Inflação: um problema que não pode ser esquecido

Da hiperinflação da década de 80 à inflação na casa de um dígito que se vê hoje, o Brasil passou por uma longa história de instabilidade e aflição em relação aos preços

Hugo Passarelli, do Economia & Negócios,

07 de setembro de 2011 | 18h51

Se hoje a preocupação com a inflação brasileira é se o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) fechará o ano acima do teto da meta - de 6,5% ao ano -, nas décadas de 80 e 90 a população se "armava" com calculadoras para checar o real valor do suado dinheiro.

"No auge dessa hiperinflação, o trabalhador recebia o salário no dia 1º e já corria para o mercado porque sabia que no dia 30 estaria com toda aquela inflação embutida, mesmo que ela não viesse a ocorrer", diz José Kobori, professor do Ibmec. Para ele, a indexação da economia foi um agravante da escalada inflacionária brasileira.

Fruto do esgotamento do modelo econômico adotado pelo regime militar, o Brasil viveu a década de 80 com um PIB fraco e a inflação em alta. Na tentativa de conter o aumento dos preços, planos econômicos e ministros se sucediam em curto espaço de tempo. Desde 1981, o Brasil teve seis moedas diferentes e 16 ministros da Fazenda. Diante da escalada inflacionária, as palavras "recorde" e "histórico" eram frequentes nas manchetes dos jornais. A inflação acumulada no País durante a década de 80 foi de 36.850.000%, como apontou texto de O Estado de S.Paulo da época.

VÍDEOS:

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CIDA DAMASCO: Inflação afeta especialmente os mais pobres

NA FEIRA: População sente inflação na alta dos alimentos

 

Naquela época, cada novo ministro que chegava trazia uma novidade para tentar colocar um freio no desgoverno dos preços, mas as iniciativas se mostravam infrutíferas  e às vezes completamente desastrosas.

Um dos projetos de estabilização econômica, o Plano Cruzado, foi instaurado em março de 1986. Ele previa o congelamento de preços e salários e o abono de 8% para todos os trabalhadores.  A nova moeda, o cruzado, equivalia a mil cruzeiros. Apesar dos esforços, o governo de José Sarney terminou em 1990 com inflação de 1764,86%.

Mas foi o Plano Brasil Novo (ou Collor) o exemplo mais crítico. No primeiro dia do governo de Fernando Collor de Mello a moeda foi mudada mais uma vez, de cruzado novo para cruzeiro, e as cadernetas de poupança superiores a 50 mil cruzados novos, bem como outras aplicações, foram confiscadas para tentar resolver o problema da inflação. Em 1990 os preços voltaram a avançar e foi anunciado o Plano Collor 2, que reeditou o congelamento de preços e salários.  

Leia em PDF a íntegra das reportagens sobre hiperinflação

No pico, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) chegou a 6821,31% em abril de 1990 (no acumulado de 12 meses), segundo dados compilados pela LCA Consultores.

 

Os índices considerados oficiais pelo governo também variavam bastante. Uma reportagem do Estado em 89 registrava "a dança dos índices". Em novembro de 1985, o então presidente José Sarney deixou de usar o IGP (Índice Geral de Preços) como balizador da política econômica e adotou o IPCA, que logo depois perderia o 'A' e assistiria a pequenas variações de metodologia, até assumir a forma que tem hoje. Um bom número de reportagens da época também procurava esclarecer as diferenças entre cada índice de inflação e apontava quais deles deveriam ser olhados pela população.

Em 1992, uma reportagem do Estado mostrava um desdobramento curioso desse fenômeno. "Pelo menos cinco cidades da região de Ribeirão Preto - Franca, São Carlos, Jaboticabal, Araraquara, além da própria Ribeirão, já pesquisam há algum tempo o Índice do Custo de Vida (ICV)", dizia o texto. A reportagem credita a iniciativa à constatação de que os índices gerais não captavam naquela ocasião as peculiaridades de cada município, principalmente no que diz respeito aos reajustes salariais.

Solução

Após o impeachment de Fernando Collor de Mello, em outubro de 1992, restou ao vice Itamar Franco reorganizar a situação e tentar resolver os problemas econômicos. O então ministro das Relações Exteriores, Fernando Henrique Cardoso, assumiu o Ministério da Fazenda e lançou em dezembro de 1992 o Plano de Estabilização Econômica com o objetivo de preparar a economia para uma nova moeda, o real, que passaria a circular em julho de 1994. Antes dela, foi adotada a Unidade Real de Valor (URV) como indexadora única da economia.

Em 1999, o governo estabelece o sistema de metas de inflação, o câmbio flutuante e política fiscal baseada em superávits primários. A partir desse tripé, a economia seguiu a trajetória de estabilização, com a inflação entrando no governo Lula já sob controle.

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