Há 50% de probabilidade de rebaixamento dos EUA, diz BNY Mellon

Segundo diretor gerente do banco, rebaixamento ocorrerá mesmo se o teto da dívida norte-americana for elevado

Nalu Fernandes, da Agência Estado,

29 de julho de 2011 | 17h20

Os Estados Unidos podem enfrentar rebaixamento da nota de crédito soberano mesmo se o teto do endividamento for elevado. "Há 50% de probabilidade de um downgrade. A nota de crédito é uma questão que não tem a ver com a elevação ou não do teto. A questão (para as agências de rating) é ver progresso em reduzir os gastos públicos no longo prazo", afirma o estrategista-sênior e diretor gerente do Bank of New York Mellon (BNY Mellon), Michael Woolfolk.

Não parece particularmente favorável um resultado que conduza a um plano fiscal de fôlego e de longo prazo neste momento no Congresso norte-americano, diz o analista. "São os problemas com gastos, com o déficit orçamentário que vão levar as agências a reduzirem nosso rating AAA. O teto do endividamento não é realmente um problema", reiterou, ao AE Broadcast Ao Vivo. "Há diversos outros países que têm níveis maiores de endividamento do que os EUA. É a rápida elevação e o tamanho do déficit orçamentário que é preocupação para muitos".

Apesar da expectativa hoje em Washington, Woolfolk vê mais de 20% de probabilidade de que os EUA não terão uma decisão sobre o teto da dívida até o prazo de 2 de agosto.

"Mantenha em mente que o Congresso está chegando perto do recesso de agosto. E no fim da próxima semana pode ter um acordo", disse. Romper o prazo do início de agosto, porém, não vai causar necessariamente um default técnico. "Os EUA têm os fundos para honrar suas obrigações ligadas aos Treasuries. Haverá priorização. Pagar os detentores de títulos estaria no topo da lista de prioridades", afirma.

Entre as opções do governo norte-americano para honrar as obrigações com seus credores, pode haver fechamento temporário de algumas operações do governo. "Os parques nacionais podem ser fechados (para interromper repasses de recursos). Não acho que o problema irá ter recrudescimento até o ponto de haver problemas para pagar os gastos sociais, mas pode haver fechamento de algumas agências governamentais", citou. Também é possível que o governo adie pagamentos de contratos de serviços com terceiros.

Woolfolk

acredita que um acordo de curto prazo deve ser alcançado até o fim da próxima semana, ou seja, depois do prazo de 2 de agosto, mas tem uma visão pessimista sobre a qualidade de tal acordo. "Mesmo com um acordo de curto prazo há boas chances que o rating AAA possa ser rebaixado", reforça.

Recessão

A revisão de dados divulgada nesta sexta-feira, 29, pelo Departamento de Comércio dos Estados Unidos revela que a recessão econômica que se seguiu à falência do Lehman Brothers foi mais severa do que se pensava, afirma o estrategista-sênior e diretor gerente do Bank of New York Mellon (BNY Mellon), Michael Woolfolk.

Hoje, os EUA divulgaram revisão para as taxas de crescimento no período de 2003 até o primeiro trimestre deste ano. Entre os ajustes efetuados, os dados mostram revisão em baixa do Produto Interno Bruto (PIB) norte-americano em 2008, de 0,0% para -0,3%, e revelam que o declínio do PIB em 2009 foi mais acentuado, passando de uma queda de 2,6% para uma baixa de 3,5%.

No mesmo relatório, a divulgação do PIB no segundo trimestre do ano veio abaixo das expectativas. "O ritmo (da retomada) hoje é muito preocupante. Indica maior atraso em normalizar o juro", disse Woolfolk, ao AE Broadcast Ao Vivo. O que é mais perturbador, na opinião do analista, é o fraco consumo dos norte-americanos. O gasto pessoal real com consumo ficou praticamente estagnado, ao subir 0,1% no segundo trimestre, ante um avanço de 2,1% no trimestre anterior. Sabendo que dois terços do PIB são consumo, prossegue o analista, o fato é preocupante.

Mesmo se houver melhora no mercado de trabalho, Woolfolk não vê o Federal Reserve elevando o juro neste ano. Afinal, o Fed quer ver a taxa de desemprego abaixo de 8%, cita o analista, em relação ao nível corrente de 9,2%. Woolfolk reduziu a projeção para a expansão norte-americana no segundo semestre de 3% para 2,5%.

"Certamente uma contribuição negativa será o ritmo do consumo do governo. Mas a maior surpresa hoje é o consumo das famílias. Estamos preocupados se o consumo vai ter retomada agora no segundo semestre, especialmente com o risco hoje em Washington, com o (impasse) do teto do endividamento e talvez o rebaixamento da nota de crédito soberano. Estas questões devem diminuir a confiança do consumidor e o sentimento corporativo e podem desacelerar ainda mais o crescimento do país."

(Texto atualizado às 18h40)

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