Julius Baer
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‘Lava Jato mostrou que bancos falharam’

Braendlin reconhece que não foi feita análise suficiente sobre a origem de fortunas de brasileiros envolvidos na operação

Entrevista com

Marc Braendlin, diretor para o Brasil do Julius Baer

Jamil Chade, correspondente, O Estado de S.Paulo

12 Dezembro 2017 | 05h00

ZURIQUE – Os bancos fracassaram em implementar controles suficientes sobre a origem dos recursos de seus clientes e foram impactados pela Operação Lava Jato. Em entrevista exclusiva ao Estado, o Banco Julius Baer abandona a postura tradicional das instituições suíças de se eximirem de qualquer falha e reconhece que o setor não cumpriu seu papel para evitar a lavagem de dinheiro e corrupção. 

“Para ser sincero, de uma forma geral, os bancos não fizeram um bom trabalho no passado”, disse Marc Braendlin, diretor do Julius Baer para o Brasil. “Se uma pessoa de repente passava a registrar grande crescimento de renda, os bancos não faziam perguntas suficientes para justificar a evolução do patrimônio. Bancos fracassaram em exigir respostas suficientes”, admitiu. 

Em três anos, procuradores encontraram mais de mil contas nos bancos suíços envolvendo suspeitos na Lava Jato. No total, foram bloqueados mais de US$ 1 bilhão. No caso do Julius Baer, foram as contas do ex-deputado Eduardo Cunha que mais chamaram a atenção pública. O banco também foi citado nas delações da JBS.   

“A Lava Jato teve um efeito negativo para muitos bancos internacionais. Muitos foram citados, inclusive nós. Certamente fomos impactados”, admitiu. 

O executivo ainda revela que, no programa de repatriação de dinheiro promovido pelo governo federal, os clientes com contas no exterior pagaram a multa com o dinheiro que já estava no Brasil, mantendo suas fortunas fora do País. Eis os principais trechos da entrevista: 

Qual é a avaliação do banco sobre a gestão de fortuna hoje no Brasil?

Estima-se que cerca de 70% da fortuna dos brasileiros está depositada no próprio país, enquanto a diferença em investimentos no exterior. Recomendamos aos nossos clientes que olhem sempre para seu portfolio e que, com a GPS e nossos escritórios no exterior, podemos oferecer diversas oportunidades de investimentos, locais e fora do país. No passado, as pessoas consideravam que o dinheiro que estava fora permaneceria fora. Desde 2005, essa realidade mudou.

Os investidores, sentindo-se mais seguros, iniciaram movimento para trazer parte do dinheiro aplicada em bancos estrangeiros. Assim, instituições que não estavam presentes no Brasil passaram a ter problemas para manter seus clientes. Atualmente, percebe-se que vários bancos internacionais estão interessados em estabelecer presença no Brasil.

De outro lado, gestores de fortunas brasileiros também passaram a ver oportunidades de investimentos no exterior. Hoje, o cliente pede oportunidades tanto no mercado doméstico como nos externos. 

O que o sr. viu durante o auge da crise no Brasil em termos de fluxo de capitais de fortunas privadas?

É importantes destacar que as elevadas taxas de juros nominais beneficiam gestores de fortuna no Brasil. Esse é um fato. No nosso caso, por termos uma operação local, registramos aumentos dos ativos também por conta deste fator. Vimos a crise. Mas a gestão de fortunas não foi muito impactada por ela. Houve certa pressão.

Algumas famílias chegaram a retirar parte de sua fortuna pessoal para colocar em suas empresas, pois estas não estavam bem. Isso significa que parte desse dinheiro saiu do guarda-chuva da gestão. Entre 2010 e 2013, vimos uma criação real de riqueza. E, de repente, isso parou. Mas ainda apresenta bom potencial de crescimento o negócio gestão de fortunas. 

 E como o sr. avalia hoje a economia brasileira? Voltou a ser registrado um crescimento de riqueza?

A economia brasileira volta a dar sinais de recuperação. E vemos interesse crescente de estrangeiros em negócios no Brasil. Estrangeiros e brasileiros veem o País de forma diferente. Os brasileiros são mais de extremos: têm a tendência de serem otimistas demais ou pessimista demais. Já os estrangeiros atuam em intervalos menores, não na mesma proporção que os brasileiros.

O Brasil tem muito a ver com sentimentos, com o lado emocional, e isso vai ser testado nas eleições de 2018. Haverá um crescimento no ano que vem. Será um ano provavelmente bom. Nossos economistas avaliam uma separação entre a economia e a política. Em termos políticos, deve haver ainda um cenário delicado. Mas a economia melhorou bastante e a inflação está sob controle, fatos bem positivos.

E para um banco de gestão de fortuna, qual a estratégia?

A volatilidade do mercado brasileiro é alta. Isso é um fato. Mas o Brasil é uma das dez maiores economias do mundo. Para nós, há toda uma lógica para justificar nossa presença aqui e sempre dissemos que se trata de uma relação de longo prazo. Tivemos anos muito bons no começo. Depois, anos não tão bons. Mas estamos conscientes das flutuações e a taxa de câmbio tem também um enorme impacto. 

