Juro deve superar 12% para manter inflação na meta, dizem analistas

Isso faria o Copom promover neste ano pelo menos mais duas elevações da Selic em 0,75 ponto porcentual e outra, de 0,50

Francisco Carlos de Assis, da Agência Estado,

20 de julho de 2010 | 14h04

Para evitar o risco de perder o controle da inflação em 2011, o Banco Central deveria elevar o juro básico da economia para um patamar acima da taxa neutra, entre 12% e 12,5%, já neste ano. Isso faria o Comitê de Política Monetária (Copom) promover neste ano, pelo menos, mais duas elevações da taxa em 0,75 ponto porcentual e outra, de 0,50 ponto porcentual. Esta curva é defendida por analistas que não enxergam, na recente desaceleração da economia, alívio que permita ao BC diminuir a magnitude do aumento da Selic. Mesmo porque, de acordo com eles, a inflação que se registrará em 2011 será de difícil controle. Este grupo é formado por profissionais que não alteraram seus cenários devido a indicadores de curto prazo.

Levantamento do AE Projeções na semana passada com 57 instituições mostra que 24 delas defendem um ritmo de aumento de juros neste ano que leve a Selic para 12% no final de 2010.

Na avaliação destes analistas, muito da desaceleração recente da atividade econômica está relacionada mais a um ajuste do forte desempenho nos primeiros três meses deste ano do que um arrefecimento efetivo da economia. Mesmo porque a leitura feita do atual momento econômico é a de que há ainda muitos estímulos à produção e ao consumo. A concessão farta de crédito, ancorada pela confiança vinda de milhões de pessoas que estão conseguindo vagas no mercado de trabalho ou formalizando empregos já existentes e a proximidade do limite da capacidade de produção de alguns setores da economia, como construção, pressionam a economia sob a ótica da demanda.

Estes analistas estão na contramão da maioria no mercado que mudou de posição após o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgar que a produção industrial em maio ficou estável após uma queda de 0,70% em abril. O grosso dos departamentos econômicos passou a ver nos dados a oportunidade de o BC reduzir a magnitude de alta da Selic nos próximos meses. No começo de 2010, quando os indicadores antecedentes atingiam patamares elevados, muitos dos que agora defendem um aperto mais brando da Selic propunham uma alta de 2,5 a 3 pontos até o final do ano.

A avaliação destes profissionais é a de que a desaceleração da economia no segundo trimestre decorre de fatores localizados e que os estímulos ao consumo e à produção são ainda muito fortes. Para a economista do Banco Santander, Luiza Rodrigues, a desaceleração da produção industrial, por exemplo, está associada a fatores pontuais, como o calendário e o ajuste estratégico da atividade.

Em maio, por exemplo, a produção industrial passou por um ajuste. Além do menor numero de dias úteis, a Petrobrás fez uma parada técnica para manutenção de plataformas. Só isso, de acordo com Luiza, tirou 0,2 ponto porcentual da produção como um todo. No terceiro trimestre, a atividade deve voltar à normalidade, acrescida de outras variáveis de estímulo.

Tamanho da desaceleração assustou analistas

O tamanho do tombo da produção industrial em abril e em maio em relação às taxas do primeiro trimestre foi o que mais assustou os analistas. Alguns setores aproveitaram para ajustar atividade após ter operado a todo vapor no primeiro trimestre.

No setor automobilístico, como o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) é pago na fábrica, as montadoras aproveitaram para antecipar o fim da isenção do imposto para formar estoques sem o ônus da tributação. A produção de automóveis em março cresceu 10,2%. É natural que depois de ocupar todos seus pátios as montadoras tirassem o pé do acelerador.

O economista-chefe da Ativa Corretora, Arthur Carvalho, concorda com a economista do Santander, Luiza Rodrigues. De acordo com ele, dentro de um processo de crescimento é normal oscilações nos dados de curto prazo, o que não significa que a trajetória não seja de expansão. "A sensação é que estamos num soluço da recuperação", afirma Carvalho que descarta desaceleração econômica, a não ser do setor automobilístico devido ao fim da isenção do IPI. Por isso, assinalam os economistas, a desaceleração da atividade nos meses de abril e maio não pode ser tomada como justificativa para o BC reduzir desacelerar a velocidade de aumento da taxa de juros.

Falso cenário benigno

Outro fator que leva boa parte dos analistas a acreditar que o Banco Central terá de elevar a Selic acima da taxa neutra vem do fato de que os aumentos feitos neste ano terão impacto na economia só em 2011. E, no que diz respeito à inflação, o que realmente norteia as decisões de política monetária do Banco Central, ela será de difícil controle no ano que vem. Isso porque carregará uma forte inércia do IGP-M deste para o próximo ano, o que dificultará o trabalho do Copom em manter a inflação dentro do intervalo da meta.

Os analistas preveem que o IGP-M supere 8% em 2010. Se estas previsões forem confirmadas, significa dizer que 30% do IPCA no ano que vem já começará em janeiro acima da meta. Isso porque os preços administrados, que respondem por um terço do IPCA é corrigido pela variação do IGP-M no ano anterior. Dado que os preços administrados vão variar acima da meta e que sobre estes a política monetária não tem alcance, caberá ao BC elevar a taxa de juros o suficiente para manter os preços livres bem abaixo da meta.

No entanto, essa não será uma tarefa fácil já boas condições de trabalho e renda reforçam o consumo."Por isso,o aperto monetário tem que ser bem maior que o esperado pelo mercado", avalia a economista do Banco Santander, Luiza Rodrigues. "Tem que ficar acima de 12%, que é a taxa neutra, para conseguir trazer a inflação para a meta."

 
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