Indústria enfrenta alta de custos, mas tem dificuldade em repassar para preços

Concorrência com importados leva empresas a bancar o aumento dos gastos, segurando a inflação, mas diminuindo a competitividade 

Márcia De Chiara, de O Estado de S. Paulo,

19 de março de 2011 | 18h28

Fabricantes de eletrodomésticos, eletroportáteis, veículos e máquinas chegam ao fim do primeiro trimestre do ano numa encruzilhada. De um lado, enfrentam fortes aumentos de custos, que vão do reajuste de salários acima da inflação à alta dos preços das matérias-primas de até 20%. De outro, continuam pressionados pela concorrência dos importados.

O resultado desse jogo de forças é que as indústrias não conseguem repassar integralmente o aumento de custos para os preços ao consumidor. Isso põe um pouco de água na fervura da inflação. Mas também reduz a competitividade e a rentabilidade da indústria. "Desde 2008, antes da crise, não tínhamos tantos aumentos de custos simultaneamente", observa um empresário da indústria que não quer ser identificado. Um dos vilões são as resinas plásticas, usadas em eletrodomésticos e carros, cujos preços subiram 20% este mês.

Na lista de aumentos de custos também estão o aço e alumínio, com 10%; o cobre, que subiu 25% desde outubro de 2010; os pneus, que serão reajustados em 10% em abril; e as embalagens de papelão ondulado, com aumentos de preços entre 6% e 7% previstos para abril ou maio.

Os empresários perdem o sono com os reajustes porque não têm como driblá-los. Exceto os salários dos trabalhadores, os demais preços são formados no mercado externo. E, para complicar, há matérias-primas concentradas em poucos fabricantes.

"A maioria das 11,7 mil empresas do setor de plásticos são pequenas e médias e têm dificuldade para repassar os aumentos de custo da resina", diz o presidente da Abiplast, José Ricardo Roriz Coelho. Em contrapartida, o fornecedor da resina é um só.

Tremor. Rui Chammas, vice-presidente da Braskem, que comprou a Quattor e produz resinas plásticas, diz que elevou os preços, mas não confirma o porcentual. Segundo ele, a alta do petróleo pressionou a indústria química e de derivados. Mas pondera que, após o tremor no Japão, o cenário de preços é incerto.

O movimento de alta se repete no aço. "As siderúrgicas começaram a retirar os descontos na faixa de 10% por causa da entrada do aço importado", diz o ex-presidente do Inda, que reúne os distribuidores de aço, Christiano da Cunha Freire. A Usiminas, por exemplo, reajustou entre 5% a 10% os preços este mês.

Os fabricantes de veículos dizem que têm contratos de longo prazo com as siderúrgicas. Mas acabam tendo de aceitar indiretamente aumentos quando compram as autopeças, que adquirem aço dos distribuidores.

Rinaldo Siqueira Campos, presidente da associação que reúne importadores de produtos para veículos, diz que está difícil segurar a alta de preços dos pneus. O motivo é que, em seis meses, o preço da borracha dobrou.

Por causa da competição entre montadoras, a Anfavea informa que as pressões de custos não têm sido repassadas aos carros, cujos preços recuaram 1,2% em 12 meses entre 2010 e 2011.

"Está muito difícil repassar os aumentos de custos", diz Paulo Coli, vice-presidente da Latina, que produz lavadoras. No seu caso, o maior obstáculo é a formação de grandes conglomerados, após as recentes fusões no varejo de eletrodomésticos. 

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