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Grupo japonês Nikkei compra o jornal ‘Financial Times’ por R$ 4,3 bilhões

Após meses de especulações, o grupo britânico Pearson, dono da publicação desde 1957, vendeu a operação do jornal de economia e negócios para se dedicar ao setor de educação, no qual é um dos líderes globais; aquisição dá ao Nikkei influência mundial

, O Estado de S. Paulo

23 de julho de 2015 | 11h54

Atualizado às 21h08

LONDRES e SÃO PAULO - O jornal britânico Financial Times, referência global na cobertura de economia e negócios, mudou de dono nesta quinta-feira depois de quase 60 anos. O Grupo Pearson, que migrou do setor de mídia para o de educação, com forte atuação em todo o mundo, incluindo no Brasil, vendeu a publicação para o grupo japonês Nikkei por £ 844 milhões (o equivalente a R$ 4,3 bilhões).

O negócio, que atendeu a um desejo antigo da Pearson, coloca nas mãos de um grupo japonês a centenária publicação britânica (veja quadro abaixo), o que pode se traduzir em alguns obstáculos culturais. 

A decisão do grupo Nikkei de comprar o FT faz sentido dentro de seu perfil: no Japão, a empresa é dona do Nihon Keizai Shimbun, principal jornal econômico do Japão, que exibe a invejável circulação de 3 milhões de exemplares na edição impressa, além de 400 mil assinantes online. Com o novo título, o Nikkei pode transformar influência local em mundial.

Força. Apesar de fazer parte de um setor em dificuldades, o FT, tradicionalmente identificado por ser impresso em papel de cor salmão, tem uma saúde financeira superior à de outros jornais. A publicação iniciou sua migração para a plataforma online ainda em 2002, tendo sucesso em convencer seus clientes a pagar por seu conteúdo. 

O FT teve lucro durante toda a década passada e, desde os anos 1970, vinha trabalhando para expandir sua base de leitores em nível mundial. Hoje, o número de assinantes do jornal nos Estados Unidos é maior do que no Reino Unido.

Essa saúde financeira, conquistada às custas de uma forte reestruturação desde o ano 2000, aumentou o valor de venda da publicação. Em dólares, o total pago pelo Financial Times ficou em US$ 1,3 bilhão, muito superior ao de outras publicações respeitadas vendidas recentemente, como o The Washington Post (US$ 250 milhões) e o Boston Globe (US$ 70 milhões). 

Publicações online surgidas mais recentemente, como o Huffington Post e o Buzz Feed, vêm adotando a mesma estratégia de conteúdo global que se revelou frutífera para o jornal econômico por mais de 30 anos.

Segundo analistas de mercado, a proposta do Nikkei pelo Financial Times se encaixa na categoria “irrecusável”. O valor representa um múltiplo de cinco vezes em relação ao lucro operacional da companhia. 

O Pearson fez um negócio especialmente bom porque o acordo com o grupo japonês não incluiu sua participação na revista The Economist, que dá lucros até superiores aos do FT. Os £ 844 milhões pagos pelo Nikkei incluem o jornal, sua versão digital e alguns outros negócios online, como o site de finanças How To Spend It. Além da The Economist, o edifício-sede do FT, em Londres, também não foi incluído na operação divulgada nesta quinta-feira pela manhã.

Para fechar o negócio, o grupo Nikkei teve de vencer outros interessados, entre eles a editora alemã Axel Springer, que vinha sendo apontada como favorita para comprar o jornal de economia. De capital fechado, o Nikkei é mais conhecido globalmente pelo índice Nikkei, que reúne 225 ações negociadas na bolsa de Tóquio. No entanto, seu forte é o mercado editorial. O grupo mantém operações de broadcasting, eventos e serviços de dados.

O Nikkei já mantinha uma parceria editorial com o Financial Times, por meio da qual o Nikkei distribuía o seu conteúdo. Além disso, o Nikkei traduzia e publicava artigos do FT. Um sinal das ambições internacionais do grupo japonês foi o lançamento da Nikkei Asian Review, revista em língua inglesa e website, em 2013.

Mudança. Do lado do Grupo Pearson, que controlava a publicação desde 1957, o negócio permitirá que a empresa se concentre em seu setor prioritário, o de educação, que representa 75% de seus lucros. A agora ex-dona do FT se define como a “maior empresa de educação do mundo”. Nos 70 países em que atua, emprega cerca de 40 mil pessoas. 

A empresa tem forte atuação no mercado brasileiro. Nos últimos anos, comprou empresas como o colégio e faculdade paranaense Dom Bosco, o sistema de ensino COC e as escolas de idiomas Yázigi e Wizard. 

“O grupo Pearson foi um proprietário orgulhoso do FT por quase 60 anos”, disse nesta quinta-feira o presidente executivo do grupo britânico, John Fallon. “Agora, a Pearson será focada 100% na estratégia de educação global. O mundo da educação está mudando e nós vemos grandes oportunidades para crescer nosso negócio.” / FERNANDO SCHELLER, FERNANDO NAKAGAWA e AGÊNCIAS INTERNACIONAIS

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