Carlos Barria/Reuters
Carlos Barria/Reuters

Depois de indícios de fraude, IRB tenta ressurgir das cinzas

Ressegurador, que já foi ‘queridinho’ do mercado, viu preço de suas ações recuarem de mais de R$ 100 para R$ 2 nos últimos anos na Bolsa

Fernanda Guimarães, O Estado de S.Paulo

17 de julho de 2022 | 05h00

Em fóruns de investimento em redes sociais, o ressegurador IRB Brasil RE se tornou tema frequente de discussões ao longo dos últimos dois anos. A pergunta mais recorrente tem sido: “O que está acontecendo?”. A companhia, que foi “queridinha” do mercado, entrou em uma espiral negativa quando, em 2020, foram revelados indícios de fraude por antigos administradores.

Desde então, as ações despencaram mais de 80%, isso já descontando um desdobramento de ações realizado em 2019. 

Para se ter uma ideia do tombo, é só olhar o preço das ações. Hoje, cada papel gira em torno de R$ 2, sendo que, lá atrás, chegou a superar a cotação de R$ 100. E, entre as instituições financeiras e investidores, o clima continua a ser de desconfiança. O que “salva” a situação é o fato de o IRB ter sócios poderosos: o Itaú Unibanco e o Bradesco.

Motivos para o clima negativo não faltam. Depois que se tornou pública a existência de indícios de fraude dos administradores – bomba que explodiu após o próprio IRB disseminar a informação falsa de que o megainvestidor Warren Buffett havia se tornado acionista da empresa –, a percepção de analistas é de que, além da crise de credibilidade, a empresa também ficou em xeque. A visão, agora, é de que um aumento de capital seria imprescindível para salvar o negócio.

Sem o apoio de fundos, que deixaram de ser acionistas nos últimos tempos, a leitura é de que Bradesco e Itaú terão de arcar com o custo de tapar o buraco no IRB – os bancos têm, respectivamente, 15,78% e 11,51% do ressegurador. “A pergunta que fica é se um novo aumento de capital será suficiente para resolver o problema todo”, diz um analista de mercado, que pediu anonimato. 

Mas a companhia já queimou dinheiro antes. Em 2020, a empresa fez uma captação privada que somou R$ 2,3 bilhões, com o apoio de ambos os bancos, que juntos injetaram R$ 600 milhões. Nos bastidores, a participação no IRB é vista como um “constrangimento” tanto para Itaú quanto para Bradesco. Procurados, os bancos não comentaram.

‘Fake news’

Uma das razões para a crise no IRB foi o imbróglio envolvendo Buffett, da gigante Berkshire Hathaway. O boato espalhado pelo próprio IRB foi veementemente negado pelo fundo americano. Na época, o grupo declarou que “não é atualmente acionista, nunca foi uma acionista e não tem intenção de ser acionista do IRB”. Logo após o escândalo, todo o conselho de administração do IRB foi trocado. 

Além disso, ex-executivos da companhia passaram a ser investigados por órgãos reguladores como a Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Nos Estados Unidos, o Departamento de Justiça também investiga o ressegurador. Isso por causa de indícios de manobras contábeis até 2020. 

Mas a questão de imagem e as investigações são apenas parte do problema, de acordo com especialistas em mercado financeiro. “A empresa tem prometido uma retomada, o que não vem acontecendo. Os resultados têm sido, trimestre a trimestre, piores do que o esperado”, diz um analista, que acompanha o IRB desde sua abertura de capital, em 2017. 

A visão é de que a empresa precisa ganhar novos contratos para voltar a conseguir ampliar sua rentabilidade. No primeiro trimestre, o IRB conseguiu voltar ao azul, com lucro de R$ 80 milhões, mas em abril o número voltou ao vermelho, com um prejuízo de R$ 92 milhões

As empresas de capital aberto precisam abrir seus dados de três em três meses, mas o IRB tem de revelar os seus mensalmente, já que precisa fornecer os balanços à Superintendência de Seguros Privados (Susep), regulador do setor de seguros no Brasil. “A questão é que ninguém sabe o tamanho do buraco”, diz uma fonte.

O momento atual da economia, no entanto, seria propício para o negócio se reerguer, uma vez que o cenário de alta de juros favorece o setor de seguros. Além disso, o IRB atua sem muita concorrência no mercado de resseguros.

Altos e baixos

Depois de as ações da empresa terem sido recomendadas por praticamente todos os bancos por vários anos, o que levou a um pico de valorização de 300% após a abertura de capital, uma carta de uma velha conhecida do mercado, a gestora Squadra, deu os primeiros indícios de que havia problemas dentro da empresa. O documento questionou uma série de pontos, incluindo as práticas contábeis do ressegurador. 

Muitos analistas e investidores, na época, olharam a carta de forma crítica. Por algum tempo, as suspeitas foram deixadas de lado, principalmente porque a Squadra estava apostando na queda das ações do IRB na Bolsa – o que no mercado significa estar com uma “posição vendida”. Logo depois, porém, veio o escândalo envolvendo Buffett.

No atual cenário de crise, a empresa tem seus defensores. Um dos principais acionistas é o investidor individual Luiz Barsi. No ano passado, ele disse que quem não comprasse papéis da IRB iria se arrepender. Recentemente, sua participação se refletiu em uma cadeira no conselho do ressegurador, ocupada por sua filha, Louise.

Procurado, o IRB não concedeu entrevista. 

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