Inflação pode chegar a 4,3% em 2012, diz economista-chefe do Bradesco

Para Octavio de Barros, é possível que a taxa chegue até a 4,3%, contrariando expectativas do mercado, e que uma inflação de 5% seria 'risco de cauda'

Sabrina Valle, da Agência Estado,

26 de maio de 2011 | 17h05

O economista-chefe do Bradesco, Octavio de Barros, afirmou apostar na convergência da meta de inflação em 2012 para 4,5%, como prevê o governo. Ele acredita ser possível que a taxa chegue até a 4,3%, contrariando expectativas do mercado, e que uma inflação de 5% seria "risco de cauda". Para ele, parcela importante do mercado está negligenciando, de forma equivocada, o empenho do Banco Central para a convergência para o centro da meta.

"Há uma subestimação do comprometimento da autoridade monetária em relação a 2012. Tenho fortíssima intuição de que eles (BC) estão obcecados pelo cumprimento da meta central", disse durante o seminário Rumos da Economia, parte dos 40 anos do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças (Ibef). "Vão errar aqueles que acham que a inflação vai desgarrar ou que vai haver algum descontrole inflacionário".

Barros diz achar acertada e "absolutamente legítima" a estratégia do governo de combate à inflação com foco na moderação do consumo das famílias e no gasto público, preservando o ciclo de investimento atual num nível que o País não observa há 20 anos, diz. O comentário se explica pelo fato de o governo ter começado a usar medidas para controle da inflação que vão além do aumento de juros, com as chamadas medidas macroprudenciais.

Ele acredita que o investimento, que cresce acima do consumo das famílias desde 2005, é o maior motor da inflação. O economista lembra de pesquisa do banco realizada com três mil empresas em que 87% delas, de setores variados, se declararam em processo de investimento. Mas Barros afirma que não se pode convencer facilmente um empresário a frear planos diante de um cenário de investimento generalizado e depois de 20 anos de subinvestimento.

O economista disse ainda considerar, pessoalmente, acertada a decisão do BC de não perseguir o centro da meta de inflação em 2011. A meta de 4,5% tem uma banda de dois pontos para cima e para baixo. O governo diz que a inflação deste ano ficará dentro dos 6,5% do teto. "O custo da convergência para a meta seria insuportável. Acho legítimo e razoável que o horizonte seja um pouco mais dilatado", afirmou.

Para ele, as medidas de contenção de crédito do governo estão surtindo efeito e as expectativas de inflação vão melhorar nos próximos dois a três meses, à medida que a inflação der uma trégua e o BC continuar a apertar os juros. Ele acredita que o BC pode promover até mais quatro rodadas de alta, enquanto a pesquisa Focus realizada com as maiores instituições financeiras aponta para mais duas altas.

Já o diretor do Asset Management do Bradesco, Joaquim Levy, ex-secretário do Tesouro Nacional e da Fazenda do Rio, tem uma visão menos otimista. Ele acredita existir, sim, chance de a inflação passar de 4,5% em 2012 e alerta que o governo fez uma aposta, ainda sem resultado certeiro. Lembra também que o mercado prevê apenas mais dois aumentos de 0,25 ponto porcentual nas próximas reuniões do Copom.

"Há um risco de a inflação ficar acima de 4,5%? Há", disse Levy. "Cinco e pouquinho, 4,5% não é nada de se desesperar. Esta não é uma aposta de que não vá acontecer (a convergência da meta). Mas é um pouco o cenário do 'vamos ver'", disse, acrescentando que há uma divergência "enriquecedora de opiniões" entre o Asset e o banco Bradesco.

Levy defende que o governo foque prioritariamente em qualificação de mão de obra como forma de controlar a inflação sem ter que estrangular o crescimento e o investimento.

Já o ex-presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico Social (BNDES), Luiz Carlos Mendonça de Barros, considera a inflação "um problema sério" e disse no evento que, por conta da dependência do IPCA nas commodities e nos preços administrados, a inflação pode chegar a 5,5% em 2012, em caso de alta no mercado internacional.

"Se é risco de cauda ou não é risco de cauda, não sei", disse, em referência ao comentário de Barros sobre a inflação de 2012. "Mas há um risco de não termos capacidade de agir", disse.

Para ele, apesar de a economia brasileira ter passado por uma "transformação de metabolismo" durante o governo Luiz Inácio Lula da Silva, "há certos valores da teoria econômica que continuam absolutamente válidos". Mendonça se referia veladamente ao ajuste monetário, em contraposição às medidas macroprudenciais.

"Acho um absurdo provocar interrupção do ciclo de investimento. Mas então tem que arranjar espaços na economia diferentes", disse.

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