Jonne Roriz/AE
Jonne Roriz/AE

Imóveis, soja, clínicas de estética? Ele gosta mesmo é da ‘plata’

Símbolo do estouro da bolha imobiliária da Espanha, Bañuelos se esforça para costurar grandes negócios no Brasil e ainda trazer empresas do exterior para cá 

Melina Costa, de O Estado de S.Paulo,

20 de dezembro de 2010 | 07h17

Há sete meses, o investidor espanhol Enrique Bañuelos marcou uma reunião no escritório de Silvio Tini, o principal acionista da fabricante de biodiesel Brasil Ecodiesel. Em um espanhol aceleradíssimo, Bañuelos falou da família, de sua trajetória no mundo dos negócios e despejou uma série de planos grandiloquentes. Primeiro, ele compraria o grupo Maeda, tradicional produtor de algodão e soja no País. Depois, juntaria-se à Brasil Ecodiesel para criar uma plataforma de aquisições. A partir daí, o investidor construiria uma gigante do agronegócio assim como já fez no setor imobiliário ao aglomerar as incorporadoras Agra, Klabin Segall e Abyara e vender o grupo para a PDG, que hoje é a líder do setor.

Com 10% do capital da Brasil Ecodiesel e na posição de conselheiro da companhia, Tini tinha o poder de facilitar ou atrapalhar tremendamente as ambições do espanhol. "A ideia da consolidação me pareceu boa. Disse para ele: sou bisneto, neto e filho de fazendeiros. Eu gosto de terra." O comentário que Tini ouviu de Bañuelos logo em seguida foi: "A mi me gusta la plata" ou "eu gosto de dinheiro", em português.

A frase acima não resume a estratégia de investimentos de Bañuelos no Brasil, mas dá uma boa ideia. De modo geral, o espanhol tem procurado participações minoritárias em empresas combalidas, mas inseridas em setores em pleno processo de consolidação. Na lista de pessoas mais ricas do mundo da revista Forbes, Bañuelos está 655ª posição - mas já esteve bem mais alto. O negócio que o tornou conhecido mundialmente foi a espetacular ascensão e igualmente espantosa queda nas ações da Astroc, incorporadora que ele criou em Valência na década de 90. O episódio, que se somou a uma ação na justiça de um acionista descontente, acabou transformando Bañuelos em símbolo do estouro da bolha imobiliária na Espanha. O investidor se afastou da gestão e vendeu a maior parte de sua participação na companhia.

Hoje, Bañuelos tem holdings de investimento espalhadas pelo mundo - a que recebe a maior parte de sua atenção é a Veremonte, criada em 2008 para apostar no Brasil. Além de São Paulo, a empresa tem bases em Londres, Hong Kong, Pequim e Madri, cujo trabalho é promover negócios entre companhias brasileiras e estrangeiras. No início do ano que vem, um novo escritório será aberto em Nova York. Só em participações em empresas brasileiras, a Veremonte tem investimentos avaliados em R$1 bilhão, segundo seus executivos. Haveria outro R$ 1 bilhão comprometido para futuros aportes.

Planos ambiciosos. Pelo menos até agora, os projetos do investidor espanhol no Brasil têm se concretizado. Em maio, a família Maeda vendeu o controle de seu negócio para a Arion Capital, gestora de investimentos da holding Veremonte. E, há duas semanas, foi anunciado um acordo de fusão com a Brasil Ecodiesel. Para ser sacramentado, o negócio ainda precisa de aprovação em uma assembleia de acionistas que acontecerá na próxima quinta-feira. A Veremonte, que, ao final da operação, terá quase 30% das ações da Brasil Ecodiesel, já acertou a venda de 5% do capital para uma empresa chinesa do setor de alimentos. O acordo deve ser anunciado no início de 2011.

A participação de Bañuelos pode ser ainda mais diluída, até atingir cerca de 15%, se outras negociações, já em andamento, forem bem sucedidas. Como a intenção é transformar a Brasil Ecodiesel em uma grande companhia não só de biodiesel, mas também de soja, a Veremonte quer adicionar pelo menos outras cinco empresas ao projeto. Trata-se de companhias médias, tanto fabricantes de biodiesel como participantes de outras pontas do agribusiness - na logística de abastecimento e no processamento de soja, por exemplo. "Tem muita empresa doente nesse setor", disse Bañuelos recentemente a executivos próximos, referindo-se à existência de possíveis pechinchas no mercado.

Em outra frente, a Veremonte tem usado de sua influência global para conquistar novos clientes para a Brasil Ecodiesel. Duas negociações com gigantes chinesas estão em andamento: uma delas é fabricante de leite de soja e a outra, de ração para carpas. A ideia é fechar contratos de longo prazo para fornecer proteína de soja sob um valor fixo de margem e, em troca, receber financiamento barato para a compra de insumos.

Criar um líder no agronegócio é só a parte mais visível da estratégia de Bañuelos no Brasil. Ele tem uma incorporadora, a Veremonte Real State e uma empresa de gestão de investimentos, a Arion Capital. Há quatro meses, um fundo da Arion captou dinheiro no exterior e adquiriu a Qualix, que faz a coleta de lixo em nove cidades do País. Conhecida por seus contratos problemáticos, a empresa teve o serviço apontado pela Prefeitura de São Paulo como um dos agravantes das enchentes que atingiram a cidade no início do ano e deixaram 18 mortos. A Qualix é investigada em dois inquéritos civis e duas ações do Ministério Público Estadual de São Paulo pelo suposto direcionamento de licitações da coleta de lixo e não cumprimento de contrato, além de outras irregularidades. A empresa se defende das ações na Justiça.

