Filipe Araújo/AE
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Hotéis fecham 2021 em alta, mas pandemia coloca em dúvida retomada em 2022

Empreendimentos voltaram a registrar taxa de ocupação alta no fim do ano, mas o aumento de casos de covid-19 e influenza pode afastar viajantes

Circe Bonatelli, O Estado de S.Paulo

12 de janeiro de 2022 | 15h00

Após sofrerem com o sumiço dos hóspedes desde o começo da pandemia, os hotéis viram um número crescente de reservas nos últimos meses de 2021. Muitos empreendimentos em cidades turísticas ficaram lotados durante as festas de fim de ano.

Mas o que parecia um sinal promissor de retomada deu lugar a um sentimento de dúvida e cautela no começo de 2022 devido ao novo salto de casos de covid-19, aos cancelamentos de voos e à pressão inflacionária sobre todo o mercado.

No segmento de resorts e hotéis de luxo, a ocupação ficou em torno de 80% a 90% em dezembro, de acordo com números preliminares da Associação Brasileira de Viagens de Luxo (BLTA, na sigla em inglês). A entidade reúne redes de grifes como Fasano, Unique, Belmond e Copacabana Palace, entre outros.

O Fórum de Operadores Hoteleiros do Brasil (FOHB) também observou ocupação acima de 80% nas cidades com atrativos turísticos, como praia e campo, também segundo pesquisas preliminares. Já os hotéis voltados ao turismo de negócios ainda têm muitos quartos vagos.

O retorno dos hóspedes têm duas explicações. O primeiro é a demanda reprimida por lazer, já que a pandemia impôs restrições a passeios por muitos meses.

"Muitas famílias ficaram reservadas por um tempão e estavam desesperadas para viajar", diz o presidente da FOHB, Orlando de Souza. "O avanço da vacinação e a queda nos dados de internação e mortes por coronavírus também animaram.”

O segundo ponto é que o turismo doméstico foi praticamente a única opção para muita gente. As viagens internacionais ficaram menos acessíveis devido à forte desvalorização do real e às restrições de outros países para receber estrangeiros. Portanto, a solução foi tirar férias por aqui mesmo.

"O último trimestre foi super positivo e ficou até acima do que nós esperávamos", diz Paulo Michel, presidente da Louvre Hotels Group, rede com 15 unidades no Brasil. A ocupação chegou a bater em 100% no Rio de Janeiro, por exemplo. Já na média, a ocupação foi menor, de 63%, porque há hotéis mais voltados ao público de empresas e que ainda estão com demanda baixa.

Do otimismo à insegurança

Já na virada do ano, houve uma mudança importante no cenário em decorrência do aumento nos casos de covid, que coincidiram com a explosão dos contágios por gripe. O quadro tem inspirado o reforço das medidas preventivas, como o distanciamento social.

Também tem ocorrido afastamento de muitos funcionários e dificuldade das empresas em manter o atendimento. As companhias aéreas, por exemplo, cancelaram mais de 600 voos neste ano, o que deve atrapalhar o turismo. Sem contar que o preço das passagens subiu muito.

A presidente da BLTA, Simone Scorsato, conta que ainda não há um número expressivo de cancelamentos de reservas no setor de resorts e hotéis de luxo, mas considera esse um risco real. "A questão dos voos é um problema porque há destinos onde só se chega de avião", pondera.

Scorsato acrescenta que a falta de funcionários por licença médica também está afetando os próprios hotéis. Nos casos mais extremos, algumas unidades têm até recusado reservas para não comprometer a qualidade do atendimento a esse público mais exigente. "Sem mão de obra qualificada, ficam buracos no atendimento”, afirma.

Ela alerta ainda que o turismo doméstico voltará a competir com as viagens internacionais à medida em que outros países voltarem a liberar a entrada de brasileiros, como já é realidade nos Estados Unidos e na Europa. "O ano de 2022 vai ser mais difícil", estima, referindo-se à concorrência.

Souza, da FOHB, acredita que a confiança em uma retomada mais robusta do mercado ficou comprometida pela nova onda de casos de covid. "Este deveria ser o ano da retomada, mas com essa história da ômicron há dúvida sobre como vai ficar o comportamento das pessoas", lamenta.

Na sua avaliação, o maior desafio para os administradores de hotéis será subir o valor das tarifas - que encolheram nos últimos dois anos na tentativa de atrair hóspedes, enquanto os custos com energia, alimentos e folha salarial, entre outros, subiram.

Segundo a FOHB, a diária média no acumulado de 2021 até novembro foi de R$ 211, baixa de 4% em relação ao mesmo período de 2020. Já no mês de novembro, isoladamente, a diária média atingiu R$ 284, alta de 41% - com os donos de hotéis aproveitando a alta demanda para faturar e recuperar perdas.

"Adotamos a estratégia de manter a tarifa até aqui, e agora esperamos recuperar ao menos parte da inflação", afirma Paulo Michel, do Louvre Hotels Group. "Mas ainda não podemos dizer bem o que vai acontecer em 2022. Se for positivo, podemos voltar a ter a mesma ocupação de 2019, antes da pandemia.”

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