IPCA-15 reforça cenário do BC para convergência da inflação, diz ex-BC

Para o ex-diretor do Banco Central, Sérgio Werlang, decisão foi bastante correta e apropriada  

Ricardo Leopoldo, da Agência Estado,

20 de outubro de 2011 | 14h28

O ex-diretor do Banco Central e atual vice-presidente-executivo do Banco Itaú Unibanco, Sérgio Werlang, disse em entrevista à Agência Estado que a inflexão na gestão da política monetária realizada pelo Comitê de Política Monetária (Copom) em 31 de agosto "foi uma decisão bastante apropriada" e correta. "Isso pode ser avaliado em função da forte crise internacional, da alta de juros de 1,75 ponto porcentual pelo BC de janeiro a julho e das ações macroprudenciais, adicionadas a medidas do governo de contenção de gastos que já começaram a gerar efeitos na demanda agregada, sem dúvida nenhuma", disse.

Para Werlang, a desaceleração do nível de atividade doméstica, medida por vários indicadores econômicos, mais a redução da alta do IPCA-15, de 0,53% em setembro para 0,42% em outubro, reforçam o cenário defendido pelo presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, de que a inflação vai convergir à meta de 4,5% no próximo ano.

Tombini tem afirmado que "a desaceleração  do IPCA está encomendada", pois deve baixar do atual patamar de 7,3% no acumulado em 12 meses para 5,3% em abril ou maio do próximo ano. "Cada vez mais está se mostrando que o cenário dele é o mais provável", comentou Werlang.

O presidente do BC foi muito criticado por analistas, que diziam que sua avaliação sobre os impactos desinflacionários da crise internacional sobre o Brasil era exagerada. Alguns, como os ex-presidentes do Banco Central Gustavo Loyola e Affonso Celso Pastore, chegaram a comentar que o regime de metas de inflação fora abandonado pelo BC.

"Eu mesmo cheguei a declarar que a aposta do BC de 31 de agosto era ousada, mas perfeitamente realizável. E agora ela está se realizando", destacou Werlang. "Se inflação vai atingir exatamente 4,5% em 2012 é detalhe estatístico", disse o vice-presidente do Itaú. Até a projeção do  BC para o IPCA para 2012 não é de exatos 4,5%, mas sim de 4,7%.

Mais cortes Werlang acredita também que a desaceleração da demanda agregada e a consequente baixa da inflação devem levar o BC a reduzir os juros para "pelo menos 9,5% até meados do próximo ano." Segundo ele, é claro que o nível de atividade perdeu vigor em função de ações do governo para reduzir o consumo, como o aumento dos juros de 10,75% para 12,50% de janeiro a julho, as medidas de restrições do ritmo de concessão de crédito e a decisão do Poder Executivo de reduzir os gastos, o que está contemplado no cumprimento do contingenciamento de R$ 50 bilhões de recursos do Orçamento deste ano.

Poucos analistas duvidam que o governo vai entregar a meta cheia de superávit primário neste ano, pois, além de ter condições de economizar R$ 117,89 bilhões, a administração federal prometeu elevar esse montante para R$ 127,89 bilhões em 2011.

Segundo Werlang, o agravamento da crise externa desde meados de agosto vai agregar elementos desinflacionários ao Brasil nos próximos meses. Hoje, muitos analistas internacionais e autoridades do governo, como o presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Luciano Coutinho, avaliam que a Grécia vai passar por um default organizado da sua dívida soberana.

Adicionado a esse fato, há a  necessidade reconhecida por autoridades europeias, como a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, de recapitalização de bancos europeus em volume que pode chegar a 200 bilhões de euros, de acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI).

"Nossos modelos mostram que, com a desaceleração externa, acoplada à redução do nível de atividade interna causada pelas restrições da demanda já registradas, há espaço para a queda de juros no Brasil para 9,5% até meados do próximo ano", disse o vice-presidente do Itaú Unibanco.

Nesse contexto de desaceleração do nível de atividade, Werlang destaca que a inflação inevitavelmente vai cair e mostrar no próximo ano seu novo patamar, que será mais próximo da meta de 4,5% - e não a atual marca de 7,3% exibida pelo IPCA de setembro no acumulado de 12 meses. O BC acredita que o IPCA vai baixar para 5,3% em abril ou maio, também no acumulado no horizonte de um ano.

Segundo ele, como o mercado vai começar a perceber que o cenário do BC de convergência da inflação ao centro daquela meta em 2012 é o mais correto, as expectativas para a inflação relativas ao próximo ano vão começar a baixar e ir na direção apontada pelo BC. "Isso vai  acontecer. É apenas uma questão de tempo", afirmou. Segundo Werlang, com a redução da velocidade do nível de atividade, o Brasil deve crescer 3,2% em 2011 e avançar 3,5% em 2012.

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