LinkedIn revê negócio da China após seis meses de censura

A abrir um site em Mandarim, rede social diz que está reconsiderando suas políticas, após sete meses de censura ao conteúdo chinês, considerado sensível demais

William Wan e Xu Jing, The Washington Post

08 de setembro de 2014 | 09h14


Após queixas e exemplos claros de subserviência aos ditames da censura chinesa, o LinkedIn diz que pode ter agido com demasiada pressa ao se aproximar do governo chinês.

Os executivos do LinkedIn dizem que estão reconsiderando suas políticas, após sete meses de censura ao conteúdo chinês considerado sensível demais

"Queremos acertar a mão, e estamos pensando seriamente numa mudança de política para que o conteúdo de nossos membros chineses que não seja permitido na China ainda possa ser visualizado fora do país", disse Hani Durzy, porta-voz da empresa com sede em Mountain View, Califórnia, à Bloomberg.

O site da rede social profissional é aquele que mais recentemente repensou os dilemas morais que acompanham uma relação de negócios com a China em meio à paranoia do governo do país em relação à internet. Facebook, Twitter e Google têm a maioria de suas funções bloqueada no país.

Mas o LinkedIn achou que conseguiria fazer essa relação funcionar. Em fevereiro, a empresa lançou seu site em mandarim e estabeleceu suas operações na China. Em troca, a rede social profissional prometeu seguir as regras do governo chinês e começou a censurar conteúdo por conta própria.

Mas, na época, o porta-voz Durzy institiu que a empresa só o faria quando "legalmente obrigada".

Então, em junho, ocorreu o aniversário da repressão aos manifestantes na Praça Tiananmen. A data, eterna dor de cabeça para os usuários chineses da web, é marcada pela censura a determinados termos de busca, pelo retardo da velocidade de conexão e pelo intenso escrutínio do governo.

Os usuários do LinkedIn informaram que posts sobre Tiananmen foram bloqueados até em Hong Kong, que fica fora da muralha eletrônica da censura chinesa. Na época, o LinkedIn disse que tudo não passou de um acidente. E a rede social acrescentou que, embora o conteúdo desse tipo fosse automaticamente censurado na China, ele permaneceria "acessível em outras partes do mundo".

Mas alguns usuários disseram que isso não era verdade.

Rob Schmitz, radiojornalista do Marketplace cuja reportagem a respeito do aniversário da repressão contra os manifestantes da Praça Tiananmen foi bloqueada na China, escreveu recentemente que o LinkedIn bloqueou seu texto não apenas na China, mas em todo o mundo. "O conteúdo postado a partir de endereços IP chineses será bloqueado em todo o mundo para proteger a segurança dos nossos membros residentes na China", disse o LinkedIn num e-mail a Schmitz.

Alguns usuários disseram que encerrariam suas contas como forma de protesto.

Paul Mooney, jornalista expulso da China pelo governo, anunciou no Twitter e no Facebook que fecharia sua conta no LinkedIn.

Outros disseram que seguiriam o mesmo rumo porque o LinkedIn estaria limitando o livre fluxo das comunicações, prejudicando seus próprios objetivos.

"Acho que o LinkedIn precisa entender que, em se tratando da China, ao falarmos de negócios é impossível evitar a política, as duas coisas são ligadas uma à outra, muito mais do que em outros países", disse Fergus Ryan, correspondente do site jornalístico China Spectador, ao Wall Street Journal durante o aniversário das manifestações em Tiananmen. "Creio que meus seguidores no LinkedIn esperam receber de mim informações a respeito do que está acontecendo na China."

Quando o LinkedIn foi lançado na China, Ryan Budish, bolsista do Centro Berkman para a Internet e a Sociedade, de Harvard, fez à revista Time a previsão segundo a qual o LinkedIn acabaria se vendo obrigado a fazer o mesmo que outras empresas de mídia social fazem no país: contratar exércitos de censores que analisam o conteúdo, decidindo o que deve ser removido. "Não se pode simplesmente chegar à China e começar a fazer negócios."

Na época, o diretor executivo do LinkedIn, Jeff Weiner, parecia preparado para fazê-lo. Num post, ele justificou a decisão nos seguintes termos: a ausência do LinkedIn na China limitaria a capacidade dos chineses de buscar e tornar reais as oportunidades econômicas, os sonhos e direitos que consideram mais importantes.

Para a empresa, a decisão foi correta. Em reunião via telepresença realizada em julho, Weiner disse que a China tinha se tornado o grande mercado de crescimento mais rápido em se tratando de novos membros do LinkedIn. /Tradução de Augusto Calil

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