Jornais europeus preferem iPhone ao Kindle

Discussão sobre novo leitor de livros digitais dominou primeiro dia de conferência

Sandra Silva, especial para o estadao.com.br,

06 de novembro de 2009 | 01h23

A  discussão se o novo e-reader Kindle da Amazon  será a nova aposta tecnológica das empresas de comunicação para a difusão de conteúdos jornalísticos  esquentou o primeiro dia da 17ª Conferência de Publicações Digitais da WAN/IFRA (Associação Mundial de Jornais e Empresas de Conteúdo), nesta quarta-feira, 5, em Barcelona.

 

A presidente da companhia inglesa Stradbroke Advisors Investments (especializada em start up de empresas virtuais na Europa), Inmaculada Martinez, acredita que o iPhone vencerá a disputa com o novo Kindle da Amazon na difusão de conteúdos jornalísticos porque simplesmente as pessoas não querem mais um gadget. Há também outros motivos para a preferência explícita pelo celular como o melhor device de notícias jornalísticas: o preço considerado alto do equipamento Kindle, o valor ainda pouco acessível de uma assinatura anual de notícias de jornais no novo e-reader e o fato de que as pessoas continuam amando os livros de papel.

 

Inma também aposta na maior praticidade do iPhone para o investimento em publicidade e projetos de conteúdo editorial das empresas de mídia. "O iPhone tem mais usabilidade. O Twitter é muito prático, tenho o link de todos os meus amigos na minha tela de forma prática. Na revista House & Garden tenho acesso a aplicativos com endereços e geolocalização. O conteúdo para celular é para pessoas dinâmicas. O Kindle é para pessoas que viajam muito e precisam estar linkadas o tempo todo", afirma.

 

O jornal francês le Parisien lançou em fevereiro deste ano a versão do site para iPhone e está fazendo testes com o Kindle mas o diretor-adjunto de novas mídias, Eric Leclerc, afirma que, por enquanto, lançar plataforma em Kindle não é um negócio rentável.

 

"Uma assinatura anual para o recebimento de notícias no Kindle é cara para os leitores em geral. Já no iPhone estamos com resultados incríveis de page views e usuários. Para 2010 pretendemos lançar conteúdo de geolocalização no iPhone (GPS)",afirma.

 

O Telegraph Media Group (TMG) do Reino Unido (UK) também tem investido na criação de microsites para iPhone, como o TelegraphF1 (Fórmula 1), e microsites de marcas. Um dos exemplos mostrados pelo chefe de móbile do TMG, Maani Safa, foi construído para a fabricante Mercedes Benz. "Também criamos canais específicos de esportes, viagem, negócios e notícias gerais no iPhone. Temos várias seções e artigos. Absolutamente tudo está online. Temos também o TelegraphTV em móbile com vídeos que você paga quando assiste. Em publicidade, nossa experiência mostra que vídeos no iPhone têm de ser mais curtos, com duração de 10 a 15 segundos. Temos também pacotes de publicidade aos anunciantes de microsites bronze, com galeria de imagens; prata, intermediário, e ouro, com recursos de geolocalização", afirma.

 

A Índia - país com a maior circulação de jornais pagos do mundo e três dos maiores diários do planeta - também deverá experimentar considerável incremento da produção de conteúdos jornalísticos para celular nos próximos anos, por conta da má qualidade das conexões de internet em computadores do país e problemas de infraestrutura de rede. A migração da mídia impressa será diretamente para o celular, segundo previsão da COO do jornal Manorama Online, Mariam Mammen Mathew.

 

Convergência

 

O Kindle e outros e-readings do mercado continuarão então restritos à leitura de livros? Não. Embora haja alguns produtos de leitura eletrônica de conteúdo jornalístico já lançados por jornais da Ásia e dos Estados Unidos antes da chegada do Kindle, ao futuro da indústria jornalística podem estar reservados equipamentos mais compactos, numa convergência do e-reader com o celular, laptop e netbook. Esta é a tendência apontada pelo diretor-executivo de plataformas digitais emergentes e de desenvolvimento de negócios da WAN-IFRA, Stig Nordqvist.

  

Para Nordqvist, diferentes tecnologias têm sido absorvidas pelos consumidores sem grandes desastres. "Tenho falado com a fabricante de câmeras Nikon e eles nunca venderam tantas câmeras high tech. A chegada da câmera digital ao celular não prejudicou as vendas de câmeras fotográficas porque os consumidores compram produtos diferentes e consomem vários tipos de mídia em tempos diferentes. O futuro dos jornais terá o laptop e o celular integrados num mesmo equipamento com o e-reading e netbook. A questão não é tão simples como o dilema 'is black or white" ou quem vai ganhar, o iPhone ou o Kindle. Para mim, é mais fácil ler no Kindle com um clique, do que folhear páginas de um livro quando estou no banheiro, por exemplo", provoca Nordqvist.

 

Competição com o Google

 

Em Cingapura, os investimentos em internet do grupo SPH (Singapore Press Holding) - que viu a gorda rentabilidade publicitária de mídia impressa reduzida neste ano e um inexpressivo crescimento em internet - estão concentrados na nova ferramenta de buscas Rednano.

 

Desde o lançamento do produto, uma das políticas comerciais da empresa de comunicação é a de não veicular campanhas publicitárias de anunciantes que não investem em ferramentas de busca (searching).

 

O Rednano também foi replicado em outras plataformas. O produto é a estratégia para atrair internautas com resultados de notícias mais precisas em conteúdos relacionados à Cingapura. "Se você quiser saber o que o presidente Obama comeu no café da manhã, vá ao Google mas se você quer saber sobre Cingapura, busque o Rednano. Nós conhecemos melhor Cingapura do que o Google. E esperamos atingir o ponto de equilíbrio financeiro com o Rednano em cinco anos. Existem pessoas de Cingapura que não aparecem nas buscas do Google e nós vamos coloca-las online", afirma, o CEO, Paul Jansen, que começou a fazer parcerias com outras empresas de internet para a inclusão de publicidade no Rednano.

 

Além do novo site de buscas, o grupo SPH lançou sites internacionais de notícias em outros idiomas para atrair leitores também na China, Filipinas e outros países.

 

Aumentar a visibilidade internacional e reforçar a visibilidade online também é a meta de grupos de comunicação espanhois que tiveram um duro 2009. Segundo o chefe do departamento de projetos jornalísticos da Universidade de Navarra, Ramón Salaverría, o grupo El Mundo passou a ostentar há cerca de 10 dias, a marca única "ElMundo.es" para qualquer plataforma editorial.

 

O El País quer aumentar a presença além fronteiras. "A Espanha é para os países de língua espanhola o que os Estados Unidos representam para o mundo. A estratégia dos meios de comunicação espanhois é de se tornarem globais, num momento em que se volta a discutir conteúdo pago na internet localmente, após a crise americana do subprime." Depois da explosão da bolha da internet, no início da década de 2000, o El País decidiu cobrar pelo acesso a conteúdo editorial mas recuou anos depois, pressionado pela concorrência do El Mundo.

 

Num período denominado pelo acadêmico de Navarra como de "hibernação", o projeto editorial digital espanhol Soitu.es, lançado há 22 meses no país, encerrou suas atividades neste mês. "Em 2009 três meios de comunicação digitais encerraram suas atividades. Enquanto o grupo ABC.es com sede em Madri redesenhou suas publicações".

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