Há sinais de que lua de mel entre Brasil e China acabou, diz ‘FT’

Enquanto o Brasil vê como bem-vinda a demanda chinesa por commodities, reclama da entrada de manufaturados chineses baratos, o que traz o risco de desindustrialização 

Daniela Milanese, da Agência Estado,

23 de maio de 2011 | 09h59

As relações comerciais entre Brasil e China apontam para as diferenças, desafios e desencontros existentes entre as duas economias, diz o Financial Times, em caderno especial sobre o tema divulgado hoje (23). "Há sinais crescentes de que a lua de mel acabou", afirma o jornal britânico.

Segundo o diário, "seria muito difícil encontrar duas grandes nações no mundo moderno que sejam social, política e culturalmente tão diferentes quanto China e Brasil". Em razão disso, o FT alerta para o "crescimento das tensões" entre os países.

Enquanto o Brasil vê como bem-vinda a demanda chinesa por commodities, reclama da entrada de manufaturados chineses baratos, o que traz o risco de desindustrialização.

O crescimento das relações comerciais entre os países e os bilhões obtidos com a venda de matérias-primas estimulam a economia brasileira. Isso permitiu que o governo desse início a um boom econômico movido pelo crédito, sem se preocupar com o déficit em conta corrente, na avaliação do Financial Times. "Pela primeira vez, a classe média baixa tem dinheiro para gastar. Ao mesmo tempo, de repente ela pode bancar a compra de produtos graças a uma enxurrada de importações baratas da China", diz o FT.

Mas, do ponto de vista industrial, há preocupações. A Fiesp argumenta que o superávit comercial brasileiro com a China, de US$ 5,2 bilhões no ano passado, foi obtido graças à venda de commodities. Na área de manufatura, houve déficit recorde de US$ 23,5 bilhões. "Hoje, é difícil encontrar alguma coisa fabricada no Brasil", afirma o jornal, ao lembrar que 80% das fantasias do carnaval deste ano foram importadas, a maior parte da China.

Em visita recente ao país, a presidente Dilma Rousseff pressionou para que a China comprasse mais produtos industrializados do Brasil - foram fechados negócios com a Embraer e houve o anúncio do compromisso de investimentos da Foxconn, empresa de Taiwan com forte operação na China.

Os fabricantes nacionais alertam que o País pode sofrer desindustrialização caso não imponha mais medidas protecionistas sobre que chamam de dumping de produtos chineses artificialmente baratos, aponta o jornal britânico.

Para o FT, a China também representa outros desafios para o País. "O Brasil é uma democracia liberal que pretende cada vez mais apoiar os direitos humanos, enquanto a China é autoritária e uma repressora brutal das discordâncias."

Além disso, o Brasil quer ser uma força dominante na América Latina, enquanto o crescimento do comércio da China na região a tornam uma competidora, avalia o FT.

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