Depois de fechar a aquisição, a Arion reestruturou uma dívida de R$250 milhões e trocou a gestão. Agora, a intenção é vender a empresa para um concorrente do setor. Três grupos já teriam entrado na disputa. "Com a mudança no marco regulatório, esse é um setor que precisa ficar sério. Para um investidor, a empresa é uma forma de se expor à disparada do consumo no Brasil, que também aumenta a produção de lixo", diz Renato Carvalho, sócio da Arion Capital.

Cachaça e lipoaspiração. As prioridades de investimento de Bañuelos estão nos setores de saúde, energia, infraestrutura e alimentação - mas suas empresas já olharam quase tudo. Houve conversas até com os irmãos donos da Companhia Müller de Bebidas, fabricante da Cachaça 51. As negociações, porém, não foram adiante. Uma alternativa que tem se mostrado mais promissora é a criação de uma rede de clínicas de cirurgia plástica voltada para a classe C, com lipoaspiração e colocação de implantes parcelados em 36 vezes. As conversas com donos de consultórios já começaram. A ideia é assumir a gestão financeira de 100 consultórios e levar a rede à bolsa no segundo semestre do ano que vem.

Além de comprar empresas brasileiras e depois vender suas ações na Bolsa, a Veremonte também tem trabalhado para trazer companhias estrangeiras ao Brasil. Um dos casos em fase final de amarração é o da espanhola Natraceutical Group, fabricante de suplementos alimentares e ingredientes funcionais para a indústria farmacêutica e de cosméticos. Bañuelos tem a opção de compra de parte da empresa e articulou uma sociedade com a brasileira Davene. "Há uma série de empresas com tecnologia de ponta na Espanha mas sem mercado consumidor depois da crise financeira. Já o Brasil tem esse potencial de consumo", diz Marcelo Paracchini, presidente da Veremonte.

Senso de oportunidade. A fúria com que a Veremonte busca investimentos em vários setores ao mesmo tempo pode ser encarada como excesso de euforia ou falta de foco. Para seus executivos, porém, é mero senso de oportunidade. "Bañuelos é um investidor de curto prazo. Ele não conhece as indústrias em detalhes, mas é guiado por grandes verdades do tipo: a China precisa de alimentos e o Brasil deve ser o principal fornecedor. Se alguma empresa incluída nessa lógica for considerada barata - como foi o caso da Maeda - ele compra", diz um executivo que já sentou na mesa de negociações com o espanhol.

Algumas das oportunidades batem, literalmente, na porta da Veremonte. Bañuelos dedica boa parte de seu tempo a reuniões com banqueiros de investimento. Mas há, também, um esforço para se aproximar dos empreendedores locais. No fim de outubro, o investidor esteve em Belo Horizonte (MG) no escritório da empresa de equipamentos e sistemas Orteng e agora estuda a possibilidade de tornar-se sócio em projetos da companhia. Em meados do ano, Bañuelos foi até Curitiba (PR), onde visitou empresários dos setores de infraestrutura e agricultura. "Não falo espanhol e não entendi muito bem o que ele falou", disse ao Estado um dos empresários. Mais do que fechar negócios, esses encontros servem para tornar Bañuelos conhecido no ambiente de negócios brasileiro e para tentar descolar sua imagem do que ficou conhecido como "a hecatombe imobiliária" na Espanha.

Pressa. Bañuelos está convencido de que os grandes negócios dos próximos anos serão fechados no Brasil - e tem motivos para correr. Hoje, ele mora em São Paulo, em uma cobertura perto do parque Ibirapuera. Sua mulher, uma alta funcionária da receita federal espanhola, e suas duas filhas, ficam em Madri. A família se encontra frequentemente em Londres e na China, mas esse esquema global deve chegar ao fim em três ou quatro anos. A ideia é que Bañuelos acompanhe mais de perto a adolescência das filhas, hoje com 10 e 12 anos. Só não foi decidido ainda se todos irão se mudar para Londres ou para a China. Até lá, o tempo no Brasil precisa render.

Bañuelos levanta às 6h30 da manhã e começa o dia respondendo aos e-mails dos executivos de sua holding instalada na Europa. Em seguida, a prioridade são as mensagens enviadas da Ásia. Há, ao todo, 40 diretores e presidentes que se reportam a Bañuelos e cada um envia pelo menos um e-mail por dia. O investidor anda sempre com dois celulares: um de Londres e outro do país onde ele está momento. Às 9h começa a rotina na sede da Veremonte, na Avenida Faria Lima, que só se encerra às 21h.

O ritmo de trabalho acelerado não impediu que Bañuelos construísse uma vida social em São Paulo. Acompanhado de amigos brasileiros, ele já foi visto em pizzarias, bares e saindo do cinema. Algumas peculiaridades, porém, não deixam com que ninguém se esqueça de que se trata de um bilionário a trabalho no Brasil: a cada seis horas, um sofisticado sistema de segurança "checa" se está tudo bem (se ele não foi sequestrado, por exemplo) e um avião é mantido em prontidão para o caso de uma emergência médica. Ou uma crise política. 

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