Para manter longe o preconceito, empresa se foca em organização de casamento homoafetivo

Para manter longe o preconceito, empresa se foca em organização de casamento homoafetivo

Após ter problemas para organizar seu próprio casamento, Danilo Fortes criou assessoria para uniões homoafetivas

Shagaly Ferreira, O Estado de S.Paulo

27 de fevereiro de 2022 | 05h00

Quando o assunto é amor, dizem que opostos se atraem. Só que o cerimonialista de Brasília Danilo Fortes, de 33 anos, resolveu ir além dos clichês românticos e celebrar a atração entre iguais. Para isso, criou a empresa For Same (“Para iguais”), dedicada à organização de cerimônias de casamentos homoafetivos

Antes de abrir o negócio, o mercado de festas já era ambiente familiar para Danilo. A mãe, decoradora, e a tia, relações públicas, tinham uma empresa de eventos em Brasília. Ali, desde a adolescência, adquiriu experiência na área. Mas isso não impediu que ele passasse por uma situação de preconceito que marcaria a sua vida. Ao decidir se casar, em 2015, recebeu várias negativas de fornecedores, que se recusaram a prestar serviços para uma união homoafetiva. 

O temor era de que a associação das marcas a uma cerimônia LGBTQIA+ pudesse afastar outros clientes. “Fui olhar locais em Brasília para fazer o casamento, onde eu já atuava como cerimonialista. Para minha decepção recebi vários nãos”, recorda o profissional, que teve de convencer o fornecedor a realizar sua festa.

Mas o dia de alegria foi abalado, mais uma vez, pela intolerância. “A gente passou por várias situações desagradáveis. A galera do buffet estava filmando a cerimônia, espalhando pelas redes sociais e fazendo chacota. Teve manobrista que recebeu mal os convidados e garçom que não servia bem por ser um casamento homoafetivo”, lamenta Danilo. 

O cerimonialista, também formado em relações públicas, viu em sua dor uma oportunidade de negócio e também de abraçar a causa. Para que outros casais não passassem por abordagens homofóbicas em suas celebrações, foram abertos os trabalhos da For Same naquele mesmo ano. 

Por pacotes de R$ 4 mil a R$10 mil, os clientes são assessorados por um time de cinco profissionais LGBTQIA+ que se dividem entre Brasília, São Paulo e Rio. As cerimônias já foram organizadas em todo o Brasil e até fora do País. Há 20 festas em planejamento para o ano de 2022. 

Os fornecedores passam por uma curadoria que avalia se são LGBT friendly (abertas à diversidade). Danilo conta que a rede de cuidado e respeito criada no atendimento acaba convertendo os contratantes em amigos. “O primeiro casamento homoafetivo que fiz foi de duas meninas. Nossa ligação foi tão forte que uma das noivas acabou virando minha sócia”, conta. 

O servidor público federal Bruno Crasnek, de 34 anos, conheceu os serviços da For Same pela internet. Na época, casar com o médico Gustavo Rübenich, 31 anos, era uma ideia incipiente, mas ele queria uma cerimônia em um ambiente de respeito pela orientação sexual e identidade de gênero não apenas dos noivos, mas também dos convidados.

Bruno explica que Gustavo e ele, como um casal gay cisgênero, estavam livres de amarras tradicionais em cerimoniais e queriam que seu casamento refletisse isso. “Uma assessoria especializada nos proporcionaria essa tranquilidade em duas mãos: que nossas ideias e rupturas com relação a um casamento tradicional fossem valorizadas e que todos os convidados se sentissem acolhidos por todos os fornecedores”, pontua.

O dia do “sim” foi 10 de agosto de 2019 e nem de longe lembrou a experiência negativa vivida por Danilo. “A For Same e o Danilo compartilhavam muitas das nossas angústias. Puderam, então, endereçá-las para que nos blindassem de situações de preconceito homofóbico”, diz o servidor público. 

FAZENDO DIFERENÇA

A negativa das empresas em prestar serviços para casais homoafetivos pode resultar em crime de violação de direitos humanos por motivação homofóbica, explica o consultor em diversidade e inclusão Vinícius Zacarias, membro do Conselho LGBT+ da Bahia. “As pessoas LGBTQIA+ são cidadãs brasileiras contribuintes como quaisquer outras e devem ter direitos a bens e serviços garantidos, sem discriminação de qualquer natureza”, alerta. 

Para o consultor, empresas especializadas no atendimento a esse público são vitais. “Grande parte dos novos serviços apresenta-se em cenários de demanda precarizada ou oferta inexistente. O interessante é que o pessoal mais atingido com isso agora tem expertise para criar suas próprias empresas e oferecer esse serviço de amor e respeito a seus pares”, acrescenta.

Para o cerimonialista, que vem de uma família evangélica e saiu de casa aos 18 anos em virtude de preconceito por ser homossexual, a For Same é sua forma de fazer a diferença no mundo. “Orava muito pedindo a Deus para que eu fosse usado como instrumento de luz e de amor, e com essa empresa eu acho que estou sendo”, diz Danilo.

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