Chico Siqueira|Estadão
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Investigação na Eldorado Celulose gera polêmica

EY, contratada para apurar possíveis fraudes na empresa do grupo J&F, diz que Conselho não teve acesso a todo o relatório

Josette Goulart, O Estado de S.Paulo

13 de fevereiro de 2017 | 23h30

O relatório de investigação forense feito pela Ernst & Young (EY) na Eldorado Celulose, do grupo J&F, para apurar possíveis irregularidades na companhia não foi apresentado em sua totalidade para o Conselho de Administração da empresa. A afirmação foi feita pelo líder de risco da EY, Idésio Coelho, em entrevista ao 'Estado', após acusações feitas pelo Ministério Público Federal (MPF) na semana passada. Os procuradores dizem que a consultoria e o escritório Veirano Advogados  teriam feito uma investigação apenas com o intuito de dar argumentos para a defesa de Joesley Batista e José Carlos Grubisich, investigados por supostos crimes de corrupção.

O MPF solicitou  à Justiça, no dia 6 de fevereiro, que reconheça que Batista, presidente da holding J&F, e Grubisichi, presidente da Eldorado Celulose, descumpriram acordo firmado no âmbito da Operação Greenfield, que investiga irregularidades em investimentos feitos por fundos de pensão de estatais. Entre outras coisas, pede que eles sejam afastados do comando das empresas.

Após ser envolvida na Greenfield, no ano passado, a Eldorado contratou uma investigação independente para apurar  possíveis irregularidades dentro da Eldorado. Mas o MPF sustenta que, em vez de apurar, as firmas contratadas agiram na tentativa de "legitimar as práticas ilegais encontradas", como o pagamento de R$ 37,4 milhões da Eldorado para as empresas Viscaya e Araguaia Comercializadora de Energia, de propriedade do corretor Lúcio Bolonha Funaro, apontado como operador de esquema de corrupção na Caixa e em outras entidades públicas. Funaro está preso em Brasília a responde a outras investigações.

"A equipe de auditoria contratada pela Eldorado buscou, de todas as formas, trazer uma aparência de transparência e legalidade para as referidas operações financeiras, aduzindo ser impossível inferir uma correlação entre pagamentos realizados pela Eldorado às empresas de Lúcio Funaro e a concessão do financiamento ou quaisquer vantagens (de entidades públicas) em favor da companhia", afirma um dos trechos do documento do MPF.

Coelho, da EY,  não deu detalhes sobre o relatório da investigação feita na Eldorado, sob a alegação de que todos os dados são protegidos por sigilo contratual. Mas afirmou que tanto o MPF quanto o Conselho de Administração da companhia não tiveram acesso aos dados completos. "O relatório apresentado pelo advogado, e não pela nossa firma, que embasou a conclusão do MPF, não representa a totalidade dos relatórios, nem o nosso relatório", disse.

O relatório foi  entregue ao Veirano Advogados, que era o líder da investigação e estava subordinado a um comitê da própria Eldorado. Coelho disse que a Ernst & Young está disposta a colaborar integralmente com as autoridades, se for solicitada.

De acordo com Coelho, num serviço de investigação como esse, são analisados quaisquer pagamento expressivos feitos pela empresa investigada. Verifica-se se os contratos existem, se foram aprovados os pagamentos e se os serviços foram recebidos, ou ainda se fazem sentido em relação ao porte da empresa. Esses dados então são repassados aos advogados responsáveis por fazer uma análise do material arrecadado na investigação forense, por meio de e-mails, troca de mensagens e computadores.

Segundo nota da assessoria do Veirano, toda a investigação foi feita com base no escopo apresentado pela Eldorado e a EY participou da elaboração do documento apresentado ao Conselho. "Trata-se de um caso de apuração independente, no qual a formação do grupo de trabalho e a sua composição, bem como a delimitação do escopo, foram definidos pela empresa contratante. O trabalho do Veirano Advogados se deu neste contexto e nestes limites foi acompanhado em todas as fases pelo Conselho de Administração da Eldorado".

Segundo a EY e o MP, o trabalho foi acompanhado pelo comitê de investigação criado pela empresa. O problema, segundo o MPF, é que, entre os membros do comitê estavam os próprios investigados, Joesley Batista e Grubisich. 

Em nota, a J&F Investimentos disse que a contratação do escritório Veirano Advogados não teve como objeto de trabalho a defesa de Joesley Batista e José Carlos Grubisich, e sim a realização de auditoria independente na empresa Eldorado Brasil.

O Veirano Advogados informa que são inverídicas as alegações de que o Conselho de Administração da companhia não teve acesso à totalidade das informações relevantes analisadas no contexto da apuração conduzida pelo escritório em conjunto com a firma de consultoria e auditoria Ernst & Young (EY). Todos os dados significativos identificados na investigação foram apresentados por representantes do Veirano e da EY aos membros do Conselho em reunião específica para este fim e o data room com a totalidade das informações, conclusões e documentos analisados foram colocados à disposição para a consulta desta instância de governança da companhia. 

O Veirano Advogados também refuta com veemência as insinuações de que não teria realizado investigação isenta. Todos os procedimentos foram conduzidos de forma técnica, imparcial e nos termos determinados em seu mandato. 

O Veirano Advogados reitera que sua atuação neste processo de investigação privada se deu de forma independente e que as informações apresentadas ao Conselho de Administração da Eldorado Celulose foram embasadas nos melhores procedimentos aplicados em trabalhos desta natureza.

Após a publicação da reportagem, a consultoria EY enviou a seguinte nota:

“A EY esclarece que o relatório completo elaborado pela consultoria  nunca teve o acesso restringido aos membros do Conselho da Eldorado. Em entrevista ao ‘Estado’, o representante da EY ressaltou que não poderia dar detalhes pontuais sobre o conteúdo do relatório da investigação, já que o mesmo, naturalmente, é protegido por sigilo contratual e legal.

EY está firmemente convicta de que conduziu a investigação sem pré concepções, com total ceticismo profissional, absoluta imparcialidade e independência,  realizando um trabalho de excelência e estrita fidedignidade fática, a qual está devidamente espelhada em seu relatório.

A EY reitera seu compromisso com a transparência e se coloca, serenamente, à disposição para elucidar qualquer tipo de questionamento, caso instada a fazê-lo pelas autoridades competentes.”

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