a ideia desde o início foi pavimentar o caminho para um IPO e, por isso, alguns ritos foram seguidos. Desde 2016, por exemplo, o balanço da Boa Safra é auditado pela KPMG. 

E a oferta chegou até antes do que o planejado. Com o mercado ávido por negócios fora do padrão tradicional da B3, a decisão do IPO foi tomada em 2020, junto com a XP, que coordenou a oferta. Antes de lançar a operação, a decisão foi de levar gestores de fundos para visitar a fazenda, para ajudar no entendimento da empresa, visto que poucos analistas conhecem o setor. “Existe essa distância entre a Faria Lima e o agronegócio. Muitos gestores não conheciam o setor, mas percebo que as coisas têm mudado rápido”, diz Colpo.

Essas empresas, antes desconhecidas do centro financeiro paulista, sentiam uma barreira na hora de acessar o mercado de capitais. E não é por menos: das quase 500 empresas com ações listadas na B3, cerca de 300 têm sede no Estado de São Paulo. O que chama também a atenção é que oito Estados brasileiros não têm representantes, um reflexo da estrutural concentração da economia nacional no eixo Rio-SP.

Agora, com um juro ainda em um dígito, a história começou a mudar. O processo de descoberta das empresas no interior do Brasil ganhou dimensão após um dos IPOs icônicos no ano passado: o do Grupo Mateus, gigante varejista do Maranhão, uma das três empresas do Estado presentes na B3. 

Apesar de muitos Estados terem representantes listados é importante, grande parte das empresas do interior do País não tem liquidez na Bolsa – boa parte delas chegou ao mercado há décadas, aproveitando incentivos fiscais para incentivar a abertura de capital. 

Agora, a situação é outra. O pano de fundo atual para a chegada de empresas de outras regiões do País na Bolsa, diz o diretor de relacionamento com clientes da B3, Rogério Santana, é a maior funcionalidade do mercado brasileiro. “Há mais investidores olhando IPOs, gestores querendo ouvir histórias diferentes novas e fundos de investimento captando recursos.” 

Sócio responsável pelo banco de investimento da XP, Pedro Mesquita diz que a tentativa de desbravar o interior do País visando a futuros IPOs é consciente. “Vemos muitas empresas com potencial”, diz ele, ponderando que, na maioria das vezes, a chegada à Bolsa exige um trabalho de longo prazo. 

Para além do agronegócio, em julho, mês cheio de ofertas na B3, provedoras de internet como a Brisanet e a Unifque, que têm forte atuação no Nordeste e no Sul do Brasil, respectivamente, estrearam no pregão.

Na fila

Olhando adiante, a lista de empresas de outros Estados continua crescendo, impulsionada pelos recentes casos de sucesso. Uma delas é a São Salvador Alimentos (de Goiás, que é dona da marca Super Frango). A oferta pode girar até R$ 1,5 bilhão e estava prevista para o primeiro semestre, mas foi adiada porque o negócio ainda é desconhecido de bancos de investimento de São Paulo.

Com pedidos de registro na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) estão a paranaense Conasa (de saneamento), a Rio Branco Alimentos, dona da marca Pif Paf (de Minas Gerais), e a também goiana Nova Harmonia (de construção).

A expansão de negócio fora do eixo Rio–São Paulo na Bolsa também deve ganhar um impulso “tech”, diz o responsável global pelo banco de investimento do Itaú BBA, Roderick Greenless. “Há muitos polos de tecnologia no Brasil, como em Recife, Belo Horizonte e Florianópolis.”

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