Leite: China afeta setor na Austrália, diz produtor do país

São Paulo, 6 - O efeito China está provocando uma verdadeira revolução no setor leiteiro da Austrália. Além das importações de lácteos, os chineses estão também comprando vacas na Austrália. Segundo o australiano Larry Brennen, presidente da Challenge Dairy Co-operative, que falou hoje no seminário do PENSA/USP em São Paulo sobre o agronegócio leiteiro no seu país, a China comprou 44 mil animais nos últimos 12 meses e pretende comprar mais 300 mil nos próximos anos. "Isso está fazendo com que os preços das matrizes subam muito", disse. Num primeiro momento, diz ele, os produtores de leite estão conseguindo bons lucros nessas vendas, mas a dúvida é como ficará o rebanho australiano nos próximos anos, sem a reposição de animais. O aumento de custo do rebanho também poderá diminuir a rentabilidade do setor no médio prazo. Brennen fez um amplo cenário de como está o setor pecuário na Austrália, que vem passando por fortes reformulações desde junho de 2000, quando implementou uma grande desregulamentação. Na região, Brennen disse que o preço do litro do leite no país caiu de 0,45 cents de dólares australianos para 0,25 cents de dólares australianos de 2000 para cá. "Estamos recebendo a metade do que os americanos recebem e muito menos do que os europeus", disse ele. Larry Brennen fez um relato sobre as dificuldades para a entrada no mercado chinês. Ele contou que uma joint-venture entre a sua cooperativa e uma empresa chinesa, a Sanyuan, durou menos de um ano. "Todas as grandes empresas nos recomendaram não fazer a joint, a Nestlé, a Fonterra, a Unilever, mas fomos adiante mesmo assim". Ele listou uma série de dificuldades que levaram ao fim da parceria, cujo o objetivo era ampliar e modernizar as processadoras da cooperativa na Austrália para atender o mercado chinês. "Ficamos muito entusiasmados com a possibilidade de distribuir leite e derivados para um mercado de 14 milhões de pessoas em Beijing". Brennen listou uma série de problemas que dificultaram as negociações, entre eles questões culturais, problemas que a empresa teve para entrar na bolsa chinesa e uma troca de executivo-chefe na Challenge. Mas o maior problema foi a forte intervenção do governo chinês na empresa. A Challenge esperava usar a rede de distribuição da própria Sanyuan na capital chinesa. Mas o governo chinês exigiu que a joint-venture criasse uma nova rede de distribuição. "Do ponto de vista do emprego em Beijing seria ótimo, mas do ponto de vista econômico foi inviável". O presidente da Challenge Dairy Co-operative, Larry Brennen, disse que a criação da cooperativa em 2001 foi a alternativa encontrada pelos produtores da sua região (sudoeste da Austrália) para se tornarem mais competitivos depois da desregulamentação do setor leiteiro na Austrália, em 2000. Havia até então um sistema de cotas de produção interno, com preços definidos pelo governo. Hoje, diz ele, o setor é totalmente desregulamentado. "Na época, a pecuária leiteira na Austrália estava totalmente estagnada com uma tendência de redução", disse. O processo não foi indolor, acrescentou Brennen, pois muito produtores deixaram o setor. "Resolvemos buscar alternativas e eu mais quatro colegas saímos viajando pela Europa, Estados Unidos e Israel". Nos EUA, os australianos encontraram algumas experiências de pequenas cooperativas (chamadas "small coops"), que têm administração profissionalizada e voltadas para o mercado consumidor e não para o mercado produtor. Eles conseguiram inicialmente 89 produtores que se associaram e investiram na cooperativa e hoje eles estão com 140 produtores associados. Brennen mostrou também um panorama das tendências da pecuária na Austrália, cujos produtos vêm ganhando mercado internacionalmente. Ele destacou, porém, que há uma grande dificuldade de manter o setor nas regiões mais secas do país, pois a questão da água hoje é um grande tema na Austrália. Como boa parte do território australiano tem clima desértico, há uma competição por água, especialmente no Norte e Leste. A Challenge está na região sudoeste da Austrália, que deve ganhar espaço por causa do clima chuvoso.

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