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'Há dinheiro na mesa', diz presidente da nova HP no País

Executivo luta para colher os frutos de uma reestruturação bilionária e mostrar resultados à matriz, que depende das receitas vindas de fora dos EUA; para ele, a crise brasileira é uma oportunidade para o setor de TI

Entrevista com

Luciano Corsini, presidente da operação brasileira da Hewlett Packard Enterprise

Ian Chicharo Gastim, O Estado de S. Paulo

03 de novembro de 2015 | 07h00

À frente da operação brasileira da Hewlett Packard Enterprise, empresa com foco no mercado corporativo criada a partir da divisão da HP, Luciano Corsini diz que o desafio atual é mostrar à matriz que os negócios no País vão, sim, dar resultado. "É nosso trabalho correr atrás das oportunidades locais para mostrar à corporação que há dinheiro na mesa. E realmente há", afirma o executivo, que desde 2013 comanda a gigante de tecnologia no Brasil e agora tenta colher os frutos de uma reestruturação bilionária.

Com o objetivo de ganhar mais eficiência e agilidade, a HP anunciou há cerca de um ano a divisão de seus negócios em duas empresas separadas, com ações listadas em bolsa. O fatiamento teve custo global de cerca de US$ 1,3 bilhão e começou a valer, oficialmente, nesta segunda-feira. A partir de agora, a área de computadores pessoais e impressoras será tocada pela HP Incorporated, enquanto a parte de mercado corporativo, hardware e serviços ficará sob responsabilidade da Hewlett Packard Enterprise.

Com mais de 60% do faturamento vindo de fora dos Estados Unidos, o conglomerado luta para retomar o protagonismo no mercado de tecnologia, agora ofuscado por rivais mais jovens, como a fabricante de computadores chinesa Lenovo. A crise brasileira promete ser uma pedra no sapato para essa retomada, mas Corsini vê o atual momento como uma oportunidade. "A grande maioria das empresas busca o setor de TI para enfrentar a crise e se tornar mais competitiva", diz. 

A aposta de Corsini baseia-se em expectativas de forte crescimento para o setor no País. Levantamento da consultoria Frost & Sullivan aponta que apenas o mercado de computação em nuvem - um dos carros chefes da Hewlett Packard Enterprise - deve crescer 30% no Brasil até 2017 e movimentar US$ 1,1 bilhão. Concorrentes como Microsoft e IBM, no entanto, também querem pegar carona nessa expansão. Mas o executivo garante: "A separação será uma vantagem nesse cenário altamente competitivo."

Confira abaixo os principais trechos da entrevista:

Como foi o processo de divisão da HP?

A separação já fazia parte de um plano estratégico e foi implementada em um momento em que a empresa teve condições de fazer. A companhia está novamente forte e saudável financeiramente e operacionalmente. A expectativa é de que, focando no mercado alvo, cada empresa possa obter um crescimento acelerado. Isso porque, quando se olha o dinamismo dessas duas áreas de atuação da antiga HP, os 'timings', volumes e abordagens são diferentes. Por isso que, quando se separa, cada um vai dar foco no seu mercado, nas suas linhas de atuação, e a expectativa é que se ganhe flexibilidade e agilidade e isso impulsione o crescimento.

Qual foi o custo do processo, houve algum impacto na operação?

Para o cliente, não houve impacto algum. Fizemos toda a separação sem que se afetasse a operação. As áreas de negócios já eram verticalizadas, independentes. Onde houve duplicação de funções foi nas áreas corporativas, como marketing, RH e o setor jurídico. Todas essas áreas corporativas foram quebradas efetivamente, cada empresa terá o seu departamento. Isso teve sim um custo adicional. O impacto global foi de cerca de US$ 1,3 bilhão. 

Como a corporação vê o conturbado cenário político-econômico brasileiro?

Ela vê com preocupação, mas, num primeiro momento, não há nenhuma possibilidade de qualquer alteração na operação no País. Estamos dando todas as informações de forma clara e transparente para a matriz. A corporação sabe o que está acontecendo. Mas temos que 'dosar na tinta'. Queremos que a corporação continue investindo no País, que siga acreditando aqui, gerando oportunidades. É nosso trabalho correr atrás das oportunidades locais para mostrar para a corporação que sim há dinheiro na mesa, e realmente há esse dinheiro. Estamos conseguindo fazer negócios aqui no País, mesmo com esse momento de crise.

Mas empresas têm sido impactadas pela crise no País...

Tenho uma opinião de que não podemos ser um otimista ingênuo, porque a situação é realmente preocupante. Mas, diante dessa situação de instabilidade, a grande maioria das empresas e indústrias busca a área de TI para enfrentar a crise, para se tornar mais competitiva. A grande maioria dos projetos que temos trabalhado é de redução de custos, de otimização de processos, de melhoria, de fazer mais com o mesmo ou mais com menos. Uma crise pode ser desgraça para uns e oportunidade para outros. Os institutos apontam para um crescimento na ordem de 6%, 7% no setor de tecnologia nos próximos três a quatro anos. Isso relativo ao mercado corporativo. Então, para nós, é um momento de oportunidade sim.

A valorização do dólar não representa um grande risco para a operação no Brasil?

Veja, a escalada do dólar é global. Temos tido uns 2 ou 3 pontos porcentuais de impacto em função da moeda, isso no mundo inteiro. E 60% do faturamento da companhia vem de mercados fora dos EUA. Mas, na realidade, a corporação vem publicando seus resultados excetuando o impacto da moeda. O mecanismo que a corporação adotou para ser justa com as operações de todas as geografias é a moeda constante, que vamos ajustando mês a mês, de acordo com a variação do dólar. Isso extenua o impacto cambial no resultado da empresa. 

Mas no País a escalada do dólar foi muito forte...

Veja bem, expurgando o efeito moeda, a operação no País vai muito bem e obrigado. Se a corporação olhasse somente simplesmente para o dólar, não expurgasse o efeito moeda, seria realmente um desastre. Para se ter uma ideia, o dólar base do orçamento no início do ano era R$ 2,23, e agora o dólar esta na casa dos R$ 4. Como você gera quase o dobro de reais para entregar a mesma quantidade de dólar para a companhia em um ano? É impossível! Ninguém consegue vencer uma variação cambial dessa em um ano. A quantidade de dólares que estamos entregando é sim muito menor, porém não há uma visão negativa da nossa operação, porque se tirar o impacto moeda a operação está trazendo resultado. Estamos reportando com total transparência para a empresa. 

E o risco da crise política agravar ainda mais a crise econômica, como a corporação vê essa questão?

A empresa vê com preocupação, mas tem a expectativa de que em algum momento isso se ajuste. Temos uma conversa muito clara com a matriz. O pessoal de lá de fora também entende que isso foge ao nosso controle. A crise se instaurou, virou uma espiral negativa, mas não podemos nos levar por isso, estamos tendo oportunidades, estamos conseguindo negócios. E é aí que a separação nos ajuda ainda mais, por que nos dá mais agilidade, e com mais agilidade damos respostas mais rápidas ao mercado. Separados, vamos ter mais tranquilidade e facilidade para atuar. Nesse momento, a separação é uma vantagem nesse cenário altamente competitivo.

Como fica a relação das duas 'novas' HPs?

Ambas nascem como as maiores clientes uma da outra. Vamos continuar tendo uma atuação parceira, complementar. Continuamos nos alavancando juntos no mercado. É claro que acordos internos se transformaram em contratos. (...) Mas o mercado reagiu bem, pois nossa comunicação foi transparente. Agora vamos de ter de fazer com que o resultado apareça. 

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