De que forma a variação do real teve consequências?

Quando compramos a GPS, o dólar estava valia R$ 1,70. Chegou a R$ 4,00 e hoje está em torno de R$ 3,20. Em sete anos, em reais, crescemos três vezes no Brasil. Nossas operações com a GPS passaram de R$ 7 bilhões para R$ 25 bilhões neste período. Mas, em francos suíços, o crescimento foi de “apenas” 50%.

Que posição ocupa o Brasil na estratégia global do Julius Baer?

O Brasil é um país chave para o Julius Baer na América Latina. Existe potencial, inclusive em outras regiões que não sul e sudeste. Além disso, como os aspectos demográficos sinalizam limitações para os mercados europeus, países emergentes como o Brasil ganham expressão.

Como o banco viveu o programa de repatriação do governo brasileiro?

Um dos movimentos constatados foi o de clientes, com investimentos inferiores a US$ 1 milhão no exterior, optando por encerrar tais contas e trazer o dinheiro para o Brasil. Há um outro grupo, com uma situação muito clara: dissemos a eles que ou regularizavam suas situações ou teriam que deixar o banco.

Em 2010, quando adquirimos a GPS, deixamos claro que exigiríamos de novos clientes que estivessem em dia com suas obrigações; em outras palavras, ou nos provavam a origem do dinheiro declarado ou deviam resgatar seus depósitos. Não houve muitos desses casos. Mas na maioria dos casos, aqueles que pagaram as multas para a regularização de recursos mantidos no exterior o fizeram com dinheiro que já estava no Brasil. 

Por quê?

O sistema de pagamento era muito complexo. As grandes contas pagaram as multas com o dinheiro que tinham no Brasil. Outra fato relaciona-se a clientes que tinham de três ou mais contas em diversas instituições; não fazia mais sentido mantê-las e houve uma concentração em um número menor de bancos. E isto foi bom para nós. Há um número menor de players, mas com melhor serviço.

A Operação Lava Jato, com mais de mil contas na Suíça, afetou a forma pela qual o seu banco é considerado? Houve algum impacto? 

A Lava Jato teve um efeito negativo para muitos bancos internacionais. Muitos foram citados, inclusive nós.  Certamente fomos impactados. E, com certeza, do ponto de vista de reputação, não é bom. Mas é difícil, diria impossível,  saber quantos potenciais clientes desistiram de operar conosco. Felizmente, foi algo mais pontual, que não comprometeu o longo prazo. Não queremos clientes que estiveram ou estão envolvidos na Lava Jato. Se vemos algo, tomamos medidas.    

Hoje, se um cliente com aquele perfil aparecesse para abrir uma conta, seria mais difícil?

Há um rigor muito maior. O programa de repatriação promovido pelo Governo brasileiro nos ajudou muito. Não digo que é impossível, mas a chance de ocorrência de casos ligados a corrupção é muito menor. E, de uma forma geral, adotamos regras bem mais duras sobre lavagem de dinheiro nestes últimos anos.

Hoje, para qualquer pedido de transferência de recursos queremos saber quem é que está por trás dessa empresa, se existe um contrato. Não é impossível, mas são baixas as chances de se ver algo parecido com a Lava Jato de novo nos bancos suíços. 

A Lava Jato teve um peso no cenário internacional para pressionar bancos e instituições a adotar novas regras contra corrupção e lavagem?

Claro. Certamente aumentou a consciência. As regras atuais em termos de compliance são uma clara e forte evolução nesses controles. A magnitude da Lava Jato é imensa. Hoje, abrir uma conta é um desafio. Passamos de uma situação em que, no passado, e não apenas no Brasil, poucas perguntas eram feitas, para uma situação hoje onde muita informação é solicitada, checada e rechecada. 

Como foi sua reação diante da informação das contas da JBS em seu banco?

Não podemos comentar um caso especificamente. Mas, no âmbito da Lava Jato, fizemos uma revisão completa de nossas relações com empresas envolvidas. E onde achamos que poderia haver algo vinculado com o escândalo ou que não estávamos convencidos sobre uma determinada conta, fechamos.

Quando temos suspeitas, terminamos a relação. E na Suíça existem regras sobre informar isso às autoridades. Adotamos uma postura proativa. Se uma pessoa começa a ser investigada, todos os sinais de alerta começam a soar no banco. Adotamos para empresas regras muito rígidas em termos de compliance.    

Passou a ser impossível um cenário como o da Lava Jato de novo?

Não diria que seria impossível, mas tomamos hoje muito cuidado. Para ser sincero, de uma forma geral, os bancos não fizeram um bom trabalho no passado. Se uma pessoa de repente passava a registrar grande crescimento de renda, os bancos não faziam perguntas suficientes para justificar a evolução do patrimônio.

Hoje, em 99% dos bancos suíços, isso não me parece mais possível. Bancos fracassaram em exigir respostas suficientes. O que aprendemos de uma forma geral sobre esquemas de corrupção é que tivemos de olhar de forma mais automática para entradas e saídas de capitais de uma conta. Há alguns anos, isso não era monitorado automaticamente. Hoje, podemos traçar de forma muito mais sistemática, usando tecnologia para um mais acurado monitoramento. 

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