Indústria desistiu do planejamento de longo prazo, diz FGV

Para o coordenador Aloísio Campelo, por causa da crise internacional, setor está montando estratégias como alguém que procura um local mais firme para dar o próximo passo

Francisco Carlos de Assis, da Agência Estado,

30 de novembro de 2011 | 15h01

SÃO PAULO - A indústria abriu mão do planejamento de médio e longo prazos para focar suas ações no curto prazo no que diz respeito a investimento, aumento da produção e contratação de pessoal. É o que mostra a Sondagem Industrial de novembro, realizada pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). Para o coordenador da sondagem, Aloísio Campelo, essa decisão da indústria foi causada pelo cenário de incertezas provocado pela crise financeira internacional.

O setor industrial, de acordo com Campelo, está montando suas estratégias como alguém que passa por um terreno encharcado e que procura um local mais firme para dar o próximo passo. De acordo ele, os números da sondagem divulgados nesta quarta-feira, 30, ilustram bem esta situação.

O Índice de Confiança da Indústria (ICI) mostrou estabilidade em novembro, depois de ter registrado queda de 0,4% em outubro, e interrompeu uma sequência de dez meses de recuo do indicador. O Índice de Expectativas (IE), por sua vez, avançou 1,5% em novembro, depois de ter ficado positivo em 0,28% em outubro.

"A boa notícia é que, embora o ICI ainda ande de lado, as expectativas melhoraram pelo segundo mês consecutivo", disse Campelo, para quem no curto prazo o pessimismo parou de aumentar e já há algum otimismo sendo formado com vistas a janeiro.

O coordenador da sondagem, no entanto, afirmou que a pequena melhora observada em novembro não pode ser considerada um ponto de inflexão que vai estimular significativamente investimentos e contratação de pessoal. Para Campelo, trata-se de uma melhora centrada no curto prazo, em razão de indicadores positivos pontuais.

Nesse aspecto, destaca-se a pequena redução dos estoques, de 9,6% em outubro para 8,4% em novembro do total de 1.219 empresários pesquisados entre os dias 3 e 29 de novembro. Também apresentou melhora o nível de otimismo em relação à demanda externa, com 14,2% dos entrevistados entendendo que a procura por produtos brasileiros está mais forte que em outubro, quando 8,8% tinham esta visão. Para Campelo, essa percepção em relação à demanda externa pode estar associada às divulgações mais recentes de índices de vendas melhores nos Estados Unidos.

O Índice de Confiança da Indústria relacionado ao emprego previsto, no período dos próximos três meses, cresceu 0,8%. A produção prevista, também no horizonte de três meses, subiu 0,3%. Mas a tendência de negócios para os próximos seis meses caiu 0,3%. "Isso mostra que a melhora no curto prazo não será suficiente para incentivar investimentos ou contratações consistentes de pessoal", reforçou Campelo.

Na média, os números da Sondagem Industrial melhoraram em novembro se comparados a outubro. Isso ocorreu, de acordo com o coordenador do levantamento, Aloisio Campelo, porque a indústria está, em parte, atendendo à demanda com estoques. Tanto que o Nível de Utilização da Capacidade Instalada (Nuci) da indústria tem andando de lado, como considerou o coordenador da sondagem. Em novembro, esse indicador sofreu ligeira redução, fechando em 83,3%, ante 83,5% em outubro. De acordo com o Índice da Situação Atual, um dos indicadores da Sondagem Industrial, o nível de estoques caiu 0,65% na passagem de outubro para novembro, enquanto a produção prevista se expandiu 1,78%.

Ainda de acordo com Aloisio Campelo, a quase estabilidade do Nuci em novembro refletiu nos segmentos que mais investem. O Índice de Confiança da Indústria (ICI) do setor de bens duráveis caiu 7,7% na comparação de novembro com outubro. No período de agosto a novembro, a queda foi de 8,1%, e o acumulado desde 2003 registrou um recuo de 6,6%.

Outro segmento que comprova a situação atual pela qual passa a indústria é o de bens duráveis, com queda de 3,2% em novembro, baixa de 8,3% no período de agosto a novembro e recuo de 7,4% desde 2003.  Esses são, de acordo com o coordenador da Sondagem, os segmentos que mais sofreram na crise de 2008 são também os que estão sofrendo mais atualmente. De acordo com ele, esses são alguns dos setores, entre outros, que estão usando estoques em vez de produzir.

(Texto atualizado às 15h24)

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