Lava Jato é prova de maturidade do País, diz presidente da Vale

Lava Jato é prova de maturidade do País, diz presidente da Vale

Murilo Ferreira afirma que investigações dão clareza aos negócios, mas condena caça às bruxas sem provas conclusivas

Mônica Ciarelli e Mariana Durão, O Estado de S. Paulo

27 de novembro de 2014 | 07h00



O mineiro Murilo Ferreira, presidente da Vale, vai na contramão dos que acham que os desdobramentos da Operação Lava Jato podem paralisar o País. Pelo contrário, segundo ele, o aprofundamento das investigações é um sinal de maturidade do Brasil. “Quando você vaza um tumor está fazendo isso para que possa restabelecer a saúde.” Ferreira é taxativo ao negar que o apetite dos investidores externos será afetado pelas investigações em torno do esquema de corrupção envolvendo a Petrobrás, empreiteiras e políticos.

Para referendar seu ponto de vista, ele lembra que a China tem 26 ex-vice-ministros na cadeia por corrupção e o México luta contra o domínio dos traficantes. “Os investidores sabem muito bem diferenciar as coisas”, diz. Com um grande leque de projetos em curso, a Vale trabalha com as principais empreiteiras brasileiras. Mas Ferreira diz que não haverá caça às bruxas.

A Operação Lava Jato afeta o ambiente de negócios no País?

Todo processo como esse é desgastante, especialmente sob a ótica política. Eu procuro enxergar o copo cheio. Acho que todas as vezes que você trouxer à luz do dia fatos que precisavam ser esclarecidos é positivo. Isso precisa ser feito com muito cuidado porque vimos que há poucos dias foi incluído no rol dos suspeitos uma pessoa que não deveria estar incluída (o diretor de Abastecimento da Petrobrás, José Carlos Cosenza, citado erroneamente pela Polícia Federal como beneficiário do esquema de corrupção da Lava Jato). As investigações trazem maturidade para o ambiente de negócios. É uma prova de amadurecimento e crescimento dos padrões brasileiros. Quando você vaza um tumor está fazendo isso para que possa restabelecer a saúde.

O investidor não fica ressabiado?

O mercado não pode, na minha avaliação, fazer um julgamento de forma irresponsável. Hoje temos 26 vice-ministros do governo anterior chinês na cadeia. Não vejo nenhuma ameaça de estabilidade por causa disso e sim uma luta do presidente Xi Jinping em trazer a corrupção à luz do dia na China. No México, um país que tem sido bastante aplaudido pelo mercado, diversas províncias estão lutando com um domínio ainda que parcial dos traficantes. Esses processos trazem mais transparência à sociedade. Não é por isso que você deve evitar o México, o Brasil ou a China. Ao contrário, significa que cada vez mais aqueles países estão vivendo sob o império da lei. Os investidores sabem muito bem diferenciar as coisas.

A investigação de empreiteiras nos episódios de corrupção na Petrobrás afeta obras realizadas pela Vale?

Trabalhamos com as maiores empresas brasileiras. Não quero nesse momento, em que estão sendo averiguados os fatos, impor culpa a nenhuma delas. Quero saber até onde foram ações individuais ou ações corporativas. A partir de uma definição do julgamento e baseado no nosso código de ética, tomaremos a atitude pertinente. Neste momento, sem ter uma base fundamentada de culpa, não seremos imprudentes de fazer uma avaliação tão rápida e tão desprovida de maturidade.

Há alternativa a essas empreiteiras no País?

Temos sim opções a esses grupos. Evidentemente os grupos que trabalham aqui no Brasil já têm uma estrutura verticalizada. Você não pode dizer que essas empresas são insubstituíveis porque teria que falar que toda a cadeia de fornecimento de serviços estaria comprometida. Tenho a impressão que vamos começar a ver um fluxo de empresas estrangeiras para o Brasil procurando fazer negócios. É natural que se ocupe espaços quando estão vazios, independentemente do resultado das apurações. Enquanto houver essa situação muitas equipes das construtoras estarão ocupadas nos esclarecimentos necessários.

Como o sr. recebeu a reeleição da presidente Dilma Rousseff? Seu nome foi cotado para a Fazenda...

Eu não fui sondado, não fui consultado e não fui indicado para nenhum ministério.

Qual a sua avaliação das eleições de 2014? O sr. chegou a criticar a postura da indústria de São Paulo frente ao governo...

Acho que uma polarização da forma que tivemos nunca é construtiva. Durante o período da campanha eleitoral os temas precisam ser explorados, mas acho que se deve deixar de lado aquela situação que se tem em São Paulo, onde hoje você tem um radicalismo político muito maior vis-à-vis o restante do País.

A escolha de Joaquim Levy para a Fazenda sugere um ajuste fiscal mais duro. Isso pode prejudicar o investimento?

Já disse antes das eleições que via como principal ponto que deveria ser endereçado em um período seguinte o ajuste fiscal. Acho que existe um consenso que o Estado teve e tem um papel importantíssimo na economia brasileira porque ele intervém em setores em que uma camada da população está desamparada. É necessário que o Estado trabalhe para reduzir essas disparidades. Em alguns momentos a iniciativa privada por diversas razões não responde às demandas por investimento e o Estado acaba fazendo esse esforço. É um processo mandatório. O que me parece é que as pessoas ignoram o que está acontecendo no mundo todo.

Como assim?

Os países de forma geral, inclusive os EUA, encontram-se com desequilíbrios orçamentários. São filhos do período vivido em 2008 e 2009, quando houve grande estatização de dívidas privadas. Nos EUA houve o caso do sistema bancário e da General Motors. Isso fez com que a dívida dos países aumentasse de forma substancial. Depois desse esforço brutal os Estados estão com sua capacidade de alavancagem debilitada. Não é uma situação brasileira, ocorre na maioria dos países europeus, na Ásia, mesmo na China. É uma fotografia mundial que merece a atenção de todos os governos.

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