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Guy Perelmuter
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Imprimindo comida

Gelatina, concentrados de proteínas, chocolate, sal, açúcar e farinha - conheça os ingredientes iniciais da revolução da indústria de alimentos

Guy Perelmuter*, O Estado de S.Paulo

03 Agosto 2017 | 05h07

O crescimento populacional a ser experimentado nas próximas décadas trouxe à tona um debate fundamental: como alimentar de forma sustentável uma população que em cerca de 35 anos irá atingir a marca de 10 bilhões? Já falamos neste espaço sobre como o agronegócio vem utilizando novas tecnologias: a chamada “agricultura de precisão” combina sensores, imagens de satélites, software e automação para aumentar a produtividade e eficiência no campo. Mas isso será o suficiente?

De acordo com dados da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação, entre 1961 e 2013 o Índice de Produção de Alimentos praticamente quadruplicou, enquanto no mesmo período o percentual de terras para agricultura permaneceu praticamente o mesmo ao redor do mundo. A tecnologia permitiu produzir mais no mesmo espaço mantendo o preço dos alimentos acessível para a maior parte da população - embora vergonhosamente mesmo nos dias de hoje cerca de uma pessoa em cada nove esteja passando fome.

A produção de alimentos, por si só, já possui impactos ambientais relevantes. Em um artigo publicado em 2014 pela Academia de Ciências dos Estados Unidos, pesquisadores liderados pelo Professor Gidon Eshel do Bard College, em Nova Iorque, tentaram quantificar esses impactos. Segundo o estudo, a criação de gado é responsável por cerca de 20% das emissões totais de gases causadores do efeito estufa - nome dado ao efeito nocivo de aquecimento da temperatura global devido à maior concentração de poluentes na atmosfera.

Ainda segundo o estudo, a produção de gado bovino de corte, quando comparada com outros tipos de atividades (como gado para laticínios, carne de frango, carne suína e ovos), exige 28 vezes mais terra, 11 vezes mais irrigação e emite 5 vezes mais gases nocivos ao ambiente. É por isso que alguns ambientalistas argumentam que preferem um vegetariano dirigindo um veículo altamente poluente do que um não-vegetariano que utiliza apenas a bicicleta como meio de transporte: comer carne é uma das atividades mais poluentes na sociedade moderna.

Impressoras 3D funcionam construindo, camada a camada, o objeto desejado pelo usuário. Da mesma maneira que impressoras comuns utilizam cartuchos com tinta, impressoras 3D utilizam plástico, metal, material orgânico, cerâmica ou comida como matéria-prima para construir os resultados. E “construir” realmente é a palavra correta: sua origem é do latim, onde o prefixo “com” possui o significado de “junto” e o verbo “struere” quer dizer “empilhar”. Imprimir é, de fato, o ato de “empilhar” as camadas que são depositadas durante toda duração do processo.

Diversos tipos de insumos podem ser utilizados para impressão de comida - uma expressão que até poucos anos atrás não fazia sentido. Extratos de alimentos orgânicos, gelatina, concentrados de proteínas (frequentemente a partir de algas), chocolate, sal, açúcar e farinha são alguns exemplos - sendo que no futuro as limitações certamente serão muito menores. As vantagens são muitas: os “cartuchos” podem ser transportados de forma eficiente e armazenados por mais tempo. Países com escassez de alimentos - seja por guerras, poluição ou catástrofes naturais - podem receber os insumos e imprimir as refeições. Teremos menos consumo de combustível e redução de emissões nocivas no meio ambiente graças aos novos processos de produção.

O valor nutricional dos alimentos impressos também poderá ser melhorado. No livro “Fabricated: The New World of 3D Printing” (algo como “Fabricado: o Novo Mundo da Impressão 3D”), de Hod Lipson e Melba Kurman, os autores mencionam a possibilidade da conexão entre sua impressora de comida e os sensores que monitoram seu corpo, imprimindo uma refeição que inclui exatamente os nutrientes que seu corpo precisa naquele momento. Isso sem mencionar a possibilidade de endereçar questões como alergias ou restrições a glúten. Ainda há questões técnicas importantes a serem resolvidas nos próximos anos para que o consumidor final possa ter em sua moradia uma fábrica particular de refeições, mas o caminho para essa realidade está aberto.

Na semana que vem iremos prosseguir no tema da impressão 3D e seus impactos para o consumidor final, iniciando nossa análise com o setor de varejo. Até lá.

*Fundador da GRIDS Capital, é Engenheiro de Computação e Mestre em Inteligência Artificial

 

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