Inflação argentina afugenta turistas estrangeiros

Segundo economistas, inflação acumulada ao longo dos últimos doze meses chegaria a 24%

Ariel Palacios, correspondente,

27 de julho de 2012 | 17h04

BUENOS AIRES - Durante a década passada a capital argentina atraiu milhões de turistas estrangeiros graças a seus preços baixos, além do charme da cidade. No entanto, nos últimos meses, a escalada inflacionária padecida pela Argentina - cuja existência o governo da presidente Cristina Kirchner nega - começou a afugentar os turistas provenientes do exterior. Segundo os economistas, a inflação acumulada ao longo dos últimos doze meses chegaria a 24%. Além disso, as restrições para a compra e venda de dólares foram um fator adicional que está levando dezenas de milhares de pessoas optar por outros destinos turísticos.

Segundo o Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec), o fluxo de turistas provenientes do exterior caiu 11,8% em maio em comparação com o mesmo mês do ano passado. Nos cinco primeiros meses deste ano a queda no fluxo foi de 8,2% em relação ao período janeiro-maio de 2011.

Os gastos dos turistas estrangeiros na Argentina caiu de US$ 1,524 bilhão nos primeiros cinco meses de 2011 para US$ 1,409 bilhão no mesmo período deste ano. Isso indica uma queda de 7,5%. Segundo o diretor da consultoria turística HVS South Americana, Arturo García Rosa, a queda na entrada de turistas no país está relacionada com a crise europeia, além de fatores internos". García Rosa sustenta que os turistas brasileiros estão começando a substituir os dias de shopping em Buenos Aires pela mesma atividade em Miami".

Entre janeiro e abril deste ano houve uma queda de 7,2% no fluxo de turistas brasileiros na Argentina em relação ao mesmo período de 2011.

Segundo dados do setor, a ocupação nos hotéis portenhos é em média de 40%, enquanto que no ano passado foi de 62%. Mas, segundo a Associação de Hotéis, Restaurantes e Confeitarias, para cobrir os inflacionados custos o setor precisaria uma ocupação de 70%.

Segundo os especialistas, a época de maior competitividade do setor hoteleiro argentino foi entre 2004 e 2005, quando o dólar era cotado na Argentina a 2,95 pesos. Mas, hoje, embora seja cotado a 4,50, a inflação elimina essa margem competitiva. "Manter a relação de competitividade que tínhamos em 2005 hoje implicaria em ter um dólar a 9,44 pesos", afirma Cláudio Campos, vice-presidente da Câmara Argentina de Casas de Tango.

O setor sofreu uma drástica queda em sua clientela, majoritariamente turistas estrangeiros. No total, no primeiro semestre deste ano a queda foi de 51% em comparação com o mesmo período do ano passado. O presidente da Câmara, Juan Fabbri, lamenta: "agora estamos pior do que nos tempos da gripe A".

As restrições com o dólar também desestimularam os turistas estrangeiros a passear em Buenos Aires. As medidas que o governo Kirchner aplicou gradualmente desde novembro impedem que um turista estrangeiro que tenha ficado com dólares, euros ou reais sobrando no bolso troque as notas em uma casa de câmbio. Os turistas devem resignar-se a voltar com os pesos para casa ou gastar tudo nas lojas do aeroporto.

Inflação

O Indec está sob férrea intervenção do governo argentino desde janeiro de 2007. De lá para cá, a inflação oficial acumulada não passa de 60%. No entanto, segundo os cálculos de economistas independentes, associações empresariais, organizações de defesa do consumidor e sindicatos críticos - que indicam que o Indec camufla os índices - a alta acumulada nestes cinco anos e meio é de 180%. Isto é, três vezes o índice oficial elaborado pelo Indec.

Na quinta-feira, Antonio Caló, representante da facção da Confederação Geral do Trabalho - a maior central sindical argentina - deixou de lado circunstancialmente seus elogios ao governo da presidente Cristina Kirchner e criticou a inflação do Indec: "nunca acreditei nesse índice". Segundo ele, "a inflação estará neste ano entre 23% e 25%". Outro líder sindical alinhado com o governo, Omar Viviani, líder dos motoristas de táxi, afirmou: "a gente vai ao supermercado e, para encher o carrinho, custa mil pesos (US$ 222). Onde diabos está a distribuição da riqueza?"

Os sindicalistas governistas querem um aumento de 25% do salário mínimo. No entanto, o líder da CGT 'rebelde', o caminhoneiro Hugo Moyano, exigiu um aumento de 50%.

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