Indústria automotiva sofre com aperto do crédito nos EUA

Financiadoras e bancos dificultam empréstimos e setor começa a registrar queda nas vendas em 2008

Eric Dash, do The New York Times,

27 de maio de 2008 | 18h22

A indústria automotiva vem sendo atingida indiretamente pela crise imobiliária nos Estados Unidos. Concedentes de empréstimos e bancos estão fechando seus bolsos e impedindo que centenas de milhares de consumidores financiem um automóvel.   Veja também: Entenda a crise nos Estados Unidos  Cronologia da crise financeira    Os empréstimos de home equity, que costumavam ser usar em pelo menos um em cada nove acordos quando os concedentes eram mais generosos, não são mais uma fonte de dinheiro fácil para muitos possíveis compradores. E o preço de carros usados caiu quase 6% enquanto diversos veículos desse tipo enchem os pátios das lojas.   Esses fatores, em meio à desaceleração da economia, estão colocando uma enorme pressão sobre a indústria automobilística norte-americana, enquanto esta enfrenta o que pode ser o seu pior ano em mais de uma década. Cerca de 15 milhões de veículos devem ser vendidos neste ano, ante 16,2 milhões no ano anterior, enquanto as vendas atingem seu menor nível desde 1995, de acordo com a consultoria J.D. Power & Associates.   O impacto na economia norte-americana pode ser profundo. Não apenas os carros são o segundo item mais buscado pelos consumidores, apenas atrás dos imóveis, mas a indústria automobilística continua uma das mais importantes do país. Com menos dinheiro disponível para abastecer o crescimento do setor, os negócios que a sustentam também enfrentam a perspectiva de uma forte desaceleração.   "É um quadro obscuro, e tudo depende da disponibilidade de financiamento", disse William Ryan, um analista financeiro da Portales Partners que acompanha o setor há anos. "Todo o universo relacionado à indústria automotiva está sendo afetado de alguma forma - fornecedores de peças, manufaturadores,, comerciantes, caminhoneiros, indústrias de pintura e metais. Até mesmo semicondutores."   Dentro do setor, os problemas que se originam do aperto do crédito já começaram a se espalhar. Concessionárias como a Chase, a Capital One e a GMAC estão encontrando dificuldades para obter dinheiro para os empréstimos. Os lucros também tem diminuído enquanto essas companhias absorvem as perdas provenientes da inadimplência e evitam de fazer novos financiamentos.   Vendedores e manufaturadores de carros provavelmente enfrentarão meses de lucros menores enquanto oferecem mais incentivos para vender novos veículos. As vendas de carros luxuosos, que geram os maiores lucros para as companhias, caíram 13% na comparação com o ano passado, de acordo com a Autodata. E os consumidores, frente a parcelas maiores no financiamento e os crescentes preços da gasolina, estão adiando suas compras de carros.   "A crise imobiliária, gerada com a crise de crédito, realmente intimidou os consumidores", disse Michael J. Jackson, presidente da AutoNation, a maior rede de concessionárias do país.   Mas a indústria automobilística pode não sofrer os mesmos danos que o setor imobiliário. Uma das razões é que as financiadoras de carros costumam fazer seus empréstimos com a expectativa de que os veículos começam a perder seu valor assim que deixam a concessionária. Em contraste, os concedentes de hipotecas, durante o boom imobiliário, acreditavam que os preços dos imóveis continuariam subindo.   Ainda assim, os paralelos estão ganhando destaque. O dinheiro fácil e a facilidade de financiamento ajudaram a estender o boom automobilístico de 2005 até o início de 2007. Com o lançamento de novos carros, os consumidores foram encorajados a comprar mesmo que não estivessem precisando de um novo veículo.   Agora, assim como o setor imobiliário, a indústria automotiva está sofrendo também.   A inadimplência está crescendo em um ritmo mais rápido que em outros momentos ruins recentes. E as perdas são consideravelmente piores. As financiadoras tiveram prejuízo em cerca de 3,4% dos empréstimos no primeiro trimestre, índice quase 30% maior que em 2002, de acordo com dados da Moody's.   "É um desafio, mas não uma crise", disse William F. Muir, presidente da GMAC, financiadora da General Motors, que agora é operada como uma joint venture.   Enquanto o dinheiro disponível para as financiadoras de automóveis diminuiu, elas deixaram de fazer novos empréstimos. Desde o fim do ano passado, quase todas as companhias endureceram suas condições de financiamento. Elas estão forçando os consumidores a colocarem mais dinheiro no negócio. Elas também estão exigindo parcelas mensais maiores e históricos melhores de crédito.   Muitos comerciantes dizem que compradores que conseguiriam facilmente um empréstimo há um ano, agora estão sendo rejeitados. Ken Somerville, gerente de negócios da Pedigo Chevrolet em Indianapolis, disse que as exigências mais rígidas estão tendo um "impacto significativo" em sua habilidade de ajudar os consumidores a conseguirem um empréstimo e fechar a venda.

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