Indústria, Sindicatos e Comércio criticam elevação do juro

BC decidiu nesta quarta-feira elevar taxa Selic em 0,25 ponto percentual, para 12,50%

Agência Estado,

20 de julho de 2011 | 19h47

A Confederação Nacional da Indústria (CNI), a Força Sindical e a Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) criticaram a decisão do Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) de elevar a Selic - a taxa básica de juros da economia - em 0,25 ponto percentual, para 12,50%. Veja tabela abaixo.

Indústria

A CNI cobrou do governo medidas que amenizem os efeitos da alta da taxa de juros sobre a competitividade da indústria nacional. "Quanto mais essas ações demorarem, maiores serão os prejuízos para o país. Por isso, a indústria espera a inclusão de medidas efetivas de desoneração tributária na nova fase da política industrial", diz a nota.

Para a confederação, ao elevar a taxa em 0,25 ponto porcentual, o governo intensifica o uso de instrumentos monetários no combate à inflação. "O custo dessa política é muito alto, especialmente para a indústria, porque o aumento dos juros encarece o crédito e diminui o consumo. Além disso, com a taxa real de juros mais alta do mundo, o Brasil atrai capital externo, o que intensifica a forte valorização do real diante do dólar. Com juros altos e câmbio valorizado, os produtos brasileiros não conseguem competir com os estrangeiros e perdem espaço nos mercados interno e externo", ressalta a nota.

O presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, também criticou a decisão do BC. Por meio de nota, o presidente da entidade considerou que o quinto aumento consecutivo da taxa de juros irá acelerar o processo de desindustrialização nacional. "E poderemos ter perdas de postos e trabalho, agravando os sérios problemas que já enfrentamos com a competitividade brasileira", observou.

O presidente da Fiesp sugeriu ainda que, em vez de elevar os juros, o governo federal deveria adotar medidas que efetivamente reduzam a carga tributária, equilibrem a taxa de câmbio e melhorem a infraestrutura nacional.

Sindicatos

Já o presidente da Força Sindical, o deputado federal Paulo Pereira da Silva (PDT-SP), o Paulinho, avaliou que a decisão "agrada o mercado financeiro" e prejudica a busca dos trabalhadores por "um aumento de renda real". O presidente da entidade lembrou que o controle da inflação é essencial, mas repudiou o que chamou de "política que traz lucros vultosos apenas aos especuladores, em detrimento da maioria".

"Nós repudiamos esta atitude do Copom de ignorar os custos desta política para a população", criticou. "Nós também não engolimos o discurso de que aumento real de salário gera inflação", acrescentou. O deputado federal ressaltou que a Força Sindical defende medidas que reduzam a desigualdade de renda entre os brasileiros. "E a elevação da Selic só prejudica esta caminhada em busca do aumento de renda real dos trabalhadores", frisou.

Comércio

Da mesma maneira, a CNDL também lamentou o aumento da taxa e reitera que ao "tentar esfriar" a economia e o crescimento interno o Banco Central dá "um duro golpe no bolso do cidadão comum", que terá de arcar com custos ainda maiores em financiamentos, além de conviver com os juros reais mais altos do mundo.

Conforme avaliação presidente da CNDL, Roque Pellizzaro Junior, ao decidir elevar pela quinta vez consecutiva os juros básicos, os diretores do Banco Central demonstraram ter "pouca fé" nas informações que apontam para a perda de força da inflação. "Ainda pela manhã, o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) já havia divulgado que o IPCA-15 de julho havia recuado para o menor patamar desde agosto de 2010. A cautela foi desmedida", disse.

O presidente da CNDL também avalia que os ajustes na política monetária têm provocado efeitos colaterais na taxa de câmbio, com o dólar recuando frente ao real para a menor patamar desde 1999, em função da maior atratividade para o capital especulativo. "Como resultado, no ano, o fluxo cambial, que mede as entradas e saídas de recursos do País, já é praticamente o dobro do de 2010", avalia Pellizzaro.

A Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (Fecomercio-SP) avaliou como um "excesso de conservadorismo" a decisão do BC. A elevação dos juros, segundo a entidade, desagrada a todos os setores produtivos, uma vez que não reflete o atual momento econômico brasileiro.

"Em termos práticos, o IPCA e o INPC mostraram forte desaceleração nos últimos dois meses e a componente sazonal da inflação se confirmou", considerou. Segundo a Fecomercio-SP, o aumento da taxa de juros "merece a crítica veemente do setor privado e dos consumidores".

A Associação Comercial de São Paulo também criticou a decisão. "A decisão do Copom de elevar a Selic em 0,25 ponto porcentual já era esperada pelo mercado, mas consideramos que, tendo em vista o cenário externo de incertezas, e a trajetória recente da inflação, a taxa básica deveria ter sido mantida, mesmo que fosse com um viés de alta", diz em nota.

Para a entidade, a alta taxa de juros afeta mais os meios produtivos que o mercado consumidor. "A taxa Selic já está muito elevada e seu impacto vem se fazendo sentir mais na produção do que no consumo, além de contribuir para uma valorização ainda maior do Real", apontou Rogério Amato, presidente da Associação Comercial e Federação das Associações Comerciais do Estado de São Paulo.

Decisão

A decisão desta quarta-feira foi unânime e a taxa básica de juro, assim, continua no seu nível mais alto desde o período de 22 de janeiro de 2009 a 11 de março de 2009, quando o juro básico vigente foi de 12,75% ao ano. Essa foi a terceira elevação seguida da taxa Selic nessa magnitude promovida pelo BC no atual ciclo. Desde janeiro, a taxa Selic acumula elevação de 1,75 ponto porcentual.

A alta da taxa de juros busca conter o ímpeto da demanda de bens e serviços na economia brasileira, que tem sido apontada como um dos fatores por trás da escalada dos preços no País. Com juros mais altos, não só o crédito fica mais caro (especialmente em um ambiente no qual medidas adotadas pelo governo restringem o alongamento de prazos) para os consumidores, mas também se cria um incentivo para as pessoas guardarem dinheiro ao invés de aproveitarem seus ganhos de renda para gastar mais.

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.