Eric Gaillard/Reuters
Eric Gaillard/Reuters

Heineken pode desacelerar venda de cerveja no País, boa notícia para a Ambev

A marca principal não foi a maior ganhadora de participação de mercado em 202, mas ficou empatada com a marca Amstel, também da Heineken, em terceiro lugar

Talita Nascimento, O Estado de S.Paulo

29 de março de 2022 | 16h15

A Heineken deve perder impulso no mercado brasileiro, após um período de cinco anos de aumento nas vendas de cerveja no País. A empresa teve o início de seu forte crescimento no Brasil em 2017, tendo crescido cinco pontos porcentuais em sua parcela de mercado até 2021, que hoje está em torno de 6,5%, segundo estimativa do Bradesco BBI. Os volumes de venda de cerveja da Heineken no Brasil podem crescer mais lentamente daqui para frente, e essa é uma boa notícia para a Ambev

O Bradesco BBI acredita na desaceleração da Heineken no mercado brasileiro devido a exemplos vistos ao redor do mundo. No cenário dado pelo analista Leandro Fontanesi, em 10 países chaves analisados de 2011 a 2020, apenas 10% das marcas de cerveja que nos primeiros cinco anos eram líderes em ganho de mercado continuavam assim de 2016 em diante. Aliás, 50% delas perderam mercado nesse segundo período.

"De fato, embora acreditemos que a marca continuará a crescer, ela pode não ser necessariamente a principal ganhadora de participação de mercado, pois tem atingido presença semelhante à de outros países. Por exemplo, comparando outros mercados globais para a Heineken, em cerca de 80% deles, a principal marca da Heineken tem uma participação de mercado de 0 a 10%, que seria onde a marca está atualmente no Brasil", escreve o analista.

De acordo com as verificações de canal do banco, a marca principal da Heineken não foi a maior ganhadora de participação de mercado em 2021 no Brasil, mas ficou empatada com a marca Amstel, também da Heineken, em terceiro lugar, com ganho de cerca de 1% cada em fatia do mercado. Os líderes foram o novo lançamento da Ambev Brahma Duplo Malte (+2%) e seu clássico Antarctica Pilsen (+1%).

O analista lembra que a estratégia da Ambev é multimarca, enquanto a Heineken é focada em sua bandeira premium. A princípio, a holandesa tirou mercado das demais. A Skol, por exemplo, perdeu mercado nos últimos 10 anos, nas contas do banco. Agora, a desaceleração da concorrente pode ser uma boa notícia para a cervejaria brasileira.

O analista afirma ainda que, caso a Ambev mantivesse sua participação de mercado entre 2023 e 2026, o banco subiria o preço-alvo do papel em R$ 0,50.

Já em relatório sobre a Heineken em que afirma que a holandesa é uma de suas preferidas das empresas do ramo na Europa, o banco UBS pondera que, diferente do que se espera para a maior parte dos países de atuação da companhia, os volumes de venda de cerveja da Heineken devem ser mais fracos no Brasil.

"Esperamos um início forte para os números de volume de cerveja de 2022 no primeiro trimestre, apenas com África, Oriente Médio e Europa Oriental com altas abaixo de 5% em relação ao primeiro trimestre de 2019. Olhando para as outras regiões, notamos que a América Latina deve ver tendências de volume mais fracas no Brasil (alta de 1% devido ao clima adverso em janeiro), mas tendências de valor mais positivas (Heineken liderando o mercado em preço)", escrevem Nik Oliver, Robert Krankowski e Andrei Condrea.

Ambev

É verdade que a menor ênfase em volumes também é realidade na maior concorrente brasileira, a Ambev. A Ambev vendeu 180 milhões de hectolitros de cerveja ao longo do ano passado - 15 milhões a mais que em 2020. O crescimento em relação ao ano anterior foi de 9%, para o maior volume da história da companhia. 

Na apresentação dos resultados do quarto trimestre, porém, a empresa mostrou que a tendência agora deve ser diferente. Nos últimos três meses do ano, os volumes caíram 3% na operação brasileira em relação ao mesmo período de 2020. A companhia ainda fechou o ano com reajustes de preço para deixar a estrutura pronta para um 2022 mais focado na receita líquida por hectolitro do que em unidades vendidas.

A mudança, segundo o diretor financeiro da companhia, Lucas Lira, não se trata de uma nova estratégia, mas, sim, de uma adaptação ao cenário de alta inflacionária.

 "Vimos a inflação aumentar em vários mercados onde a companhia atua. Vendo isso acontecer, procuramos nos adaptar. Olhando para frente, em um ambiente de inflação mais alta, a tendência é que a nossa receita por hectolitro também seja mais alta e acabe impactando mais a receita do que o próprio volume", afirmou em entrevista ao Broadcast após a última divulgação de resultados.

De todo modo, as estimativas de que a marca holandesa perca impulso daqui para frente são positivas do ponto de vista concorrencial. A marca Heineken segue como líder nacional do mercado premium de cerveja, a mais vendida nos supermercados brasileiros (segundo ranking de 2022 da Associação Brasileira de Supermercados Portal) e tem o Brasil como principal mercado consumidor no mundo.

O que diz a empresa

Em nota, a Heineken afirmou que tem uma estratégia clara de fortalecer sua participação nas categorias premium e mainstream, nas quais é representada pelas marcas Heineken, Eisenbahn, Devassa, Amstel e Tiger.

"Estamos monitorando os fatores externos que naturalmente impactam todos os setores da economia, mas seguimos acreditando e investindo no País, inclusive com a construção de uma nova cervejaria no estado de Minas Gerais para atender à nossa crescente demanda", informou a empresa.

 

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