Herbalife tem valorização de 25% após ser acusada de 'práticas nazistas' por investidor

Bilionário William Ackman prometeu um 'ataque mortal' contra a companhia de suprimeitos de nutrição, mas o tiro saiu pela culatra

William Alden e Matthew Goldstein, The New York Times

23 de julho de 2014 | 14h08

O evento foi anunciado como um "golpe mortal" mortal contra a Herbalife. Esperava-se a "mais importante apresentação" da carreira de William A. Ackman, investidor bilionário que vem ridicularizando a empresa  de suprimentos de nutrição há um ano e meio, apostando contra a valorização de suas ações.

Mas, na terça feira, 22, Ackman apresentou uma extensa crítica à Herbalife que soou mais como um ataque contra aqueles que discordam dele em sua avaliação segundo a qual seu modelo de marketing em múltiplos níveis seria uma imensa e antiga fraude.

Ele comparou as práticas de vendas e táticas da Herbalife às da Enron, da máfia, dos traficantes de drogas e até dos nazistas. Atacou os provedores profissionais de serviços externos da empresa, incluindo a firma de auditoria PricewaterhouseCoopers, que não quis se manifestar. Ele chegou até a repreender a ex-Secretária de Estado Madeleine Albright, que discursou em eventos da empresa.

Parecia que Ackman estava disposto a enfrentar o mundo inteiro.

Mas, numa virada frustrante, o preço das ações da Herbalife aumentou durante a palestra dele, acumulando valorização superior a 25% até o final do pregão. Ackman disse não se importar, acrescentando que tinha gasto US$ 50 milhões no ataque à Herbalife e se mostrando convicto de sua avaliação.

"Sou uma pessoa extremamente persistente. Extremamente", disse ele. "E, quando acredito estar correto, quando a questão é importante, estou disposto a ir até o fim do mundo."

A apresentação, que incluiu um enorme conjunto de documentos, durou mais de três horas, teve público de quase 500 pessoas e ocorreu num auditório em Manhattan. Ele usou uma abordagem semelhante para detalhar sua aposta de US$ 1 bilhão contra a Herbalife no final de 2012 e, desde então, divulgou documentos para defender suas opiniões.

Na terça feira, Ackman se concentrou num aspecto específico das atividades da Herbalfe: os clubes de nutrição, locais de revenda não sinalizados que são operados por clientes após a conclusão de um processo de treinamento, usando um fórum para vender shakes dietéticos e outros produtos. Ackman disse que tais clubes, responsáveis por 40% a 50% da renda da empresa, seriam "completamente fraudulentos".

Ele fez um apelo aos reguladores, dizendo que, se o governo agisse contra os clubes de nutrição, a empresa entraria em colapso. "Se analisarmos as maiores fraudes de todos os tempos, a Enron tinha uma sala de negociações fantasma", disse Ackman. "No caso da Herbalife, temos clientes fantasmas, fictícios."

De acordo com as informações apresentadas por ele, uma parcela significativa das vendas da Herbalife seria proveniente de clientes que são recrutados para fazerem parte de um extensivo programa de treinamento para a venda dos produtos. Usando o que ele chamou de documentos internos, Ackman disse que, quando a Herbalife viu suas vendas perdendo força dez anos atrás, a empresa adotou uma estratégia de marketing agressivo dos seus produtos para o público hispânico de baixa renda morando nos Estados Unidos, México e Venezuela.

Mas Ackman roubou a cena em sua própria apresentação. Em certo momento, ao perceber que seu pai estava entre o público, Ackman contou a história de quando seu bisavô veio da Rússia para os EUA, trabalhando como aprendiz de alfaiate antes de abrir sua própria fábrica de casacos.

Ele pareceu engasgar ao se dirigir ao diretor executivo da Herbalife, Michael O. Johnson.

"Sou um grande benfeitor desse país", disse Ackman. "Michael Johnson é um predador. Este é um empreendimento criminoso. Espero que esteja ouvindo, Michael. É hora de fechar a empresa."

Esta não foi a primeira vez que Ackman veio às lágrimas em público. Ele ficou emocionado durante uma reunião de acionistas da Target em 2009, quando a batalha indireta travada por seu fundo de hedge estava chegando ao fim.

Mas o evento de terça feira foi particularmente carregado de tonalidades dramáticas. Imediatamente antes, o diretor financeiro da Herbalife, John DeSimone, concedeu uma entrevista à CNBC na tentativa de desarmar o ataque de Ackman.

E houve também uma entrevista com Ackman concedida à CNBC na segunda feira na qual ele criou grande expectativa em torno da apresentação.

"Esta será a apresentação mais importante da minha carreira", disse ele. "Sei que isso produz grande expectativa, mas não iremos desapontar."

É claro que farpas foram trocadas. Além da PricewaterhouseCoopers, Ackman criticou o banco de investimento Moelis & Company, que aconselhou a Herbalife, e o escritório de advocacia contratado pea empresa, Boies, Schiller & Flexner. Seus representantes não quiseram se manifestar.

Ackman, que continua a perder dinheiro com a aposta, não escondeu o fato de preferir no momento atual envolver-se numa batalha nos tribunais. Um processo poderia beneficiar Ackman e seu fundo de hedge Pershing Square Capital Management, pois concederia à sua firma acesso a documentos da Herbalife que seriam difíceis de obter de outra maneira.

Em resposta a uma pergunta a respeito da possibilidade de estar provocando Johnson e a Herbalife na esperança de ser processado, Ackman simplesmente respondeu, "Podem vir".

Em resposta, a Herbalife emitiu um pronunciamento: "Mais uma vez, Bill Ackman prometeu demais e cumpriu pouco em sua aposta de US$ 1 bilhão contra nossa empresa. Depois de gastar US$ 50 milhões, dois anos e dezenas de milhares de horas de trabalho, Bill Ackman mostrou mais uma vez que os fatos estão do nosso lado".

A empresa acrescentou que a alegação de fraude feita por Ackman envolvendo os clubes de nutrição é "absolutamente falsa, uma fabricação". Tradução de Augusto Calil

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